Relatório da ONU alerta para o elevado consumo energético da IA  

Foto: Hamza Nouasri, Pexels

O avanço tecnológico tende a aumentar o uso de energia e de recursos naturais, segundo relatório da Universidade das Nações Unidas.

A pressão ambiental que os datacenters são uma realidade e nem a maior eficiência dos modelos de inteligência artificial deve conseguir reduzir, por si só, a pressão. A constatação está espelhada num recente relatório da ONU, o “Environmental Cost of Artificial Intelligence: Carbon, Water and Land Footprints”, da United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), segundo o qual a utilização de energia pela IA poderá duplicar até 2030, e inclusive chegar a quase 3% do consumo mundial de eletricidade. Mais, pode gerar emissões equivalentes às do Reino Unido e exigir, para refrigeração e geração de energia, mais água do que a necessidade anual da população global.

Este relatório analisa uma das consequências menos exploradas da rápida expansão da IA: as pegadas ambientais da energia necessária para alimentá-la. Isto porque à medida que a inteligência artificial se incorpora nas economias, nos serviços públicos, em suma, na vida quotidiana, ela depende de uma infraestrutura física crescente de centros de dados, chips avançados, sistemas de refrigeração, redes elétricas, recursos hídricos, terras e cadeias de suprimento de minerais críticos.

A análise mostra que a IA não é apenas uma tecnologia digital, mas também um sistema material com custos ambientais mensuráveis. Assim, prevê-se que, até 2030, os centros de dados globais que alimentam a inteligência artificial consumirão 945 terawatts-hora de eletricidade. Isso representa quase o triplo do consumo anual combinado da eletricidade do Paquistão, Bangladesh e Nigéria — países que, juntos, abrigam mais de 650 milhões de pessoas. A pegada hídrica associada a esses centros será equivalente às necessidades básicas anuais de água potável de todos os 1,3 biliões de habitantes da África Subsaariana, e sua área ocupada ultrapassará 14.500 quilómetros quadrados, aproximadamente o dobro da área metropolitana de Jacarta, que abriga mais de 32 milhões de pessoas.

Outros investigadores já tinham alertado sobre as emissões de gases de efeito estufa dos data centers. Mas, agora, os cientistas da ONU argumentam que os custos ambientais da IA ​​e dos data centers não podem ser compreendidos apenas pelas emissões de carbono. No relatório, quantificam as pegadas de carbono, água e terra do uso de eletricidade da IA ​​em todo o mundo e destacam as grandes diferenças entre essas pegadas nos 20 maiores polos de data centers do planeta.

A pesquisa da UNU-INWEH estima também que o ChatGPT, sozinho, processe cerca de 2,5 biliões de solicitações por dia, o que se traduz em aproximadamente 383 GWh de eletricidade por ano para um único produto. Para compensar as emissões de carbono associadas, seriam necessárias 2,6 milhões de mudas de árvores cultivadas por 10 anos, árvores suficientes para cobrir uma área do tamanho de Manhattan. A pegada hídrica é equivalente às necessidades mínimas anuais de água potável de aproximadamente 500.000 pessoas na África Subsaariana, e a pegada de terra é igual a mais de 800 campos de futebol.

O consumo de energia por consulta varia em várias ordens de magnitude, dependendo da tarefa. Uma consulta típica num chat conversacional consome cerca de 200 vezes mais energia do que uma classificação básica de texto. Gerar uma única imagem por IA pode exigir cerca de 1.450 vezes esse consumo. Um único vídeo curto gerado por IA pode consumir tanta energia quanto 200.000 classificações de spam. A escolha do modelo, o tamanho da solicitação, o formato de saída e a resolução influenciam significativamente o consumo de energia. No entanto, a maioria dessas decisões é tomada de forma invisível, através de configurações padrão do produto que o utilizador nunca vê.

Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e líder da equipa de investigação, esclareceu que “este relatório não é uma crítica à inteligência artificial, uma transformação tecnológica que está melhorando a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. É um apelo para que a utilizemos de forma responsável e abordemos proativamente seus impactos não intencionais, a fim de torná-la sustentável e equitativa”.  Lembrou que “temos uma janela de oportunidade estreita para garantir que a espinha dorsal da revolução tecnológica da nossa era se desenvolva dentro dos limites planetários e que as comunidades que fornecem os minerais críticos para o avanço da IA, bem como aquelas que abrigam sua infraestrutura e geram resíduos eletrónicos, estejam também entre as que beneficiam dela”.

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