Opinião

A filantropia, o dar estrategicamente

Belén de Vicente, CEO da Medical Port

Nos últimos 15 anos tenho participado ativamente na configuração e implementação de programas de filantropia em grandes instituições públicas que sonham alto e procuram apoio para concretizar as suas missões.

Quando comecei não sabia nada deste tema, li livros e procurei informação, mas como em quase tudo na vida só a prática é que me permite falar com algum conhecimento.

A filantropia é diferente da caridade em quase tudo, mas ainda hoje continua a confundir-se. O facto de filantropia significar etimologicamente “Amor pela humanidade” pode ser a causa desta perceção. Ambas são práticas sociais generosas e voluntárias, mas têm objetivos, modelos, impacto e prazos muito diferentes.

Um programa de filantropia bem definido carateriza-se por dar resposta, através de um plano estratégico, a um problema bem identificado, mensurável, cuja solução, também mensurável, vai gerar uma mudança sistémica e sustentável de longo prazo. Para mim a filantropia é um “dar estrategicamente”.

Todos os projetos em que participei trouxeram-me aprendizagens relevantes que ajudam a compreender melhor a complexidade deste ato. A maior parte dos projetos que fiz estão relacionados com doações financeiras, de tempo e de talento significativas.

A ligação emocional à causa
As organizações procuram causas com significado e com alinhamento estratégico com a empresa. É claro que se não houver uma ligação emocional com o problema que vai ser resolvido, dificilmente se avança para o passo seguinte. Se não me diz nada não dou. Felizmente os dois setores de atividade onde se concentra a minha experiência profissional – Saúde e Educação – geram oportunidades à volta de inúmeras causas válidas e dizem muito a quase todas as pessoas pelo seu claro impacto no indivíduo, nas comunidades e na sociedade.

O planeamento estratégico do uso dos fundos
Qualquer organização que queira contribuir para uma causa quer saber como os fundos vão ser utilizados – não chega apenas dizer por exemplo “é para construir um edifício maior porque não cabemos no existente”. A existência de um plano estratégico com sentido, que se consegue explicar de forma simples, que deixa que os doadores façam parte dele e se queiram comprometer com ele porque entendem o seu papel é incontornável. Não há donativos sem planos estratégicos coerentes e realistas.

Uma missão com impacto mensurável e sustentável
Se a missão que a organização se propõe realizar não se pode medir para saber se foi concretizada, o programa de filantropia é mais um sonho ou um desejo que se esfuma, que é muito bonito e inspirador, mas que não se consegue sustentar. As pessoas/organizações dão uma vez, mas não voltam a dar. Não se cria uma relação de parceria com os benfeitores. Ou seja, voltando ao plano estratégico, ele tem de incluir a forma como vamos demonstrar que atingimos o objetivo que nos propusemos. É assim que quem doa valida a viabilidade e sustentabilidade do que lhe estamos a propor.

Uma gestão transparente e participada
Quem recebe os fundos tem de se comprometer com o critério da transparência em relação aos seus doadores, que podem querer saber como estão a ser utilizados os fundos. Para além dos dados quantitativos, quem receber deve dar constante informação aos seus parceiros, para que continuem ligados à causa, para que possam contar a história a outros que se motivem através do exemplo. Já vi acontecer o dar porque outros deram, um fenómeno fascinante a não menosprezar.

A transparência e a construção de relações de confiança fazem parte da sustentabilidade do projeto. Isto implica estabelecer boas práticas de governance na organização que recebe os fundos, permitindo assim afastar conflitos de interesse e potencial mau uso dos fundos.

Ainda em relação ao modelo de governance das instituições recetoras, é essencial definir bem o poder dos doadores nas instituições, no sentido de equilibrar poderes (existe a tendência de dou muito e então tenho muito poder de decisão) e para criar um grupo robusto de decisores cuja principal atividade é garantir as condições para criar valor nesse projeto.

Quem recebe tem de aceitar que quem dá tem uma palavra a dizer, está comprometido. Cada vez menos alguém dá, só para colocar o seu nome num espaço bonito e desaparece. Doar com propósito implica estar associado a essa entidade e a essa causa e ter orgulho nisso.

As organizações e as pessoas querem estar ligadas a causas maiores do que elas, que as engrandeçam. O risco reputacional de doar a entidades que não tenham as características acima mencionadas é hoje em dia muito bem avaliado pelas organizações antes de se comprometerem. A idoneidade do projeto e das pessoas que os representam tem de ser inquestionável, para de facto os efeitos da filantropia perdurarem no tempo.

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Belén de Vicente

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. É também fundadora da Stuward Health. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em consultoria de gestão na Península Ibérica e na gestão de parcerias internacionais nos setores do Ensino Superior e da Saúde. É apaixonada por projetos desafiantes que envolvam transformações com pessoas e para pessoas.

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