Entrevista/ “Muitas decisões financeiras continuam a ser tomadas tarde, apenas quando surge pressão”
“Muitas pessoas chegam até nós porque sentem que trabalham, poupam, pagam créditos e seguros, mas não têm uma visão clara do conjunto”, afirma José Gonçalves, diretor-geral da SafeBrok Portugal, que considera que “os portugueses estão mais atentos, mas ainda muito condicionados por uma gestão reativa”.
Num contexto em que a inflação, o crédito habitação, os seguros e a poupança passaram a ocupar um lugar central nas preocupações das famílias portuguesas, a literacia e o planeamento financeiro ganham uma importância cada vez maior. É precisamente neste contexto que a SafeBrok Portugal quer afirmar-se, oferecendo uma abordagem 360º à gestão financeira e patrimonial.
Incubada na Startup Leiria, a empresa liderada por José Gonçalves procura responder a uma necessidade que o diretor-geral considera ainda muito presente no mercado: a de ajudar particulares, famílias, investidores e empresas a deixarem uma gestão financeira reativa e passarem para uma lógica mais estruturada, integrada e preventiva.
Nesta entrevista ao Link To Leaders, José Gonçalves fala sobre o posicionamento da SafeBrok, os desafios da literacia financeira em Portugal, a renegociação do crédito habitação, a importância de rever seguros e os objetivos da empresa para os próximos cinco anos.
Como nasceu a SafeBrok Portugal e que oportunidade identificaram no mercado para avançar com este projeto?
A SafeBrok nasce da identificação de uma necessidade muito clara no mercado: muitas famílias, investidores e empresas tomam decisões financeiras importantes de forma isolada, sem uma visão integrada do seu património. Crédito, seguros, poupança, investimento e proteção são frequentemente analisados em momentos diferentes, por entidades diferentes e sem uma estratégia comum.
Vimos uma oportunidade para trazer para Portugal um modelo de planeamento financeiro 360º, independente e próximo, capaz de ajudar os clientes a organizar melhor a sua vida financeira e a tomar decisões mais informadas. O objetivo foi criar uma rede de gestores especializados que acompanhasse o cliente ao longo do tempo, e não apenas no momento de contratar uma solução.
“Trabalhamos áreas como planeamento financeiro, poupança, investimento, proteção patrimonial, seguros, crédito habitação e soluções para empresas”.
Que serviços disponibilizam atualmente aos clientes?
A nossa abordagem assenta numa visão global da vida financeira do cliente. Trabalhamos áreas como planeamento financeiro, poupança, investimento, proteção patrimonial, seguros, crédito habitação e soluções para empresas.
O mais importante é que não olhamos para estas áreas como serviços separados. Um crédito habitação, por exemplo, pode ter impacto na capacidade de poupança; um seguro mal ajustado pode representar risco ou custo desnecessário; uma poupança parada pode perder valor com a inflação. O nosso papel é ajudar o cliente a organizar estas dimensões, perceber prioridades e encontrar soluções adequadas ao seu perfil, objetivos e horizonte temporal.
Quem são hoje os principais clientes da SafeBrok: particulares, famílias, investidores, empresas ou um perfil misto?
Temos um perfil misto, embora o nosso core esteja muito ligado a particulares, famílias e investidores que procuram organizar melhor o seu património e tomar decisões mais conscientes. Acompanhamos clientes que querem rever o crédito habitação, otimizar seguros, estruturar poupança, começar a investir ou preparar objetivos de médio e longo prazo.
Ao mesmo tempo, temos também uma componente importante junto de empresários e empresas, sobretudo quando existe necessidade de gerir liquidez, proteger património, planear obrigações futuras ou rentabilizar excedentes de tesouraria. No fundo, trabalhamos com quem procura uma visão mais estruturada da sua realidade financeira.
Que necessidades ou preocupações levam mais frequentemente os clientes a procurar o vosso apoio?
As preocupações mais frequentes passam por perceber se estão a tomar boas decisões financeiras. Muitas pessoas chegam até nós porque sentem que trabalham, poupam, pagam créditos e seguros, mas não têm uma visão clara do conjunto.
