Entrevista/ “Assusta-me o risco de implosão da Europa”
Portugal tem desempenhado um papel relevante na expansão de um setor que, ainda que permaneça tipicamente masculino, é liderado a nível europeu por uma mulher. Luísa Coutinho dirige a Federação Europeia de Soldadura, a entidade europeia responsável pela certificação de profissionais na área da soldadura, que está sediada em Portugal.
Luísa Coutinho começou por ser a única estudante do sexo feminino da licenciatura em Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico. A ela juntou-se depois uma outra colega, tendo sido as primeiras mulheres a terminar o curso. Hoje acredita que “a atual geração irá rapidamente começar a ultrapassar as barreiras que ainda existem, chegando cada vez mais perto de uma natural e expectável paridade de género”.
A gestora considera que a sua melhor ideia foi trazer “a sede de uma importante organização europeia para Portugal em 1992, quando era algo raro em Portugal”, a Federação Europeia de Soldadura (EWF, na sigla em inglês), que lidera a partir de Porto Salvo.
O Link To Leaders falou com Luísa Coutinho sobre o setor da Indústria Metalomecânica e o ecossistema empreendedor europeu e nacional.
Qual a relevância do EWF para o setor industrial na Europa?
As empresas industriais estão a atravessar uma profunda transformação. Os desafios que estas enfrentam passam, em larga medida, por assegurar a capacidade de trabalhar as áreas de diferenciação, entre as quais destacaria uma maior flexibilidade na produção, uma maior rapidez de resposta, a otimização dos processos produtivos e a integração das novas tecnologias digitais, como é o caso da manufatura aditiva. A soldadura e as tecnologias de ligação desempenham um papel fundamental na concretização desta visão, pela crescente complexidade associada à ligação de materiais dissimilares e pelos ganhos de eficiência energética associados à redução de peso e atrito, essenciais para o sucesso de setores fundamentais da economia europeia, como os transportes, a energia e a aeronáutica.
Esta nova realidade implica uma renovação das qualificações dos profissionais da área, por forma a serem capazes de executar o seu trabalho, de acordo com os crescentes níveis de exigência. O EWF é a organização responsável pelo sistema harmonizado de qualificações nas áreas de soldadura e tecnologias de ligação utilizado em mais de 30 países e que é reconhecido pela Comissão Europeia como uma melhor prática. O papel de charneira do EWF passa pela sua visão abrangente, porque, por um lado, consegue compreender as necessidades das empresas em termos dos seus profissionais e, por outro, conhece a fundo os sistemas de formação e qualificação do ensino tradicional e vocacional, criando assim um sistema de qualificações capaz de responder aos seus desafios e à crescente complexidade dos seus processos.
Quais os desafios que se colocam hoje à indústria em Portugal?
A indústria nacional enfrenta diversos desafios, sendo a necessidade de profissionais qualificados um dos principais, como as diferentes associações setoriais têm vindo a referir regularmente. No caso específico da indústria metalúrgica e metalomecânica, esta é um importante motor da recuperação económica em curso, contribuindo de forma decisiva para o equilíbrio externo do País, dado ser um setor fortemente exportador. Neste caso, um dos principais desafios passa por cativar a população mais jovem para o setor, mostrando que a indústria atual está muito distante da imagem do passado, com espaços de trabalho cada vez mais sofisticados e nos quais a operação dos equipamentos implica, de forma crescente, conhecimentos da era digital e de tecnologias de informação.
Um claro exemplo é o da soldadura e tecnologias de ligação, uma componente fundamental para os processos de produção industriais, e na qual o EWF é uma organização especializada, ao gerir um sistema harmonizado de qualificações utilizado em mais de 30 países. Nesta área existe uma clara necessidade de profissionais com competências tecnológicas, muito distantes da imagem associada no passado ao setor metalomecânico. Portugal tem empresas de vanguarda na área da metalomecânica, desde a produção de torres eólicas a sofisticadas máquinas industriais e a infraestruturas complexas e de grande dimensão.
É o additive manufacturing uma área fundamental para a concretização da Indústria 4.0 ou não necessariamente?
A Indústria 4.0 é um termo cunhado pelo Governo Alemão e que previa a digitalização crescente dos processos industriais, sendo igualmente referida regularmente como a quarta revolução industrial. Esta é uma realidade incontornável em curso, e o ritmo de mudança irá certamente acelerar nos próximos anos, constituindo a Indústria 4.0 o futuro do setor da Europa. A manufatura aditiva e a impressão 3D permitem uma flexibilidade sem paralelo, associada a um processo produtivo ágil pela mais rápida passagem do design à produção, permitindo um acompanhamento muito mais rápido das evoluções e necessidades dos clientes, e indo ao encontro de uma necessidade muito recente, que é a da crescente personalização dos produtos criados.
