Opinião
Entre o “consegui entrar” e o “decidi fazer uma pausa”
Olá Anabela, consegui entrar no curso que queria! Muito obrigada pela ajuda. Foi desta forma que soube o momento em que os participantes da Shape Your Future começaram a receber os emails das universidades em que tinham sido colocados.
A história repete-se todos os anos e é sempre com muita alegria que recebo estas notícias!
Também há aqueles que me informam que não entraram exatamente onde queriam, mas que ainda assim vão tentar ver como resulta.
Para uns e para outros, existe algo que é verdade. A fórmula não se repete! Não é mais um ano no secundário que, depois do verão, reencontram os amigos e as suas rotinas. Vão encontrar uma nova realidade, vão conhecer novas pessoas e muitos vão, pela primeira vez, começar a enfrentar desafios académicos!
E é nesta componente dos desafios académicos que gostava de me focar. 2026 foi o ano que teve o maior número de candidatos ao ensino superior desde os anos da pandemia. Ficaram colocados 49.991, uma taxa de ocupação de quase 89%, a mais alta da última década.
Vai ser interessante perceber como estes alunos recém-colocados, vão navegar o sistema de ensino superior. Historicamente, sabemos que existe uma % que desiste logo no primeiro ano, e a tendência tem sido de subida constante. Em 2021/22, 11,6% dos alunos do ensino público já não estavam inscritos um ano depois. Em 2022/23 a percentagem nacional subiu para 11,73%. E no ano letivo mais recente com dados disponíveis, 2023/24, o valor saltou para 13,2%, o equivalente a cerca de 35 mil dos mais de 265 mil novos alunos que entraram nesse ano.
Perante estes dados, será interessante não olhar somente para recordes de candidaturas e entradas, mas também para a trajetória dos alunos que entram no curso superior. Ao mesmo tempo, devemos questionar-nos sobre o porquê das desistências.
Fazem escolhas sem, efetivamente, se conhecerem? Não exploram as saídas profissionais? Falta-lhes resiliência para lidarem com as dificuldades? Criam expectativas demasiado altas que não vêem correspondidas?
Nesse contexto, gostaria de contar uma história. Outro dia fui contactada por uma jovem que tinha finalizado o 1º ano do ensino superior com sucesso, num curso cuja média de entrada era elevada. Estávamos na véspera da 2ª fase de candidaturas e ela queria saber se a podia ajudar a perceber se devia mudar de curso. Expliquei-lhe que o tempo era demasiado curto para fazer um trabalho de reflexão profundo. Acabei por ficar a conversar com ela e, após algum tempo de interação, ela mesma concluiu que o problema poderia não ser o curso mas a instituição. Coloquei-a em contacto com uma ex-participante de um programa da Shape Your Future, que estava a tirar o curso, mas noutra instituição.
Não sei se elas chegaram a falar ou não, nem o que decidiu esta jovem com quem tive uma breve interação, mas houve duas ou três questões que me deixaram a pensar, e que não é a primeira vez que as escuto. Uma delas tem a ver com o tipo de suporte que os alunos estão à espera por parte dos professores universitários. É para os jovens um enorme choque o perfil do professor do secundário versus o professor universitário. E isto é algo que já eu própria senti, mas que parece continuar a chocar gerações.
No âmbito do trabalho da Shape Your Future, partilho sempre com os jovens que frequentam os nossos programas, que a universidade vai ser diferente. E tento sensibilizá-los para o facto de não ir ser tão fácil ter o mesmo tipo de resultados a que estão habituados e que isso não significa que não tenham feito uma boa escolha. Partilho também que é normal que o primeiro ano lhes possa parecer bem menos interessante do que eles pensaram e que é importante darem-se tempo.
A verdade é que eles lutaram muito para conseguirem entrar no curso que queriam, pelo que é quase impossível não idealizar. E aí cabe-nos a nós, pais, tios, amigos, irmãos ou avós, estar atentos e perceber quando a desmotivação entra e como os podemos ajudar.
É importante conversar e perceber qual a origem da frustração, e se é algo que pode ser ultrapassado ou se, na verdade, eles não estão efetivamente no lugar certo. Seja ele o curso, ou a universidade. Esta questão da universidade é muitas vezes minimizada e é algo que deveria ser efetivamente mais explorado. Tento sempre motivar os alunos a irem visitar a universidade e perceberem como é o ambiente. A verdade é que nem sempre aquela que é tida como a melhor universidade da área, é necessariamente a melhor para mim.
E, se no final de contas, eles sentirem que efetivamente se enganaram, nunca deveremos olhar para o ano como um ano perdido. Devemos antes olhar como uma oportunidade para se desenvolverem. Tentaram, aprenderam, perceberam que se enganaram e tentaram de novo.
Anabela, envio esta mensagem para dizer que decidi fazer uma pausa. Talvez o curso que escolhi não seja mesmo para mim!








