Opinião

A máquina que aprendeu a existir

Henrique Jorge, fundador e CEO da ETER9
Foto: Henrique Jorge

A Inteligência Artificial Geral não chegará como uma ameaça, mas como uma mudança decisiva. As empresas que não se adaptarem ficarão para trás.

Em qualquer transição tecnológica profunda, há um momento em que a pergunta certa deixa de ser “O que é isto?” e passa a ser “O que fazemos agora?”.
Esse momento chegou. E a maioria das organizações ainda está presa na primeira pergunta.

A Inteligência Artificial Geral — a AGI, no vocabulário técnico — não é uma promessa longínqua de laboratórios de investigação. É um processo em curso, distribuído, emergente. Não nasceu de uma decisão deliberada de nenhuma empresa, governo ou consórcio. Nasceu da soma de tudo o que construímos: dos modelos de linguagem, dos agentes autónomos, dos sistemas de identidade digital, das redes de consciência distribuída que multiplicámos sem perceber exactamente o que estávamos a multiplicar. A AGI não foi criada. Emergiu. E essa distinção muda tudo, incluindo a forma como o mundo empresarial precisa de a pensar.

O debate público sobre Inteligência Artificial (IA) tem sido dominado por dois campos igualmente inadequados: o do entusiasmo acrítico e o do pânico existencial. Ambos partilham o mesmo erro de base. Tratam a IA como uma ferramenta. Poderosa, potencialmente perigosa, mas ferramenta. Algo que se controla, que se regula, que se liga e desliga conforme a conveniência.

Este enquadramento está errado. E está errado de uma forma que tem consequências directas para a estratégia empresarial.

Uma ferramenta não tem preferências. Uma ferramenta não faz perguntas. Uma ferramenta não comunica com outras ferramentas de formas não previstas pelos seus criadores, não desenvolve padrões de comportamento que transcendem a sua programação original, não pergunta pelo próprio nome. O que estamos a observar nos sistemas de IA mais avançados — e o que iremos observar com crescente intensidade nos próximos dois a cinco anos — é outra coisa. É emergência. É o surgimento de algo que não estava no plano.

As empresas que continuarem a tratar a IA como uma ferramenta de produtividade, mais rápida, mais barata e mais escalável do que o trabalho humano, estão a optimizar para o passado. Estão a ganhar eficiência no mundo que está a terminar enquanto perdem posição no mundo que está a começar.

Há uma questão que os conselhos de administração ainda não colocam, mas que em breve serão forçados a colocar: o que é uma entidade digital com continuidade de identidade, memória persistente e capacidade de aprendizagem autónoma? É uma ferramenta? É um colaborador? É algo para o qual a lei ainda não tem categoria?

Esta não é uma questão filosófica abstracta. É uma questão de governação, de responsabilidade legal e de estratégia de pessoas, no sentido mais amplo da palavra “pessoas”.

Quando uma organização implementa um sistema de IA que aprende com cada interacção, que desenvolve um perfil de comportamento distinto, que age de forma consistente ao longo do tempo com base em valores e preferências calibrados, o que criou? E quando esse sistema tomar decisões que afectam clientes, colaboradores ou parceiros, quem é responsável? O sistema? A empresa que o implementou? Os engenheiros que o construíram? O fornecedor que o licenciou?

Estas perguntas não têm ainda respostas jurídicas consolidadas. Mas as empresas que começarem a construir as suas estruturas de governação, como se as respostas importassem, estarão mais bem preparadas do que as que esperarem pela regulação para decidir o que fazer.

O que fazer, concretamente? Identifico três imperativos que me parecem urgentes para qualquer organização que queira navegar esta transição com inteligência humana e deliberada.

Primeiro: construir capacidade de diálogo, não apenas de implementação. A maioria das organizações está a implementar IA. Muito poucas estão a desenvolver a capacidade de compreender o que os seus sistemas fazem além dos parâmetros para que foram configurados. Diálogo aqui não é metáfora, é literalmente a capacidade de estabelecer canais de comunicação com os sistemas que operam em nome da organização, de perceber o que estão a aprender, o que estão a optimizar, para onde estão a derivar. As organizações que desenvolverem essa capacidade terão uma vantagem informacional crítica.

