Opinião
Gestão de pessoas – quem semeia ventos, colhe tempestades
A expressão popular “Quem semeia ventos, colhe tempestades” tem a sua origem no Antigo Testamento, Livro de Oseias (Os 8:7) em que o Profeta usa uma metáfora agrícola para alertar o povo de Israel sobre as consequências da idolatria e do não cumprimento dos mandamentos divinos.
Não irei debruçar-me sobre a dimensão teológica da expressão. Pretendo apenas refletir sobre o que esta prática pode significar em contexto organizacional, nomeadamente quando os líderes optam por modelos de gestão em que cuidam pouco da “sementeira” e depois surpreendem-se com as “tempestades” que têm de enfrentar.
O que são as “boas sementeiras” na gestão de pessoas?
Tal como na natureza, as “boas sementeiras” são aquelas que são precedidas de uma boa preparação da terra, em que a semente é colocada no tempo certo e, depois, é tratada e regada para crescer e dar fruto. Também na gestão de pessoas, somos chamados a preparar o terreno (leia-se as organizações), antes de tomarmos decisões estruturantes que queremos que produzam bons frutos, garantir que são bem semeadas (comunicadas) e que são bem acompanhadas (monitorizadas). Infelizmente, tenho assistido a excelentes ideias (sementes) que não vingam porque o terreno (organização) não está preparado para as receber ou porque não são percebidas por erros de comunicação ou porque não são acompanhadas na fase de implementação. Para que uma decisão de gestão dê bons frutos é, pois, necessário:
1. Planear;
2.Comunicar;
3.Cuidar.
O que é a “má semente”?
Há inúmeros exemplos de “más sementes” (más decisões) que têm em comum algumas caraterísticas: são decisões discricionárias, fragmentárias e despóticas.
Quando o líder é arbitrário, usando critérios e pesos distintos em situações iguais ou quando trata de forma diferente colaboradores ou equipas, está a criar condições para tempestades sociais na sua organização.
Quando o líder segue a “máxima” (que eu apelido de “mínima” por a considerar absurda e profundamente errada) de “dividir para reinar”, está a semear um clima de desconfiança que mina os valores da colaboração e lealdade que são fundamentais na construção de uma organização saudável, próspera e produtiva. Ao fazê-lo, está a criar condições para tempestades interdepartamentais e interpessoais.
Quando o líder decide sem ouvir a opinião dos seus pares e dos seus reportes ou quando se isola em verdades que são só suas, cria condições para ser, mais cedo ou mais tarde, vítima de tempestades que não previu, não percebe e não controla. Testemunhei, aliás, situações em que o líder de uma organização ficou surpreendido com o que se estava a passar sem perceber que foi, ele mesmo, o causador dessas tormentas. Nestas circunstâncias, mais do que o erro é preocupante constatar a incapacidade de o líder reconhecer o erro. Essa incapacidade leva à perpetuação de comportamentos indesejáveis que corrompem e, por vezes, destroem por completo a cultura da organização.
Pior do que ser descuidado na “sementeira” é optar por “más sementes” porque, essas sim, são geradoras de verdadeiras tempestades. Diariamente, somos desafiados a resolver conflitos, tensões e mal-entendidos despendendo imenso tempo e exaurindo a nossa energia. Ao fazê-lo, esquecemo-nos muitas vezes que fomos nós que criámos as condições para que esses conflitos, tensões e mal-entendidos se desenvolvessem porque não fomos cuidadosos na “sementeira” ou porque optámos pela “semente má”.
Acredito que se começarmos a dar mais atenção à “sementeira” (forma como decidimos, comunicamos e cuidamos dos outros), enfrentaremos menos tempestades no futuro!








