Entrevista/ “Portugal tem condições para assumir um papel relevante como hub europeu de inovação financeira regulada”

Reinaldo Rabelo, cofundador do Mercado Bitcoin

“A combinação entre abertura à inovação, maturidade crescente do setor fintech, oportunidades para melhorar os serviços financeiros e alinhamento com o enquadramento europeu coloca Portugal numa posição interessante para atrair empresas que operam na interseção entre blockchain, finanças digitais, inteligência artificial e serviços regulados”, afirma Reinaldo Rabelo, cofundador do Mercado Bitcoin.

Fundado em 2013 no Brasil, o Mercado Bitcoin está a acelerar a sua expansão internacional, com Portugal a assumir um papel central na estratégia de crescimento da corretora. Depois da aquisição da portuguesa Criptoloja, em 2022, e da aposta no desenvolvimento tecnológico local, a empresa acaba de lançar a “Vera”, uma assistente virtual criada em território nacional que permite realizar operações com ativos digitais através do WhatsApp.

Em entrevista ao Link to Leaders, Reinaldo Rabelo, cofundador do MB, explica por que razão Portugal se tornou numa peça-chave na expansão europeia do grupo e como a convergência entre blockchain, inteligência artificial e fintech está a redesenhar o futuro dos serviços financeiros. O responsável fala ainda da ambição da empresa de integrar o top 10 das fintech europeias até 2030.

O Mercado Bitcoin tem vindo a reforçar a sua presença na Europa, com Portugal como base. O que torna o país estratégico nesta expansão?

Portugal é um pilar estratégico da nossa expansão europeia por três razões principais: previsibilidade regulatória, talento tecnológico altamente qualificado e um ecossistema fintech em desenvolvimento. Além disso, o país funciona como uma ponte natural entre a Europa e mercados, onde o MB tem forte presença, permitindo-nos acelerar a internacionalização e aproveitar a nossa base sólida e já alinhada com os requisitos regulatórios europeus.

Que papel pode Portugal desempenhar no ecossistema europeu de criptoativos e fintech?

Portugal tem condições para assumir um papel relevante como hub europeu de inovação financeira regulada. A combinação entre abertura à inovação, maturidade crescente do setor fintech, oportunidades para melhorar os serviços financeiros e alinhamento com o enquadramento europeu coloca Portugal numa posição interessante para atrair empresas que operam na interseção entre blockchain, finanças digitais, inteligência artificial e serviços regulados.

“A aquisição da Criptoloja foi um marco importante porque acelerou significativamente a nossa entrada e capacidade de operação regulada na Europa”.

A aquisição da Criptoloja foi um passo relevante. Que impacto teve na vossa operação e crescimento na Europa?

A aquisição da Criptoloja foi um marco importante porque acelerou significativamente a nossa entrada e capacidade de operação regulada na Europa. Permitiu-nos integrar conhecimento local com a manutenção da liderança, garantindo um total alinhamento com os requisitos regulatórios nacionais e europeus.

A ambição de integrar o top 10 das fintech europeias até 2030 é bastante clara. Quais são os principais pilares para lá chegar?

O nosso plano assenta em quatro pilares: compliance e regulação como base estrutural (MiCA incluído), escalabilidade tecnológica e aproveitamento da infraestrutura que está a ser construída há 13 anos, inovação contínua de produto e ainda expansão disciplinada de mercado. A isto, junta-se uma forte aposta na tokenização de ativos do mundo real e na reconstrução da infraestrutura financeira a partir de novos elementos digitais, como o blockchain e as stablecoins.

“É verdade que o setor ainda é percecionado como complexo e técnico, e a Vera elimina essa barreira, ao permitir uma interação em linguagem natural, diretamente no WhatsApp”.

A “Vera” surge como uma solução inédita no setor. Que problema concreto quiseram resolver com esta assistente virtual?

A Vera nasce da necessidade de simplificar o acesso ao universo cripto. É verdade que o setor ainda é percecionado como complexo e técnico, e a Vera elimina essa barreira, ao permitir uma interação em linguagem natural, diretamente no WhatsApp. Ou seja, torna a experiência mais acessível, intuitiva e inclusiva. A par disso, é também um passo na direção de uma possível tendência futura de abandono das aplicações, já que a inteligência artificial permite que o utilizador resolva o seu problema a partir de uma relação meramente conversacional.

Porquê apostar no WhatsApp como interface principal para operações financeiras?

Com efeito, a aposta no WhatsApp deve ser entendida como parte de uma estratégia multicanal. O MB Mercado Bitcoin disponibiliza a sua experiência completa através de apps para iOS e Android e também via web, com uma interface unificada e robusta. Assim sendo, o WhatsApp surge como um canal adicional, pensado para reforçar a inclusão e a acessibilidade, especialmente para utilizadores que valorizam uma experiência mais simples e conversacional.

Neste caso, o objetivo não é substituir nenhuma das nossas plataformas, mas sim reduzir barreiras de entrada ao universo dos ativos digitais, permitindo que mais pessoas interajam com os nossos serviços através de um canal que já faz parte do seu quotidiano. Desta forma, complementamos a experiência existente com uma camada adicional de conveniência, sem comprometer a segurança, funcionalidade ou conformidade regulatória.