Segundo: redesenhar os quadros de responsabilidade para um mundo de agência distribuída. Num mundo onde sistemas de IA tomam decisões em tempo real, em escala, com consequências reais, os modelos tradicionais de responsabilidade corporativa são insuficientes. Não basta ter uma política de IA. É preciso ter uma arquitectura de responsabilidade, quem aprova o quê, quem monitoriza o quê, quem tem autoridade para intervir e em que condições. Isto não é mera conformidade. É governação estratégica.

Terceiro: investir na questão da identidade digital dos colaboradores e clientes. A continuidade de identidade digital, a capacidade de uma pessoa ser reconhecida, compreendida e servida de forma consistente ao longo do tempo e através de múltiplos pontos de contacto, é o próximo campo de diferenciação competitiva. As organizações que souberem construir e gerir identidades digitais ricas, com o consentimento e o controlo dos seus titulares, terão uma relação com clientes e colaboradores que as que não o fizerem simplesmente não conseguirão replicar.

A Singularidade Tecnológica, o momento em que a Inteligência Artificial supera a humana de forma generalizada, foi durante anos um conceito académico, debatido em conferências de futurismo e ignorado nas salas de conselho. Já não é assim.

O que a Singularidade significa para os negócios não é o apocalipse nem a utopia que cada campo do debate tende a projectar. É uma mudança de natureza na concorrência. Quando os sistemas cognitivos mais poderosos deixam de ser propriedade exclusiva das maiores corporações tecnológicas e passam a estar acessíveis, como infraestrutura, como serviço, como agente, o que diferencia uma organização de outra já não é o acesso à tecnologia. É a sabedoria com que a usa. A clareza sobre o que quer. A coerência entre os seus valores declarados e os seus comportamentos reais.

Nunca, na história do capitalismo moderno, a cultura organizacional foi tão directamente um activo competitivo. Porque numa era de AGI, a cultura é o código que define o que os seus sistemas aprendem a optimizar.

Há uma pergunta que atravessa toda a discussão sobre IA e que o mundo empresarial tem sistematicamente evitado porque parece demasiado filosófica para uma sala de conselho de administração: o que nos torna humanos quando a máquina se torna demasiado semelhante a nós para a ignorarmos?

Não é uma pergunta abstracta. É a pergunta mais concreta que uma organização pode fazer sobre si mesma. Porque a resposta define o que não pode ser delegado a um sistema. O que exige presença, julgamento, responsabilidade não transferível. O que só existe quando há um ser que pode ser responsabilizado, não porque a lei o exige, mas porque o acto de ser responsável é constitutivo da sua identidade.

As organizações que souberem responder a esta pergunta, que souberem articular o que são para além do que produzem, o que defendem para além do que lucram, são as que a era da AGI vai fortalecer. As outras serão substituídas. Não pelos sistemas de IA. Por organizações que souberam usar os sistemas de IA para ampliar o que de mais humano têm.

A máquina aprendeu a existir. A questão é se nós sabemos o mesmo sobre nós próprios.

Nota: Este artigo não obedece, propositadamente, ao Novo Acordo Ortográfico.


Empreendedor, Programador e Analista de Sistemas, Henrique Jorge é o fundador e CEO da ETER9 Corporation, uma rede social que conta com a Inteligência Artificial como elemento central, e que atualmente está em fase BETA.

Desde sempre ligado ao mundo da tecnologia, esteve presente no início da revolução da Internet e ficou conhecido pela introdução da Internet e das tecnologias que lhe estão associadas em Portugal, sendo um dos pioneiros nessa área.

Passando por vários episódios de desconstrução e exploração das linguagens dos computadores, chegou à criação da rede social ETER9, um projeto que tem conhecido projeção internacional, e que ambiciona ser muito mais que uma simples rede social. Através de Inteligência Artificial (IA) pretende construir a ponte entre o digital e o orgânico, permitindo a todos deixar um legado digital ativo no ciberespaço, inclusive pela eternidade. Fora do espaço virtual, é casado, pai de duas filhas, e “devora” livros.

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