Opinião
O que os pais fazem de errado quando tentam ajudar
Quero começar com um aviso: este artigo não é sobre pais maus. É sobre pais bons. Os melhores, até. Os que estão presentes, os que se preocupam, os que perdem o sono a pensar no futuro dos filhos.
É precisamente sobre esses que quero falar, porque são esses que, sem se aperceberem, às vezes fazem mais mal do que bem. Digo isto como mãe e com toda a empatia do mundo. E com a convicção de quem, ao longo de anos de trabalho com jovens em processos de orientação vocacional, viu repetir-se o mesmo padrão várias vezes.
A conversa que nunca esqueço
Há uns anos, numa sessão de orientação vocacional com uma jovem de 17 anos, ficou um momento de silêncio longo depois de ela me dizer qual era o curso que queria seguir. Arquitectura. Os olhos dela brilhavam quando falava disso.
Depois veio a parte difícil: “Mas os meus pais acham que devia ir para Direito. Dizem que é mais seguro.”
Perguntei-lhe o que ela achava. Ela encolheu os ombros. “Eles conhecem melhor o mundo do que eu.”
Naquele momento, esta jovem não estava a ser humilde. Estava a desaparecer. Aos 17 anos, estava a aprender a não confiar em si própria.
O amor que ocupa demasiado espaço
Os pais que conheço, e conheço muitos porque fazem parte integrante do trabalho que fazemos na Shape Your Future, não querem controlar os filhos. Querem protegê-los. É um impulso profundamente humano, e compreendo-o completamente.
O problema é que proteção e controlo, quando exercidos a partir do medo, acabam por se parecer muito. E o medo, disfarçado de conselho, ocupa às vezes tanto espaço que não sobra lugar para a voz dos próprios filhos.
Vejo pais a escolherem as universidades pelos filhos, ao mesmo tempo que dizem que não querem interferir. Vejo pais a insistirem em cursos “com saída” sem nunca terem perguntado ao filho ou à filha o que entendia por uma vida boa. Vejo pais a comparar, com a melhor das intenções, a filha com a prima que “foi para Medicina e está muito bem”.
E vejo, sobretudo, jovens que aprenderam a calar o que sentiam para não dececionar quem amavam.
Os quatro padrões que se repetem
Ao longo destes anos, fui reconhecendo padrões. Não são defeitos de carácter, são respostas humanas a um mundo incerto. Mas identificá-los é o primeiro passo para os interromper.
Projetar os próprios medos. O pai que teve uma crise de emprego aos 40 anos e desde então acredita que só determinado tipo de profissões dá segurança. A mãe que escolheu um caminho por pressão familiar e que, sem se dar conta, está a repetir exatamente o mesmo padrão com a filha. Os nossos medos têm história. E essa história não pertence aos nossos filhos.
Confundir o que é bom para nós com o que é bom para eles. Cada geração tende a querer para os filhos aquilo que ela própria valorizou, ou aquilo que lhe faltou. Mas os filhos são pessoas diferentes, com temperamentos diferentes, com um mundo diferente à sua frente. O que funcionou para nós pode ser exatamente o errado para eles.
Saltar para as soluções antes de ouvir as perguntas. Quando os filhos chegam a casa com uma dúvida sobre o futuro, o impulso natural dos pais é ajudar, e ajudar significa, muitas vezes, dar respostas. Mas às vezes eles não precisam de respostas. Precisam de alguém que aguente ficar na dúvida com eles, sem a resolver demasiado depressa. A pressa em resolver pode ser, ela própria, uma forma de ansiedade disfarçada de apoio.
Fazer do percurso dos filhos uma questão de identidade própria. Este é talvez o mais subtil de todos. Quando o percurso dos filhos se torna um reflexo do sucesso ou do fracasso dos pais, a pressão que eles sentem deixa de ser sobre a escolha e passa a ser sobre a relação. E isso é um peso que nenhuma pessoa de 17 ou 18 anos devia ter de carregar.
O que os jovens precisam mesmo
Nas sessões que faço com jovens, há uma pergunta que faço quase sempre: “O que é que achas que os teus pais querem para ti?” As respostas são quase sempre as mesmas. Estabilidade. Segurança. Sucesso.
Depois pergunto: “E o que é que tu queres para ti?” E aí o silêncio é diferente. Mais longo. Mais incerto. Como se a pergunta fosse nova, ou como se tivessem aprendido que não era suposto tê-la.
O que os jovens precisam não são de pais que tenham as respostas. São de pais que acreditem que eles são capazes de as encontrar. Há uma diferença enorme entre acompanhar e dirigir. Entre estar presente e ocupar o espaço todo. Entre apoiar uma escolha com a qual não concordamos, e sabotá-la subtilmente até eles desistirem.
Precisam de pais que façam perguntas em vez de darem conselhos. Que digam “conta-me mais” em vez de “eu acho que devias”. Que tolerem a ambiguidade do percurso dos filhos sem a resolverem antes do tempo.
E precisam, muito, de pais que confiem neles. Mesmo quando dá medo.
Uma nota para os pais que estão a ler isto
Se chegaram até aqui e reconheceram algum destes padrões em vós próprios: bem-vindos e bem-vindas ao clube. Não há pais perfeitos. Há pais que refletem, que aprendem, que estão dispostos a fazer diferente. E isso, por si só, já é muito.
A pergunta que vos deixo não é “o que é que os meus filhos deviam fazer”. É outra, mais difícil: “Quão bem conheço os meus filhos, não o que eu projeto neles, mas eles, de facto?”
Porque o melhor que podemos fazer por quem amamos não é protegê-los do mundo. É ajudá-los a desenvolver a confiança de que precisam para o enfrentar por si próprios.
A jovem que mencionei no início foi, afinal, para Arquitetura. Não sei se foi a escolha certa, ninguém sabe isso no início. Mas foi a dela. E isso, acredito, já é metade do caminho.