Um aspeto interessante desta nova realidade das produções mais flexíveis, personalizadas e pequenas tem a ver com a proximidade geográfica, ou seja, faz novamente sentido produzir numa lógica nearshore, capitalizando no facto de a Europa constituir um importante hub nas áreas de design e inovação, acrescido agora desta competência adicional ao nível da produção, que lhe permite competir de forma mais eficaz nos novos mercados globais.
Quais os desafios que encontra na concretização da Indústria 4.0?
O EWF centra-se numa área concreta, que é a das qualificações dos profissionais ligados às tecnologias de produção. Nesse âmbito, existe claramente o desafio de assegurar os aspetos fundamentais para uma maior competitividade das empresas europeias – dispor do número de profissionais necessários na área, garantir que os atuais profissionais evoluem o seu leque de qualificações para as mais recentes e avançadas e que são estabelecidos modelos de reforço e renovação das mesmas de acordo com os princípios de aprendizagem ao longo da vida.
É avaliadora de projetos europeus. Onde podem estes ser melhorados?
Considero-me uma pessoa privilegiada porque tenho a sorte de ter uma perspetiva multidimensional, uma vez que nos projetos europeus em que tenho sido chamada a intervir são nas dimensões de avaliação e acompanhamento, mas também outros em que o EWF participa como proponente. Todos estes se enquadram no programa H2020 Factories of the Future, isto porque a Comissão tem inúmeras outras áreas de projetos, da investigação pura a outros setores de atividade. Estes projetos visam apoiar a indústria na identificação das principais tendências tecnológicas e de produção, e na ligação entre empresas, institutos de investigação e as instituições de ensino para assegurar uma evolução concertada das dimensões necessárias para o sucesso da indústria Europeia.
Por outro lado, os projetos visam também o desenvolvimento tecnológico que permita a adoção de algumas tecnologias de produção mais sofisticadas, das quais um exemplo é seguramente a manufatura aditiva. A rápida transição dos projetos e da investigação para a produção é um objetivo claro para a Comissão Europeia e um aspeto a melhorar de forma global nos projetos que são desenvolvidos. Aliás, várias das iniciativas em curso visam exatamente endereçar esse ponto e colmatar essa lacuna. Por outro lado, é fundamental garantir que os sistemas educativos conseguem evoluir e responder às necessidades de qualificações profissionais atuais e futuras das organizações, das quais o reconhecimento de qualificações ganhas no decurso do trabalho e a aprendizagem são aspetos fundamentais.
Qual o projeto mais interessante e gerador de impacto que avaliou nos últimos tempos?
É muito difícil escolher, há inúmeros projetos em que tenho participado, nas diferentes valências referidas anteriormente, e que me deram uma especial satisfação. Em qualquer caso, todos eles foram projetos de médio a longo prazo na sua transição para modelos produtivos, pelo que é comum, após conclusão, que a sua continuidade e passagem para uma utilização prática fique do lado das entidades que o podem fazer, e que não é o caso do EWF. Aliás, uma das prioridades da Comissão Europeia é a de encurtar o hiato temporal entre o projeto e a sua passagem para produção, com validação industrial.
Como avalia as qualificações nacionais no setor industrial e o que está ainda por fazer?
O setor industrial nacional tem vindo a assumir-se, a exemplo dos seus congéneres europeus, como um importante fator de competitividade e crescimento da economia nacional. Existem claras necessidades de profissionais que queiram enveredar por uma carreira de futuro na área industrial, fruto de ainda existir algum estigma quanto ao trabalho num ambiente fabril. Por outro lado, a revolução tecnológica em curso implica que cada vez mais os profissionais desta área têm necessidade de qualificações mais avançadas e complexas, sendo a operação de muitos equipamentos feita a partir de computadores ou equipamentos autónomos com capacidades avançadas de computação, o que significa que, para além dos conhecimentos técnicos, existe um novo leque de competências que é fundamental para os profissionais que pretendam continuar neste setor.
A evolução das tecnologias de ligação significa também aqui a necessidade de conhecer os materiais e o seu comportamento ao nível técnico. Uma das áreas em que temos vindo a trabalhar prende-se com a aprendizagem online, onde existe ainda um grande potencial por explorar, fruto da crescente qualidade das qualificações disponíveis online nas mais diversas plataformas como, por exemplo, o Coursera, onde podem ser encontrados cursos das escolas mais prestigiadas, e do conhecimento adquirido para aperfeiçoar os métodos de ensino neste novo meio. Referência paradigmática desta nova realidade, muitas das principais escolas de negócios que são referência internacional já dispõem de uma parte relevante da sua oferta online.