Há dúvidas muito concretas: “Estou a pagar demasiado pelo meu crédito habitação?”, “Os meus seguros fazem sentido?”, “O meu dinheiro parado está a perder valor?”, “Devo investir?”, “Como posso preparar a reforma ou o futuro dos meus filhos?”. O nosso trabalho começa muitas vezes por trazer clareza. Antes de falar de soluções, é preciso perceber onde está o cliente, que riscos existem e que objetivos quer alcançar.
“Para uma empresa como a SafeBrok, que quer trazer uma abordagem mais moderna, integrada e próxima à gestão financeira, estar num ambiente empreendedor faz todo o sentido”.
Estando incubados na Startup Leiria, que importância tem tido esse ecossistema no desenvolvimento e crescimento da empresa?
A Startup Leiria tem sido um ecossistema muito relevante, sobretudo pela ligação ao tecido empresarial, pela dinâmica de inovação e pela proximidade a projetos com ambição de crescimento. Para uma empresa como a SafeBrok, que quer trazer uma abordagem mais moderna, integrada e próxima à gestão financeira, estar num ambiente empreendedor faz todo o sentido.
Permite-nos estar perto de empresários, founders, investidores e equipas que vivem diariamente desafios de financiamento, liquidez, crescimento e gestão de risco. Essa realidade ajuda-nos também a adaptar a nossa proposta de valor às necessidades concretas do mercado.
O que diferencia a SafeBrok de outras soluções ou consultoras na área da gestão financeira e patrimonial?
A nossa principal diferença está na independência e na visão 360º. Não partimos de uma solução pré-definida; partimos do diagnóstico da realidade do cliente. Olhamos para crédito, seguros, poupança, investimento, proteção e património como peças interligadas.
Muitos modelos tradicionais continuam organizados por produto. Nós acreditamos que o cliente não precisa apenas de contratar soluções – precisa de coerência entre decisões financeiras. A nossa vantagem está nessa capacidade de acompanhar, comparar alternativas, simplificar decisões e construir uma relação de longo prazo baseada em confiança, transparência e proximidade.
Quais têm sido os principais motores de crescimento até aqui?
O crescimento tem sido impulsionado por três fatores principais: a relevância crescente do planeamento financeiro, a procura por aconselhamento independente e a capacidade da nossa rede de gestores em criar relações de confiança com os clientes.
Nos últimos anos, temas como inflação, subida das taxas de juro, pressão no crédito habitação e maior incerteza económica tornaram mais evidente a necessidade de acompanhamento.
Muitas pessoas perceberam que pequenas decisões financeiras, quando não são revistas, podem ter impacto significativo no orçamento familiar ou na construção de património. A SafeBrok cresceu precisamente por responder a essa necessidade de forma próxima e estruturada.
“Ainda assim, existe um caminho importante a fazer em literacia financeira. Muitas decisões continuam a ser tomadas tarde, apenas quando surge pressão”.
Que principais mudanças têm observado no comportamento financeiro dos portugueses nos últimos anos?
Os portugueses estão mais atentos, mas ainda muito condicionados por uma gestão reativa. A subida das taxas de juro, a inflação e o aumento do custo de vida obrigaram muitas famílias a olhar com mais cuidado para o orçamento, para o crédito e para os seguros.
Também vemos maior abertura para falar de investimento e planeamento patrimonial. Ainda assim, existe um caminho importante a fazer em literacia financeira. Muitas decisões financeiras continuam a ser tomadas tarde, apenas quando surge pressão. A grande mudança que defendemos é passar de uma lógica de reação para uma lógica de planeamento.
A renegociação do crédito habitação tem sido uma das grandes tendências. O que está a levar tantas famílias a reverem as suas condições de financiamento?
A principal razão é o impacto direto que a subida das taxas teve na prestação mensal. Muitas famílias perceberam que o crédito habitação não é algo que se contrata uma vez e fica esquecido durante décadas. Deve ser acompanhado e revisto ao longo do tempo.
Além disso, há maior consciência de que pequenas diferenças no spread, no tipo de taxa, nos seguros associados ou nas comissões podem representar poupanças relevantes. Rever o crédito habitação não significa apenas procurar uma prestação mais baixa; significa garantir que a estrutura de financiamento continua adequada à realidade e aos objetivos da família.
“No crédito, vemos muitas famílias que nunca compararam alternativas ou que não analisaram o peso total dos produtos associados”.
Ainda há muitas famílias a pagar mais do que deviam pelos seus créditos e seguros? Quais são os erros mais comuns?
