Entrevista/ “A Europa continua a ter pouco capital em toda a cadeia do venture capital”
“Os fundos de capital de risco procuram os líderes de categoria” assegura Thijs Povel, cofundador e CEO na Dealflow.eu e Managing Partner na Ventures.eu.
Com o apoio da Comissão Europeia, a Dealflow.eu descobre e apoia as start-ups mais promissoras financiadas pela União Europeia (UE) e estabelece a ligação entre estas e os investidores e empresas relevantes. A iniciativa foi lançada com o objetivo de ajudar as inovações revolucionárias a garantirem o financiamento necessário para a sua futura comercialização, oferecendo-lhes apoio personalizado e serviços de matchmaking. Ventures.eu Fund I é o fundo de investimento de capital de risco gerido pela Dealflow.eu.
Em entrevista ao Link to Leaders, Thijs Povel, cofundador e CEO na Dealflow.eu e Managing Partner na Ventures.eu, fala do mercado global de capital de risco, das mudanças estruturais que este atravessa, com o capital a mover-se do consumer tech para tecnologias estratégicas.
Em 2025 assistimos a uma mudança estrutural no mercado de capital de risco, com o capital a mover-se do consumer tech para tecnologias estratégicas — IA, deep tech e defesa. Como descreve atualmente o setor do investimento, tanto na Europa como a nível global? O que mudou na prática?
Na minha perspetiva, 2025 pode ser explicado por três grandes tendências interligadas. Em primeiro lugar, a forma como a inteligência artificial está a redefinir a maneira como todos os setores operam. Esta transformação altera também aquilo que os investidores analisam e valorizam: já não se trata apenas de novas “apps”, mas de toda a parte tecnológica, desde computação, dados, segurança e energia a integração; e, sobretudo, das empresas capazes de gerar ganhos de produtividade mensuráveis e escaláveis.
Em segundo lugar, o software tornou-se mais barato de desenvolver e o chamado “SaaS clássico” foi reavaliado. Com a IA, o custo marginal e o tempo necessários para lançar funcionalidades base reduziram-se drasticamente. Esta mudança é visível nos mercados públicos, onde muitos líderes de software cotados registaram quedas significativas de valorização, com empresas como a HubSpot, Salesforce, ServiceNow ou Asana a transacionarem cerca de 30% abaixo dos seus anteriores níveis. A implicação é clara: os investidores passaram a valorizar fossos competitivos, dados proprietários, capacidade de distribuição, workflows regulados e propriedade intelectual robusta, em detrimento de uma simples rapidez no lançamento de funcionalidades.
Por fim, os temas da segurança, da soberania e da defesa deixaram de ser nicho para se tornarem centrais. Os orçamentos de defesa estão a aumentar e, de forma particularmente relevante, os processos de aquisição estão a tornar-se mais eficientes, estruturados e profissionais. Este contexto criou um mercado de crescimento muito mais saudável para tecnologias dual use, cibersegurança, autonomia, sensores, comunicações seguras, resiliência energética e cadeias de abastecimento críticas, atraindo um volume crescente de investimento para estes setores.
“O verdadeiro estrangulamento está na transição entre a I&D e os primeiros pilotos para a construção desse primeiro motor comercial fiável”.
O State of European Tech 2025 destaca que há sinais de retoma nas rondas de crescimento, embora ainda exista um claro gap de financiamento entre fases. Quais foram os maiores desafios enfrentados pelas start-ups que tentaram escalar em 2025?
Muitos fundos focados em empresas em fase de crescimento passaram 2025 a publicar relatórios que defendem que o principal problema da Europa é a falta de capital para fases mais avançadas. Vejo a questão de forma diferente: os financiamentos mais difíceis na Europa continuam a ser o Seed e a Série A, especialmente na deep tech.
Quando uma empresa já tem um produto validado, receitas relevantes, margens brutas sólidas e crescimento repetível, passa normalmente a dispor de vários caminhos para financiar a sua expansão — fundos de capital de risco de fases posteriores, investidores estratégicos, venture debt e, cada vez mais, modelos de financiamento baseados em receitas. O verdadeiro estrangulamento está na transição entre a I&D e os primeiros pilotos para a construção desse primeiro motor comercial fiável.
A Europa deve ter cuidado para não “sobrecorrigir”, desviando demasiada atenção e capital para veículos de fases mais avançadas enquanto enfraquece o pipeline inicial, porque é esse que gera as scale-ups de amanhã.
Simultaneamente, é importante sermos claros: a Europa continua a ter pouco capital em toda a cadeia do venture capital, e a sublocação de capital de fundos de pensões e seguradoras ao VC — em parte motivada por enquadramentos regulatórios e de risco — limita tanto os mercados de early stage como os de late stage.
“(…) antecipamos que o capital continue a fluir para tecnologias defensáveis e estratégicas, afastando-se de software baseado apenas em funcionalidades”.
Quais são as previsões da Dealflow.eu para o mercado de VC no próximo ano? Que setores estarão mais bem posicionados para captar investimento?
Uma característica definidora do ciclo atual é a maior disponibilidade de capital privado nas fases mais avançadas, o que permite a muitas scale-ups permanecerem privadas durante mais tempo. Como resultado, uma parte muito significativa do capital global de venture capital está a ser absorvida por um número relativamente reduzido de empresas que levantam repetidamente mega rondas — empresas que, em ciclos anteriores, muito provavelmente já estariam cotadas em bolsa.
