Entrevista/ “O No-Code é um forte impulsionador da democratização do empreendedorismo e da inovação”

Miguel Muñoz Duarte, cofundador do NoCode Institute

Para Miguel Muñoz Duarte “a lacuna de competências digitais continua a ser uma realidade estrutural no mercado nacional e manifesta-se de forma transversal, tanto ao nível das empresas, como dos profissionais”. O cofundador do NoCode Institute explica porquê.

“A requalificação digital dos profissionais é um dos principais motores de inovação, produtividade e crescimento económico sustentável”, defende Miguel Muñoz Duarte, cofundador do NoCode Institute, entidade que está a organizar o Digital ShiftUP, um programa gratuito de formação em empreendedorismo digital que regressa em março, em parceria com o Santander X. Em entrevista ao Link to Leaders, Miguel Muñoz Duarte reflete sobre requalificação digital, o papel das tecnologias No-Code e IA na democratização do empreendedorismo e os principais bloqueios que ainda afastam muitos profissionais da criação de produtos digitais.

Qual o impacto que um programa de aceleração de empreendedorismo digital como o Digital ShiftUP pode ter para ajudar a transformar ideias em soluções reais?

Um programa de aceleração como o Digital ShiftUP tem um impacto estruturante na transformação de ideias em soluções digitais concretas, ao atuar simultaneamente sobre competências, acompanhamento estratégico e execução prática. Ao disponibilizar formação aplicada em No-Code e Inteligência Artificial, o programa permite que empreendedores e profissionais não técnicos adquiram autonomia tecnológica para materializar as suas ideias.

Paralelamente, a mentoria especializada garante um acompanhamento próximo em todas as fases do processo, desde a validação do problema até à definição da proposta de valor e do modelo de negócio. A forte componente prática, centrada no desenvolvimento de um Produto Mínimo Viável (MVP), reduz significativamente o tempo entre a conceção da ideia e o seu teste no mercado. Este modelo diminui riscos, reduz custos iniciais e democratiza o acesso ao empreendedorismo digital, tornando possível criar soluções reais, escaláveis e orientadas a problemas concretos, mesmo sem conhecimentos de programação.

“(…) existe talento e capacidade empreendedora no mercado (…) faltam os meios e as ferramentas e o acompanhamento adequados  (…)”.

Enquanto organizadores do programa, que balanço faz da recetividade do mercado à iniciativa?

O balanço da recetividade do mercado à primeira edição do Digital ShiftUP é claramente muito positivo. Verificou-se um elevado envolvimento por parte dos participantes ao longo de todo o percurso, o que demonstra a existência de uma verdadeira procura por programas práticos, acessíveis e orientados para a criação de produtos digitais.

O feedback recolhido junto dos participantes, mentores e parceiros reforça a perceção de que existe talento e capacidade empreendedora no mercado, mas que muitas vezes faltam os meios, as ferramentas e o acompanhamento adequados para transformar ideias em soluções concretas. A decisão de avançar para uma segunda edição resulta precisamente deste reconhecimento.

A lacuna de competências digitais ainda é uma realidade no mercado nacional? Onde se nota mais? Nas empresas, nos profissionais?

A lacuna de competências digitais continua a ser uma realidade estrutural no mercado nacional e manifesta-se de forma transversal, tanto ao nível das empresas, como dos profissionais. Esta situação tende a agravar-se com a aceleração tecnológica e a crescente integração da Inteligência Artificial nos processos económicos e organizacionais.

Nas PME e no empreendedorismo mais tradicional observa-se frequentemente uma baixa maturidade digital, refletida na utilização limitada de ferramentas tecnológicas, na dificuldade em automatizar processos e na ausência de uma estratégia clara de transformação digital. Do lado dos profissionais, sobretudo nos perfis não técnicos, persiste uma dificuldade de acesso a competências digitais práticas. Esta lacuna compromete a competitividade das organizações, limita a empregabilidade e contribui para o aprofundamento de desigualdades no acesso às oportunidades da economia digital.

As empresas estão a capitalizar devidamente as potencialidades das ferramentas No-Code e da Inteligência Artificial, por exemplo? Em que áreas se nota mais essa capitalização?

