Opinião
Portugal não é um mercado. É uma plataforma.
Durante muito tempo, foi natural pensar Portugal como um ponto de chegada. Um mercado onde as empresas nasciam, cresciam e procuravam consolidar-se. Esse enquadramento fez sentido num determinado contexto económico e geopolítico, mas, hoje, o mundo empresarial opera com outras lógicas e isso obriga-nos a repensar a forma como posicionamos as nossas empresas.
As decisões estratégicas deixaram de se centrar apenas na dimensão dos mercados nacionais, com o foco a passar para os ecossistemas, para a capacidade de ligação a outros mercados, para a proximidade a talento, capital e redes internacionais. Nesse novo mapa, os países que melhor se posicionam não são necessariamente os maiores, mas os que funcionam como plataformas de crescimento, capazes de ligar empresas a oportunidades globais.
Portugal tem todas as condições para assumir esse papel.
A localização geográfica, a ligação histórica a vários continentes, a qualidade do talento, a estabilidade institucional e a credibilidade externa criam um conjunto de ativos raros. Cada vez mais, Portugal é visto como um país onde faz sentido lançar projetos empresariais com ambição internacional. E o desafio já não está em reconhecer este potencial, mas em transformá-lo numa estratégia consciente, estruturada e consistente.
Pensar Portugal como plataforma não significa desvalorizar o mercado interno, significa, isso sim, entendê-lo como ponto de partida, não como limite. Uma empresa que nasce hoje em Portugal ganha quando se estrutura desde cedo para operar em diferentes geografias, adaptando modelos, equipas e propostas de valor a contextos diversos. Não por pressa, mas por visão; não por moda, mas por necessidade estratégica.
Essa mudança exige planeamento e intencionalidade, exige que os empreendedores incorporem, desde cedo, temas como escala, governação, internacionalização, parcerias estratégicas e talento global. Também exige uma maior capacidade de antecipação: perceber onde estarão os mercados relevantes, como evoluem as cadeias de valor e que competências serão críticas no médio prazo.
Contudo, esta ambição não depende apenas dos empreendedores. Requer um ecossistema alinhado com esse percurso de crescimento, investidores preparados para acompanhar fases de escala, políticas públicas que incentivem empresas a crescer além-fronteiras e associações empresariais capazes de criar pontes reais com outros mercados, setores e redes internacionais.
O empreendedorismo português tem evoluído de forma positiva tendo, hoje, maior maturidade, maior sofisticação e uma leitura mais clara do contexto global. O próximo salto passa por consolidar esta evolução, criando empresas mais robustas, mais bem governadas e mais preparadas para competir num mundo volátil, exigente e em permanente transformação.
Assumir Portugal como plataforma é, acima de tudo, uma escolha de futuro. Uma escolha que amplia horizontes, reforça a ambição coletiva e posiciona as empresas portuguesas como parte ativa das cadeias de valor globais. Não se trata de mudar quem somos, mas de potenciar aquilo que já temos, com mais visão, mais cooperação e mais confiança.
Num mundo em constante reorganização, a relevância constrói-se pela capacidade de ligar, escalar e antecipar. E Portugal, se o assumir plenamente, pode ser muito mais do que um mercado: pode ser o ponto de onde se chega mais longe.
* Associação Nacional de Jovens Empresários