Como garantem segurança e confiança numa experiência que decorre fora da app tradicional?

A segurança não depende do canal de interação, mas da infraestrutura subjacente. A Vera opera sobre sistemas do Mercado Bitcoin com autenticação robusta, camadas de verificação e arquitetura de custódia alinhada com padrões institucionais. Por conseguinte, o WhatsApp é apenas a interface; toda a lógica financeira permanece dentro de um ambiente regulado e auditado.

“Acreditamos que a tendência estrutural passa pela simplificação da experiência financeira através da linguagem natural”.

A utilização de linguagem natural e comandos de voz aproxima este serviço de uma lógica de “banca conversacional”. Este é o futuro dos serviços financeiros?

Acreditamos que a tendência estrutural passa pela simplificação da experiência financeira através da linguagem natural.. O utilizador quer executar ações e não navegar em sistemas complexos. A banca conversacional é um passo importante nessa abstração, mas sempre suportada por uma infraestrutura regulada e segura.

Esta tecnologia foi desenvolvida em Portugal. Que competências locais destacaria neste projeto?

Portugal tem vindo a destacar-se em áreas como a engenharia de software, a inteligência artificial e a cibersegurança. Estas competências são fundamentais para o desenvolvimento de soluções como a Vera e para a nossa estratégia de expansão tecnológica na Europa. E queremos participar deste processo de qualificação das empresas locais. Não é por acaso que acabamos de ser certificados pelo Startup Portugal como empresa de inovação, o que vai reforçar o nosso posicionamento para atrair e reter talentos.

O setor dos criptoativos tem enfrentado um maior escrutínio regulatório. Como avalia o impacto do enquadramento MiCA?

O MiCA representa um marco de maturidade para o setor cripto na Europa. Apesar do aumento de exigências ao nível de compliance, controlos internos, KYC, AML e governação, acreditamos que este enquadramento vai reforçar a confiança dos investidores, e acelerar a entrada de capital no segmento, inclusive investimentos para empreendedores da região.

“A regulação deve ser encarada como um fator de maturidade. No curto prazo implica maiores custos operacionais e exigência organizacional, mas no médio e longo prazo cria um mercado mais seguro (…)”.

A regulação pode ser vista como uma barreira ou como um fator de maturidade do mercado?

A regulação deve ser encarada como um fator de maturidade. No curto prazo implica maiores custos operacionais e exigência organizacional, mas no médio e longo prazo cria um mercado mais seguro, previsível e atrativo para todos os investidores, e consolida o mercado. Evidentemente, há uma medida ideal e devemos estar atentos para não criar processos burocráticos que inviabilizam a descoberta de novas soluções ou o uso de novas tecnologias.

O MB foi uma das primeiras corretoras autorizadas pelo Banco de Portugal. Que importância tem essa credibilidade institucional?

De facto, fomos uma das primeiras entidades registadas junto do Banco de Portugal, o que reforça a nossa credibilidade institucional e o nosso compromisso com a conformidade regulatória. Como grupo, com mais de uma década de atuação, construímos um legado assente na democratização do acesso aos ativos digitais e na solidez da operação. Em cripto, a confiança e a regulação são pilares essenciais, e este enquadramento é fundamental para sustentar o crescimento sustentável do Mercado Bitcoin em Portugal e na Europa.

Como vê a evolução da adoção de criptoativos na Europa face à América Latina?

Historicamente, a América Latina tem registado uma adoção mais acelerada, muitas vezes impulsionada por fatores macroeconómicos e pela procura de alternativas ao sistema financeiro tradicional. Já na Europa, a evolução tem sido mais gradual, mas claramente mais institucional, com maior foco em regulação, proteção do investidor e integração com o mercado financeiro tradicional.

Do ponto de vista de mercado, estas duas dinâmicas são complementares: a América Latina acelera a utilização prática e quotidiana dos ativos digitais, enquanto a Europa contribui para a sua consolidação como classe de ativos, dentro de estruturas reguladas e mais maduras. Em conjunto, ajudam a consolidar o ecossistema global de forma mais sustentável.

“A combinação entre fintech, blockchain e inteligência artificial permitirá criar infraestruturas mais eficientes, seguras e escaláveis”.

Estamos a assistir a uma convergência entre fintech, blockchain e inteligência artificial. Que papel terá essa interseção nos próximos anos?

Esta convergência vai ser estrutural na evolução dos serviços financeiros. A combinação entre fintech, blockchain e inteligência artificial permitirá criar infraestruturas mais eficientes, seguras e escaláveis. Ao mesmo tempo, melhora significativamente a experiência do utilizador.

Concretamente, o blockchain assegura a camada de confiança, registo e transparência das operações; a inteligência artificial acrescenta capacidade de personalização, automação e apoio à decisão. Por seu lado, a fintech funciona como a camada de distribuição e acesso ao utilizador final. No conjunto, esta interseção vai redefinir a forma como os produtos financeiros são desenhados, distribuídos e utilizados, aproximando cada vez mais o sistema financeiro de uma lógica de tempo real, mais acessível e centrada no utilizador.

