Opinião

Aquilo a que nos habituámos, e que não temos de aceitar

Madalena Cordeiro Dias Almeida, Customer Service Manager na Corticeira Amorim

Habituamo-nos a muita coisa. O ser humano é extraordinário nesse talento silencioso: normaliza o que dói, racionaliza o que humilha e chama “feitio” ao que é abuso. No trabalho, em particular, esta capacidade de adaptação transforma-se muitas vezes numa armadilha elegante, uma jaula com boas maneiras.

Habituámo-nos a conversas em que alguém fala por cima, como quem passa um trator em cima do diálogo. A “brincadeiras” que fazem encolher os ombros e o estômago. A mensagens fora de horas tratadas como se o tempo pessoal fosse uma extensão natural do tempo de trabalho. Ao tom condescendente, ao olhar reprovador, à ironia embrulhada em humor. Habituámo-nos ao desconforto como quem se habitua a um sapato apertado: dói, mas “dá para andar”.

E, no entanto, muito do que aprendemos a tolerar encaixa, juridicamente e eticamente, naquilo que se chama assédio moral.

O assédio raramente se apresenta em forma de escândalo. Não chega com música dramática de fundo nem com sinais luminosos a piscar. Pelo contrário, ele é discreto, repetitivo, quase banal. É a micro-humilhação diária, a desvalorização constante, o isolamento subtil, a pressão psicológica disfarçada de exigência profissional. É o “não leves a mal” que dói mais do que o insulto explícito.

Talvez por isso seja tão difícil de reconhecer; porque não é espetacular, é quotidiano. E o quotidiano, quando é tóxico, é o mais difícil de identificar e o mais perigoso de tolerar.

Falar de impor limites ainda soa, muitas vezes, como uma espécie de radicalismo emocional. Como se dizer “não” fosse um ato de rebeldia e não um exercício básico de dignidade. Vamos convivendo com a ideia de que ser profissional é ser disponível, resiliente, compreensivo, mesmo quando isso significa engolir em seco, baixar os olhos e seguir em frente.

Mas impor limites não é criar conflito. É criar clareza.

Dizer “não aceito” não é uma afronta; é uma afirmação de respeito, por nós e pelos outros. É também uma forma de responsabilidade, uma responsabilidade pela nossa saúde mental, pela qualidade do nosso trabalho e pelo tipo de ambiente que ajudamos a construir. Quem aceita tudo contribui, mesmo que involuntariamente, para que tudo continue.

Há uma narrativa perigosa de que quem sofre assédio “devia ter falado antes”. É uma frase que parece justa e é profundamente injusta. Muitas vezes não se fala porque se teme represálias, porque sempre disseram que “é assim em todo o lado”, porque se interioriza que o problema somos nós. Mas chega um momento em que a conversa tem de mudar de lugar, não pode ser só sobre a coragem individual, tem de ser sobre a cultura coletiva.

As organizações têm responsabilidade. Quem lidera tem responsabilidade. Quem observa e nada faz também tem responsabilidade. Não basta ter códigos de conduta bem escritos; é preciso que esses códigos se manifestem na forma como se fala, como se decide e como se age quando alguém ultrapassa limites.

E nós, enquanto profissionais e pessoas, também temos a responsabilidade de não romantizar o sofrimento, de não chamar “resiliência” ao esgotamento, de não confundir dureza com competência, nem crueldade com liderança.

Talvez o maior ato de maturidade profissional, hoje, seja saber dizer: “Isto não é aceitável.” Sem teatralidade, sem dramatização, sem espetáculo, mas com firmeza tranquila.

Porque merecemos trabalhar sem medo, sem humilhação e sem ter de escolher entre a nossa carreira e a nossa dignidade.

E porque há coisas a que nos habituámos… mas às quais não temos de continuar a dizer sim.


Madalena Cordeiro Dias Almeida é apaixonada por palavras e pelas histórias que elas contam. Com experiência na área de Customer Service, valoriza a comunicação clara, empática e eficaz. Orgulhosamente mãe de quatro filhos, concilia a maternidade com a escrita e a partilha de experiências nos projetos @mum.for4 e @saudavelmentelouca, onde aborda, com honestidade e humor, a loucura dos dias em família e reflexões sobre os desafios e encantos da vida.

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