Opinião

A ética do Rei Sol

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School

Num mundo em que tanto se prega (e bem) a inclusão e a diversidade temos que saber que isto significa incluir tudo e todos e aceitar a diferença. Para mim isso é claro como água. Eu diria que é uma questão de educação, no sentido mais nobre da expressão.

Tudo quanto seja racismo é para mim incompreensível e inaceitável. E os factos são claros na recente história futebolística, em que um jogador acusa outro de o ofender, chamando-lhe macaco. Se é verdade (porque é impossível de confirmar), foi um ato desumano e intolerável. Mas num desporto em que se fingem lesões para atrasar o jogo e se dão mergulhos para expulsar um jogador adversário ou alcançar um penálti, tudo me parece possível (e atenção que isto é válido para ambos os lados). Alguma vez teremos verdade desportiva? Parece-me, infelizmente, que não.

Por outro lado, preocupa-me o nivelamento arbitrário da ofensa. Chamar a outro jogador todo o tipo de impropérios, ofendendo a mãe do mesmo, a tia e a família é um ato permitido, porque não é racista. E assim vamos educando gerações sobre o que se pode e não se pode dizer, estabelecendo níveis de ofensa muito discutíveis.

É evidente que o assunto está a ser amplamente discutido, ao nível do mais alto grau da UEFA e da FIFA, como um assunto de lesa-pátria. Lembro só que a FIFA, a título de nada, atribuiu um prémio da paz (criado à medida e no momento) para distinguir alguém que colocou os seus antecessores nas redes sociais imaginem, como macacos! Siga!

O rei Sol chamava-se assim porque se achava o sol da humanidade e o criador e definidor do bem e do mal. Bem era o que ele achava bem e mal era o que ele achava mal. O ilustre que recebeu o tal prémio da paz disse ainda, há pouco tempo, numa entrevista que a sua “própria moralidade” é o único limite ao seu poder, enquanto presidente. A história repete-se.

É evidente que quando os limites são ultrapassados passa a haver novos limites ou, como neste caso, nenhuns. E isto passa para a sociedade, para as empresas e para as crianças. O autoritarismo está a crescer, ao qual se junta o ódio, a ofensa, a intolerância e, finalmente, a guerra. Neste sistema atual, a diversidade e a inclusão significam o quê? Ilusões de um mundo que não se olha a si próprio? Ou apenas mais um argumento para definir a minha moral e a minha ética, porque eu sim sou um ser inclusivo e aceito a diversidade. Quem não for como eu, está fora.


Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.

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