Entrevista/ “A digitalização das escolas é um processo que requer liderança informada e estratégica”

Filinto Lima, presidente da direção da ANDAEP

“Os diretores das escolas têm um papel absolutamente determinante. São eles que criam condições organizacionais, motivam equipas, definem prioridades e garantem que a integração tecnológica está alinhada com o Projeto Educativo de cada escola”, afirma Filinto Lima, presidente da direção da ANDAEP, que é um dos oradores do TECH_EDU que começa hoje na FIL.

A inteligência artificial está a transformar o modo como se ensina e aprende, colocando novos desafios às escolas e às suas lideranças. Filinto Lima, presidente da direção da ANDAEP – Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, defende que a tecnologia pode abrir oportunidades importantes para a educação, desde que seja usada de forma estratégica, ética e sempre ao serviço da aprendizagem.

O responsável, que participa hoje na conferência “Educar e Aprender na Era da Inteligência Artificial”, integrada no TECH_EDU, um side event da Futurália dedicado às tecnologias inovadoras para o setor da educação, falou ao Link to Leaders sobre o impacto da inteligência artificial nas escolas públicas, o papel dos diretores na liderança da transição digital e os desafios de garantir que a inovação tecnológica contribui para uma escola mais inclusiva e centrada nas pessoas.

O TECH.EDU começa hoje e afirma-se como o primeiro evento nacional dedicado exclusivamente às tecnologias inovadoras para a educação. Que importância tem para os diretores escolares a existência de um espaço como este?

O TECH.EDU é um espaço de enorme relevância, pois permite aproximar a liderança escolar das soluções tecnológicas mais recentes e adequadas às necessidades educativas. Num contexto de transição digital acelerada, é essencial que os diretores tenham acesso a boas práticas, conheçam ferramentas inovadoras e possam partilhar experiências com outros profissionais e parceiros tecnológicos.

Enquanto presidente da ANDAEP, porque considerou relevante marcar presença neste evento e associar-se a esta iniciativa?

A presença da ANDAEP é fundamental porque a digitalização das escolas é um processo que requer liderança informada e estratégica. Este evento é uma oportunidade de reforçar a voz dos diretores enquanto agentes centrais na transformação digital da Escola Pública, assegurando que a tecnologia serve objetivos pedagógicos e promove uma escola mais inclusiva e eficiente.

“Mais do que gestores, os diretores das escolas são líderes pedagógicos que devem inspirar a mudança”

Que papel têm hoje os diretores de agrupamentos e escolas públicas na liderança da transição digital educativa?

Os diretores das escolas têm um papel absolutamente determinante. São eles que criam condições organizacionais, motivam equipas, definem prioridades e garantem que a integração tecnológica está alinhada com o Projeto Educativo de cada escola. Mais do que gestores, os diretores das escolas são líderes pedagógicos que devem inspirar a mudança.

Como garantir que a adoção de tecnologia nas escolas é orientada por objetivos pedagógicos e não apenas por disponibilidade de ferramentas?

A chave está numa liderança estratégica e num planeamento intencional. A tecnologia deve estar ao serviço da aprendizagem e não o contrário. É essencial definir metas claras, envolver os professores no processo e avaliar o impacto de cada ferramenta no sucesso dos nossos alunos.

“Importa garantir que todos os professores, independentemente da sua experiência, se sintam confiantes e competentes na utilização de tecnologias em sala de aula”.

A formação e capacitação dos professores é um dos grandes eixos do TECH.EDU. Na sua perspetiva, estamos a preparar adequadamente os docentes para este novo contexto digital?

Temos feito progressos, mas ainda há um longo caminho a percorrer. A formação deve ser contínua, prática e contextualizada. Importa garantir que todos os professores, independentemente da sua experiência, se sintam confiantes e competentes na utilização de tecnologias em sala de aula.

A inteligência artificial, incluindo a IA generativa, é um dos temas centrais do evento. Que desafios e oportunidades coloca esta tecnologia às escolas públicas?

A inteligência artificial traz oportunidades extraordinárias de personalização da aprendizagem e de apoio administrativo, mas exige também um olhar ético e responsável. O desafio está em usar a IA como ferramenta de equidade e de melhoria da qualidade educativa, e não como substituto do papel humano na escola.

Ferramentas como avaliação digital, gamificação ou ensino híbrido estão cada vez mais presentes. Que impacto real têm tido na aprendizagem e na gestão escolar?

Estas ferramentas têm gerado novas dinâmicas pedagógicas e maior envolvimento dos discentes. Permitem flexibilidade, feedback em tempo real e uma gestão mais eficaz dos processos educativos. Contudo, o seu impacto depende sempre da forma como são integradas nas práticas pedagógicas.

” O bem-estar digital é inseparável da saúde mental e da cidadania digital dos nossos alunos. A inclusão garante que ninguém fica para trás na transição tecnológica”.

O TECH.EDU aborda também temas como bem-estar digital, inclusão e sustentabilidade. Como é que estes temas se cruzam com a realidade das escolas públicas portuguesas?

São dimensões essenciais da escola moderna. O bem-estar digital é inseparável da saúde mental e da cidadania digital dos nossos alunos. A inclusão garante que ninguém fica para trás na transição tecnológica. E a sustentabilidade deve ser uma prioridade transversal, das infraestruturas à cultura organizacional.

A modernização de infraestruturas é um dos pilares da transição digital. As escolas públicas estão hoje preparadas ou persistem desigualdades significativas?

Apesar dos avanços significativos, ainda persistem desigualdades entre escolas e regiões. É fundamental garantir acesso equitativo a equipamentos, conectividade e suporte técnico. A modernização tem de ser vista como um investimento estruturante e contínuo.

Que balanço faz do trabalho da ANDAEP na defesa dos diretores escolares e quais são hoje as principais prioridades da associação?

A ANDAEP tem sido uma voz firme e colaborativa na defesa dos diretores. Temos procurado valorizar o seu papel, promover a autonomia das escolas e contribuir para políticas educativas mais realistas e sustentáveis. As nossas prioridades passam por reforçar a liderança pedagógica, a simplificação administrativa e o investimento na formação e condições de trabalho, incluindo de apoio jurídico.

“A escola pública beneficia quando quem a lidera é ouvido – não apenas consultado”.

A ANDAEP tem sido uma voz ativa junto do poder político. Sente que as preocupações dos diretores escolares estão a ser ouvidas no desenho das políticas educativas?

Há uma maior abertura ao diálogo, mas ainda é necessário um envolvimento mais efetivo dos diretores na tomada de decisão. A escola pública beneficia quando quem a lidera é ouvido – não apenas consultado. A experiência dos diretores é essencial para políticas mais coerentes e aplicáveis.

Quando olha para os próximos anos, como imagina a escola pública portuguesa e que papel terão eventos como o TECH.EDU nessa evolução?

Vejo uma escola mais digital, colaborativa e orientada para o desenvolvimento integral dos alunos. O papel de eventos como o TECH.EDU será o de criar pontes – entre a tecnologia e a pedagogia, entre o presente e o futuro – ajudando as escolas públicas a continuar a ser espaços de inovação, inclusão e excelência.

 

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