Ainda assim, as necessidades de capital são tão elevadas, em particular em áreas como infraestrutura de IA, capacidade de computação, defesa e outros temas intensivos em Capex [Capital Expenditure ou Despesas de Capital], que esperamos ver vários IPOs relevantes em 2026, o que poderá contribuir para reabrir essa janela. Se as taxas de juro continuarem a descer e os múltiplos dos mercados públicos se mantiverem favoráveis, deverá haver mais liquidez e distribuições para os LPs, algo que, em última instância, é o que reativa o dinamismo da angariação de fundos em toda a indústria de VC.
Se esse “flywheel” de liquidez melhorar, é expectável que os gestores de fases mais avançadas captem uma fatia desproporcionada das novas alocações, uma vez que demonstraram capacidade para aplicar rapidamente volumes muito elevados de capital em líderes de categoria, nomeadamente em IA, infraestrutura e tecnologia estratégica, e gerar resultados fortes quando o mercado recompensa os vencedores.
Neste contexto, antecipamos que o capital continue a fluir para tecnologias defensáveis e estratégicas, afastando-se de software baseado apenas em funcionalidades. Os setores melhor posicionados incluem a infraestrutura de IA e a IA aplicada a indústrias reguladas, como saúde, finanças, indústria e setor público; a cibersegurança e a resiliência digital, incluindo identidade, segurança da cadeia de abastecimento e segurança OT/industrial; a defesa e tecnologias de duplo uso, como sensores, autonomia, comunicações seguras, simulação e logística; a energia e a segurança climática, abrangendo redes, armazenamento, flexibilidade, descarbonização industrial e materiais avançados; e ainda a bioengenharia e a biologia computacional, onde a IA se traduz em ganhos de produtividade mensuráveis.
No caso específico da Europa, há um esforço contínuo para competir com os EUA e agora também com a China em deep tech, IA, defesa e tecnologias estratégicas. A Europa está finalmente a ganhar tração nestas áreas ou ainda existe um défice estrutural?
Ao analisar a quota da Europa no universo global de start-ups, observa-se que esta tem vindo a aproximar-se de forma consistente das restantes regiões ao longo das últimas décadas, passando de um atraso significativo nos anos 1970 para uma posição hoje mais equilibrada – evoluiu de cerca de 1% para aproximadamente 17% do total global.
Os investidores estão mais seletivos e mais exigentes. O que é que uma start-up precisa de demonstrar em 2026 para captar capital?
Os fundos de capital de risco procuram os líderes de categoria, e estes líderes estão a registar taxas de crescimento muito mais expressivas do que no passado. Aquilo que antes eram expetativas de crescimento de 100% passou a situar-se, com facilidade, nos 200%.
A Dealflow.eu surgiu para identificar, apoiar e aproximar das fontes de financiamento as start-ups mais promissoras financiadas pela UE. Como descreve hoje o impacto da plataforma? Quantas start-ups já foram apoiadas e que resultados destacaria?
A equipa da Dealflow tem organizado dezenas de investor days e corporate days por ano, com o objetivo de ligar centenas de start-ups a milhares de empresas e investidores. Isto tem levado à mobilização de financiamentos no valor de vários milhares de milhões. No primeiro trimestre do próximo ano iremos publicar um relatório detalhado de impacto, no qual partilharemos muito mais informações.
Dados recentes indicam que o apoio personalizado e o matchmaking são elementos muito valorizados pelos founders. Que tipo de serviços diferenciadores oferecem e como isso acelera a entrada das start-ups no mercado?
Não acreditamos em fazer os fundadores assistirem a conselhos genéricos sobre angariação de capital, como acontece na maioria dos programas de apoio. Ajudamos cada fundador com um acompanhamento direto e personalizado, no qual reestruturamos tanto o conteúdo como o design dos seus pitch decks e modelos financeiros. Para além disso, desenvolvemos uma estratégia de contacto para os fundadores e abrimos o nosso networking a investidores e empresas, preparando para cada start-up uma lista com os contactos mais relevantes. Estas ações direcionadas, por si só, podem ajudar imenso os fundadores na sua jornada de angariação de capital.
“Esperamos, graças a estas atividades, apoiar mais de 100 start-ups a concretizar acordos piloto com empresas em 2026”.
Uma das críticas recorrentes no ecossistema europeu é a dificuldade em transformar inovação em negócios comerciais robustos. A Dealflow.eu está a conseguir reduzir esse fosso entre investigação, inovação e mercado?
Temos duas iniciativas principais para ajudar as start-ups a ganhar tração comercial. Por um lado, contamos com uma plataforma de corporate matchmaking, onde partilhamos os desafios de dezenas das maiores empresas europeias e às quais as start-ups podem candidatar-se. Para além disso, organizamos também eventos presenciais de matchmaking com estas empresas, permitindo reuniões individuais entre corporates e start-ups relevantes. Esperamos, graças a estas atividades, apoiar mais de 100 start-ups a concretizar acordos piloto com empresas em 2026.
A Dealflow gere o Ventures.eu Fund I, focado precisamente nas tecnologias emergentes. Qual é a tese de investimento do fundo e que tipo de start-ups procuram?
Ao trabalhar com empresas, deparamo-nos com muitas start-ups extremamente promissoras, que apresentam inovações de ponta e que claramente respondem a necessidades reais e problemas concretos dessas empresas. Embora haja uma procura evidente por parte dos clientes, muitas vezes as start-ups ainda necessitam de capital significativo para expandir a sua produção e tornar os seus produtos prontos para o mercado; é aqui que entramos. Ajudamos, portanto, as empresas a identificar as start-ups mais inovadoras e apoiamos estas start-ups na expansão da sua capacidade.







