Opinião
IA rentabiliza-se com IE
Investir em IA é inevitável. A questão é que lugar ocuparemos nós. O burnout já custa às empresas portuguesas 5,3 mil milhões de euros por ano, e isso muda a natureza do argumento. Até 2030, 39% das competências vão mudar, com foco na IE. Investir na maturidade emocional das equipas deixou de ser uma boa intenção e é hoje uma escolha de racionalidade económica.
“Não podemos travar a maré da tecnologia, mas, para não nos tornarmos seus escravos, devemos garantir que ela serve as pessoas.” A frase tem mais de 60 anos, mas podia ter sido escrita esta manhã. Quando John F. Kennedy, ainda senador, a incluiu num discurso de 1960, o contexto era a preocupação com os perigos da automação. A questão já não é se a tecnologia vai mudar a nossa vida, mas como acompanhar essa mudança. Sempre foi assim; mudaram a velocidade e a urgência.
O Future of Jobs Report, do Fórum Económico Mundial, dá-nos três coordenadas essenciais para o problema. A primeira é que 86% dos empregadores inquiridos esperam que a inteligência artificial (IA) transforme os seus negócios até 2030. Dados da Gallup confirmam a velocidade: uma em cada quatro empresas nos EUA já automatiza processos com IA.
A segunda é que a IA deverá deslocar 92 milhões de postos, mas criar 170 milhões, um ganho líquido de 78 milhões. O desafio não será, por isso, a falta de empregos, mas a adaptação aos novos: tudo indica que ficará no mercado quem souber usar a IA com critério.
A terceira é que, até 2030, 39% das competências necessárias vão mudar. Além da literacia tecnológica, o relatório coloca entre as competências nucleares a resiliência; a liderança e a influência social; o pensamento crítico; a motivação e a autoconsciência; e a empatia e a escuta ativa. E todas elas recaem no âmbito da inteligência emocional (IE).
Isso já se nota. Empresas de referência e instituições públicas em todo o mundo investem hoje fortemente em competências que antes desvalorizavam como soft. Mais do que responsabilidade social ou ética, é uma questão de racionalidade económica. E os números demonstram-no. Em Portugal, um estudo da Ordem dos Psicólogos conclui que o burnout custa às empresas nacionais 5,3 mil milhões de euros por ano, entre absentismo, perda de produtividade e quebra de compromisso das equipas. É um número que devia figurar na sala de reuniões de qualquer conselho de administração.
O problema passa, em grande parte, pelos líderes. O Global Leadership Forecast 2025, da DDI, que incluiu perto de 11 mil líderes em mais de 50 países, indica que 57% deles sofrem de burnout e que 40% já pensaram desistir da liderança. A produtividade, o desempenho e a retenção de talento dependem de gestores eficazes; quando um deles entra em burnout, a fatura chega, mais cedo ou mais tarde, a toda a organização.
A IA pode assumir grande parte da execução e da análise, mas liderar é outra coisa: orientar, gerir tensão, dar feedback, desenvolver pessoas e mobilizar inteligência coletiva. São competências humanas, e é nelas que a maturidade emocional faz mais diferença. Desenvolvê-las exige tempo que começa a escassear, e é nossa a responsabilidade de o investir bem.
Há competências que arriscamos perder se ninguém as treinar. A confiança determina decisões de investidores, escolhas de consumidores e desempenho de equipas, mas como se gera em equipas silenciosas, avessas ao erro e cada vez mais virtuais? Com transparência, franqueza e capacidade de assumir o erro.
O pensamento crítico também está em jogo: há estudos recentes a apontar uma descida do QI em vários países, e o uso acrítico da IA pode alimentar a preguiça cognitiva e as más decisões. Aprofundar, questionar e decidir com ética: tudo isso exige treino.
A IA acelera tudo, mas é o fator humano – relação, compreensão, cultura da organização – que decide os resultados. Formar lideranças em IE não é um custo acessório nem um gesto de boa vontade, mas um dos investimentos com melhor retorno que uma empresa pode fazer hoje. Trata-se, ainda, de responder ao apelo de Kennedy: garantir que a tecnologia serve as pessoas e não o contrário.
Quanto mais IA, mais IE.








