Opinião

Fim do ano, balanços e outras idiossincrasias

Nuno Madeira Rodrigues, Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário da Fieldfisher Portugal

Chegou finalmente aquela altura do ano em que começamos a abrandar o ritmo, dedicamos um pouco mais de tempo à família, abusamos nos doces e nas refeições tradicionais, sonhamos com aconchego em frente a uma lareira crepitante, uma boa manta e um filme de pastilha elástica, enquanto lá fora chove – ou para os afortunados, neva –, tudo isto com o tilintar de luzes coloridas nas árvores de Natal que decoram os nossos lares.

Com mais tempo livre, e tirando a azáfama dos dias festivos, é também quando relaxamos um pouco a cabeça, quando o final do ano se aproxima e começamos a fazer os tradicionais balanços do que foi, do que podia e do que devia ter sido o ano, e acima de tudo quando renovamos as forças para mais um novo período de desafios que se abre assim que soarem as doze badaladas da noite de 31 de dezembro.

É efetivamente uma característica muito nossa, muito humana, ligar a esta construção abstrata a que chamamos de tempo. Medir a nossa vida por blocos, períodos de ação ou descanso, sempre sob o jugo de uma contagem artificial de algo etéreo que não vemos, não dominamos e acima de tudo não entendemos, mas que constantemente determina o nosso comportamento e a maneira como escolhemos viver a nossa vida.

Acima de tudo a ironia de servir este mestre invisível está no erro subjacente a toda a conceção de um momento fixo no tempo, ao qual reportamos o sucesso ou insucesso de um determinado período, e que se pensarmos bem, pouco ou nenhum sentido faz. É comum dizermos que é altura de fazer balanços. Mas os balanços são realidades estáticas, ou melhor explicando, fotografias de um determinado e único momento, não um filme de uma realidade evolutiva e em constante mudança, tal como é a própria vida. Apenas nos revelam algo que era ou é assim num instante fugaz, mas que servem para depois extrapolarmos todo um conjunto de consequências e resoluções que pouco ou nada levam em consideração tudo o demais que deveríamos ponderar.

Acho, muito honestamente, que isso nos torna uma espécie preguiçosa. Como se um determinado balanço num determinado momento tivesse o condão de nos iluminar um caminho, fazendo tábua rasa de tudo o demais que ao redor acontece. E por isso, o fim do ano é apenas isso mesmo, o fim de um ano de um calendário (entre tantos diferentes que a Humanidade tem e teve ao longo da História), um dia como tantos outros, em que verdadeiramente nada muda, só o próprio dia e os números que construímos para associar ao mesmo. No dia seguinte (sendo os próprios dias outra construção humana, embora com maior ligação a realidades físicas do que o conceito de tempo), somos os mesmos, perseguimos os mesmos objetivos que queríamos no ano anterior, o frio não arredou caminho e a tal manta quente numa plácida tarde de domingo continua a ter a mesma importância que já tinha no “ano passado”.

O desafio, e se de resoluções falamos nesta altura, está em ignorar o tempo e a sua alegada passagem. O desafio está em fazer um balanço contínuo, medir a todo o momento o que somos e o que queremos ser, o que fazemos e queremos fazer, onde errámos e onde tivemos sucesso. Nunca deixar para um qualquer marco temporal, até porque, mesmo sendo uma ilusão, nunca sabemos quanto tempo ainda temos.

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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