Sim, ainda acontece com muita frequência. O erro mais comum é a inércia: aceitar que aquilo que foi contratado há anos continua a ser a melhor opção. Mas a vida muda. Mudam rendimentos, idade, responsabilidades familiares, valor do imóvel, perfil de risco e condições de mercado.
No crédito, vemos muitas famílias que nunca compararam alternativas ou que não analisaram o peso total dos produtos associados. Nos seguros, é comum existirem coberturas desajustadas, capitais mal definidos ou apólices que já não respondem às necessidades atuais. O problema é que, para além de pagar mais, as famílias pagam por algo que pode não proteger bem.
Como é que uma família pode perceber se os seguros que tem contratados ainda fazem sentido para a sua realidade atual?
Diria que as três situações existem, mas o maior problema é o desconhecimento. Muitas pessoas sabem que têm seguros, mas não sabem exatamente o que está coberto, em que condições, com que capitais e em que exclusões.
Depois há dois riscos opostos: famílias subprotegidas, que pensam estar cobertas e não estão; e famílias que pagam por coberturas duplicadas ou pouco relevantes para a sua realidade. O seguro deve ser uma ferramenta de proteção, não apenas uma despesa recorrente. Por isso, deve ser revisto de forma regular e integrado no planeamento financeiro global.
Sente que os portugueses estão hoje mais disponíveis para procurar aconselhamento financeiro independente?
Sim, claramente. Ainda existe alguma resistência, mas é menor do que há alguns anos. Os portugueses estão mais conscientes de que as decisões financeiras têm impacto direto na sua qualidade de vida, na segurança da família e na construção de património.
Também há uma maior perceção de que informação não é o mesmo que planeamento. Hoje há muitos conteúdos disponíveis, mas isso não significa que seja fácil decidir. O valor de um acompanhamento especializado está precisamente em ajudar a filtrar informação, comparar alternativas e construir uma estratégia adaptada à realidade de cada cliente.
“A poupança continua muito associada à ideia de segurança, o que é positivo, mas muitas vezes fica parada ou sem objetivo definido”.
Como está a evoluir a relação dos portugueses com a poupança, os PPR e o planeamento da reforma?
Está a evoluir, mas ainda de forma lenta. A poupança continua muito associada à ideia de segurança, o que é positivo, mas muitas vezes fica parada ou sem objetivo definido. O PPR tem ganho relevância, sobretudo pela discussão em torno da reforma e dos benefícios fiscais, mas ainda é visto por muitas pessoas apenas como um produto, quando deveria ser parte de uma estratégia maior.
O planeamento da reforma deve começar cedo e não apenas perto da idade de saída do mercado de trabalho. A grande mudança necessária é perceber que preparar a reforma não se trata de abdicar do presente, mas sim criar margem de escolha para o futuro.
Que papel podem ter os investimentos alternativos numa estratégia financeira equilibrada? E que cuidados devem existir antes de avançar?
Os investimentos alternativos podem ter um papel interessante numa estratégia equilibrada, sobretudo ao nível da diversificação e do acesso a oportunidades que não estão totalmente correlacionadas com os mercados tradicionais. Mas não devem ser vistos como uma solução universal nem como substituto de uma estratégia bem construída.
Antes de avançar, é essencial perceber o risco, a liquidez, o prazo, a estrutura do produto, os custos e a adequação ao perfil do investidor. O erro está em olhar apenas para a rentabilidade potencial. Na SafeBrok defendemos que qualquer investimento deve ser enquadrado numa visão global: primeiro objetivos e perfil e, só depois, soluções.
Quais são os principais objetivos da SafeBrok Portugal para os próximos cinco anos?
O nosso principal objetivo é consolidar a SafeBrok como uma referência em planeamento financeiro e patrimonial 360º. Queremos crescer com qualidade, reforçar a nossa rede de gestores, aumentar a proximidade com os clientes e continuar a desenvolver uma proposta de valor que integre investimento, crédito, seguros, proteção e planeamento.
Também queremos contribuir para uma maior literacia financeira no país. Acreditamos que o futuro da gestão financeira passa por combinar tecnologia, dados e acompanhamento humano. Mas a base continuará a ser a mesma: ajudar pessoas, famílias, investidores e empresas a tomar decisões mais claras, sustentáveis e alinhadas com os seus objetivos.