Apesar de uma crescente consciencialização para o potencial das ferramentas de No-Code e da Inteligência Artificial, a maioria das empresas ainda não está a tirar pleno partido destas tecnologias. Em muitos casos, a sua utilização é pontual e pouco integrada numa estratégia consistente de transformação digital. A adoção é mais visível em áreas como a automação de processos internos, o marketing digital, o desenvolvimento rápido de protótipos, a criação de aplicações internas e a otimização de fluxos operacionais. Estas áreas permitem obter ganhos rápidos de eficiência e demonstrar valor de forma tangível. Contudo, existe ainda um enorme potencial por explorar, sobretudo nas PME, onde estas ferramentas podem funcionar como verdadeiros catalisadores de inovação.

“Ao dotar as pessoas de competências digitais práticas e relevantes, cria-se uma força de trabalho mais adaptável, resiliente e preparada (…)”

A requalificação digital dos profissionais pode ser o motor de inovação e do crescimento económico? Em que setores de atividade essa requalificação pode ser mais eficaz?

A requalificação digital dos profissionais é um dos principais motores de inovação, produtividade e crescimento económico sustentável. Ao dotar as pessoas de competências digitais práticas e relevantes, cria-se uma força de trabalho mais adaptável, resiliente e preparada para responder às exigências de um mercado em constante transformação. Esta requalificação é particularmente eficaz em setores como os serviços, comércio, indústria, turismo, educação, saúde e economia criativa, onde a digitalização de processos e a criação de novos produtos e serviços geram impactos rápidos e mensuráveis.

Mais do que formar especialistas técnicos, a requalificação digital permite capacitar profissionais não técnicos, independentemente do seu background, a identificar problemas, desenhar soluções digitais e atuar como agentes de transformação nas organizações.

De que forma, a formação em No-Code pode contribuir para que empreendedores e start-ups possam dar o salto no desenvolvimento dos seus produtos, sem precisarem de código nem de uma equipa técnica?

A formação em No-Code permite que empreendedores e start-ups assumam um papel ativo e autónomo no desenvolvimento dos seus produtos digitais, sem necessidade de conhecimentos de programação ou de uma equipa técnica dedicada. Estas ferramentas possibilitam a criação de websites, aplicações, automações e plataformas digitais funcionais, de forma rápida. Este modelo reduz significativamente os custos iniciais de desenvolvimento, acelera o tempo de entrada no mercado e facilita a validação contínua das soluções junto dos utilizadores.

Qual o balanço da primeira edição do Digital ShiftUP e quais as metas da próxima edição em termos de dinamização da formação em empreendedorismo digital? Quais as ambições para este ano?

O balanço da primeira edição do Digital ShiftUP é claramente muito positivo, com participantes a evoluírem de ideias iniciais para MVPs funcionais, culminando na apresentação das suas soluções num Demo Day perante investidores e parceiros do ecossistema.

Para a segunda edição, as metas passam por reforçar a componente prática da formação, aprofundar o acompanhamento através de mentoria especializada e aumentar o impacto global do programa. A ambição é consolidar o Digital ShiftUP como uma referência nacional em empreendedorismo digital inclusivo.

“(…) o No-Code está a transformar a forma como os produtos e serviços digitais são concebidos (…)”.

Irá o No-Code marcar o futuro dos negócios digitais do futuro?

O No-Code assumirá um papel central no futuro dos negócios digitais, ao permitir acelerar ciclos de inovação, reduzir custos de desenvolvimento e aumentar a capacidade de experimentação das organizações. Em articulação com a Inteligência Artificial, o No-Code está a transformar a forma como os produtos e serviços digitais são concebidos, desenvolvidos e escalados, tornando os negócios mais ágeis, eficientes e competitivos.

Pode ser um impulsionador da democratização do empreendedorismo e da inovação?

O No-Code é um forte impulsionador da democratização do empreendedorismo e da inovação, ao eliminar barreiras técnicas e reduzir a dependência de competências especializadas. Ao permitir que qualquer pessoa, independentemente da sua formação técnica, consiga criar, testar e iterar soluções digitais, o No-Code amplia significativamente o acesso à inovação. Isto contribui para um ecossistema mais inclusivo, diverso e orientado para a criação de valor económico e social.

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