Como vê o ecossistema empreendedor nacional?
Vejo com extremo otimismo e interesse. Existe em Portugal um trabalho de alguns anos na criação de um ecossistema e das condições necessárias para o seu sucesso. Recordo que a Startup Lisboa faz cinco anos, e que ela própria já é resultado de um trabalho que tinha vindo a ser desenvolvido por outras entidades, de business angels a investidores, que acreditaram no potencial das ideias criadas em Portugal. A disponibilidade de fundos, a existência de uma comunidade empreendedora de jovens e profissionais com experiência que querem lançar o seu projeto e acreditam no seu potencial, e a facilitação de processos para a criação, gestão e crescimento das empresas, associados a uma visão global que está na génese de muitas destas organizações, são alguns dos fatores críticos de sucesso.
Adicionalmente, este ecossistema atravessa um momento de crescimento forte e sustentado, apoiado também em eventos de grande dimensão e visibilidade, como a Web Summit, o que significa que, nos próximos anos, a tendência será de crescimento e maior solidez deste ecossistema, alargando-o para além das mais tradicionais tecnologias de informação a áreas menos previsíveis inicialmente, como é o caso da agricultura e da indústria tradicional, onde também têm vindo a surgir projetos novos e arrojados.
E quando comparado com o europeu?
Se retirarmos o efeito natural da dimensão dos mercados, que em muitos casos também não se aplica pela visão internacional das empresas, o ecossistema empreendedor em nada fica a dever aos seus congéneres europeus, existindo diversos exemplos de empresas nacionais recentes e que conseguiram alargar a sua atuação. Recordo, entre outros, o caso tão falado da Farfetch, mas também a Feedzai e a Tekever, empresas nacionais com operações internacionais consolidadas.
Que alterações gostaria de ver acontecer em Portugal?
A minha experiência pessoal e profissional, toda ela passada em ambientes internacionais, tendo inclusivamente vivido em Inglaterra por um período, leva-me a reforçar a importância de uma abertura ao exterior, à diferença e ao enorme potencial de crescimento que trabalhar em colaboração num ambiente multinacional encerra. A União Europeia é um espaço extraordinário, ao qual damos pouca importância por o darmos como adquirido, mas que tornou possível coisas tão extraordinárias como o Programa Erasmus e muitas das realidades empresariais colaborativas que temos hoje. Perceber onde e como tirar partido desta realidade é um aspeto transformacional para um País periférico como Portugal.
Uma mulher num mundo ainda muito masculino. O que tem mudado e o que falta fazer para contar com um maior equilíbrio de género no setor?
Acredito que, acima de tudo, passa por uma educação e demonstração pelo exemplo de que a igualdade de género deverá ser encarado com total naturalidade. Quando comecei a estudar, no Instituto Superior Técnico, era a única estudante licenciadas em Engenharia Mecânica, e terminámos duas o curso. Neste momento, as estudantes estão a par ou acima do número de estudantes rapazes. O que significa que a atual geração irá rapidamente começar a ultrapassar as barreiras que ainda existem, pelo seu mérito e competência, chegando cada vez mais perto de uma natural e expectável paridade de género. Os obstáculos, culturais, de preconceito e outros, serão algo que gradualmente irão ter menor expressão. Cabe também às profissionais, atuais e futuras, trabalhar para assegurar a consolidação do reconhecimento atingido até agora e reagirem sempre que considerarem que este princípio de igualdade não é respeitado.
Respostas rápidas:
O maior risco: O que mais me assusta é, neste momento, o risco de implosão da Europa
O maior erro: Fiz vários, felizmente, porque significa que nunca tive medo de tentar. Mas principalmente tive sempre a preocupação de analisar, perceber porquê e corrigir ou seguir em frente. Destacaria talvez um excesso de modéstia e de visibilidade perante os diversos interlocutores, mas que estamos a endereçar.
A melhor ideia: Trazer a sede de uma importante organização europeia para Portugal em 1992, quando era algo raro em Portugal, especialmente em concorrência com organizações dos maiores Países Europeus.
A maior lição: Que o trabalho bem feito, a persistência, a resiliência e a vontade de fazer sempre melhor resultam sempre a longo prazo.
A maior conquista: Colocar Portugal a liderar uma área crítica para o futuro da indústria metalúrgica e metalomecânica, no qual somos sempre consultados.