A tokenização de ativos e soluções como stablecoins podem transformar o sistema financeiro tradicional? De que forma?

A  tokenização de ativos do mundo real introduz uma mudança de paradigma, ao transformar ativos tradicionalmente ilíquidos, como crédito privado ou instrumentos financeiros, em unidades digitais fracionáveis, mais transparentes e com maior facilidade de negociação (funcionamento 24/7, alcance global, mais acessível). Isto aumenta a eficiência dos mercados, reduz fricções e democratiza o acesso a classes de ativos historicamente mais restritas.

Já as stablecoins representam uma evolução natural dos meios de pagamento globais, ao combinarem a estabilidade das moedas fiduciárias com a eficiência da infraestrutura blockchain. Na prática, permitem transferências internacionais quase instantâneas, com menor custo e maior previsibilidade, eliminando grande parte das ineficiências do sistema tradicional de pagamentos cross-border.

Em conjunto, estas duas dinâmicas aproximam o sistema financeiro de um modelo mais integrado, programável e global, onde ativos e valor circulam com muito menos fricção do que hoje.

“A entrada consistente de gestoras globais, bancos e produtos regulados está a redefinir o perfil do mercado, trazendo maior liquidez (..)”.

Que tendências vão marcar o futuro dos ativos digitais nos próximos 3 a 5 anos?

Os próximos anos serão marcados por uma transição clara de um mercado “em construção” para um mercado “em integração”. A primeira grande tendência é a institucionalização acelerada dos ativos digitais. A entrada consistente de gestoras globais, bancos e produtos regulados está a redefinir o perfil do mercado, trazendo maior liquidez, sofisticação e estabilidade relativa ao ecossistema.

A segunda é a expansão da tokenização de ativos do mundo real. Crédito privado, instrumentos de rendimento e outros ativos financeiros tradicionais vão ser progressivamente representados em formato digital, permitindo fracionamento, negociação contínua e maior eficiência na alocação de capital.

A terceira tendência é a convergência estrutural entre o sistema financeiro tradicional e a infraestrutura blockchain. Em vez de dois mundos paralelos, veremos uma integração progressiva, onde liquidação, custódia e transferências passam a operar de forma mais programável, interoperável e em tempo real.

No conjunto, estas dinâmicas apontam para um sistema financeiro mais global, mais eficiente e menos dependente de intermediários tradicionais na forma como hoje os conhecemos.

Que desafios ainda impedem uma adoção mais massificada?

Em primeiro lugar, a literacia financeira e digital que ainda limita a compreensão real do que são os ativos digitais, como funcionam e de que forma podem ser integrados numa estratégia de investimento. Em segundo, a perceção de risco associada à volatilidade, que embora seja uma característica natural de um mercado em maturação, ainda condiciona a confiança de muitos investidores, sobretudo fora do universo mais especializado.

Por fim, a fragmentação regulatória entre regiões, que cria diferentes níveis de acesso, proteção e previsibilidade, dificultando uma adoção verdadeiramente global e uniforme. Superar estes desafios será determinante para a próxima fase de crescimento do setor, mais institucional, mais regulada e mais integrada no sistema financeiro tradicional.

” (…) a inovação só ganha escala quando resolve problemas concretos do mercado e, ao mesmo tempo, entrega benefícios claros e vantagens visíveis para o investidor (…)”.

Que aprendizagens retirou da construção do MB como um “hub financeiro baseado em blockchain”?

A principal aprendizagem é que, no setor financeiro digital, a confiança não é um atributo, é a infraestrutura central sobre a qual tudo o resto se constrói. A tecnologia blockchain trouxe inovação, eficiência e novas possibilidades de infraestrutura financeira, mas rapidamente percebemos que, por si só, não gera adoção sustentável. O que verdadeiramente viabiliza o crescimento é a combinação entre tecnologia robusta, enquadramento regulatório sólido, segurança operacional e utilidade real para o utilizador.

Construir o Mercado Bitcoin neste contexto ensinou-nos que a inovação só ganha escala quando resolve problemas concretos do mercado e, ao mesmo tempo, entrega benefícios claros e vantagens visíveis para o investidor, ou para as empresas que recorrem ao mercado para sustentar as suas operações.

Para quem está a construir no espaço cripto hoje, qual é o conselho mais relevante?

O mais importante é nunca perder de vista que este é um setor em constante evolução. Construir em cripto não é apenas acompanhar tecnologia; é acompanhar o ritmo da inovação em tempo real, percebendo onde uma nova aplicação será interrompida por uma escolha regulatória, ou mesmo por uma tentativa do mercado tradicional evitar perder participação no mercado.

Isso significa estar atento às tendências, como inteligência artificial, tokenização e novos modelos de infraestrutura financeira, mas também ter a disciplina de transformar essa informação em decisões concretas e produtos com utilidade real.

 

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