Entrevista/ “A nossa missão é tornar os edifícios autoconscientes”

Javad Hatami, CEO e cofundador da Builtrix

“O que começou como uma pequena consultora tornou-se numa empresa tecnológica com uma missão clara: ajudar as organizações a recolher, unificar e analisar dados ambientais – eletricidade, gás e água – em todos os edifícios”, afirma Javad Hatami, CEO e cofundador da Builtrix, start-up portuguesa de inteligência energética.

Num contexto em que a transição energética deixou de ser apenas uma obrigação ambiental para se tornar numa oportunidade estratégica, a Builtrix está a mostrar como os dados podem desbloquear o progresso real. A start-up portuguesa, que começou como uma pequena consultora, tornou-se numa plataforma tecnológica capaz de transformar milhões de pontos de dados de contadores inteligentes em insights acionáveis. De hotéis e cadeias de retalho a municípios como Cascais, Porto e Roma, a Builtrix ajuda as organizações a compreender o que consomem, onde desperdiçam e como podem descarbonizar de forma mensurável.

Nesta entrevista, Javad Hatami, CEO e cofundador da start-up, explica como nasceu a ideia, de que forma a plataforma torna a sustentabilidade mais simples e porque acredita que todas as empresas se tornarão “empresas de energia” na próxima década.

Como surgiu a ideia de criar a Builtrix?

A ideia da Builtrix nasceu de uma mistura de frustração e curiosidade. Em 2018,  trabalhava com hotéis e empresas imobiliárias em projetos de eficiência energética e percebi um paradoxo: todos falavam de sustentabilidade, mas poucos tinham acesso aos dados básicos necessários para agir. As contas de energia, gás e água estavam espalhadas por faturas, portais e folhas de cálculo. Sem dados fiáveis, até os objetivos ESG mais ambiciosos permaneciam apenas metas no papel.

Essa perceção ficou comigo. Mais tarde, durante o doutoramento no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, conheci o cofundador da Builtrix, Mojtaba Kamarlouei, e partilhávamos a mesma convicção: os dados poderiam transformar a forma como os edifícios são geridos.

Em 2020, decidimos transformar essa visão em realidade e fundámos a Builtrix. O que começou como uma pequena consultora tornou-se numa empresa tecnológica com uma missão clara: ajudar as organizações a recolher, unificar e analisar dados ambientais – eletricidade, gás e água – em todos os edifícios. Hoje, a Builtrix capacita empresas para tomarem decisões energéticas mais inteligentes, cumprirem regulamentos ESG como a CSRD e avançarem rumo à descarbonização. No fundo, a ideia continua a mesma: tornar a sustentabilidade mensurável, acessível e prática através dos dados. Não quisemos criar apenas outro painel de control, quisemos criar clareza.

“Os dados sobre o uso de energia, gás e água estão fragmentados entre fornecedores, folhas de cálculo e sistemas de faturação”.

Segundo a Comissão Europeia, os edifícios representam 40% do consumo de energia e 36% das emissões de gases com efeito de estufa. Como é que a Builtrix ajuda a enfrentar este desafio?

Essa estatística resume perfeitamente a razão pela qual criámos a Builtrix, porque os edifícios estão no centro do desafio climático da Europa, mas também no centro da solução. A nossa abordagem é simples: antes de melhorar o consumo, é preciso compreendê-lo. É aqui que a maioria das organizações enfrenta dificuldades. Os dados sobre o uso de energia, gás e água estão fragmentados entre fornecedores, folhas de cálculo e sistemas de faturação. Sem dados unificados, as empresas não conseguem identificar desperdícios, medir o impacto de carbono nem planear ações eficazes de descarbonização.

A Builtrix resolve, automatizando todo o processo. A nossa plataforma liga-se diretamente aos contadores e fontes de dados existentes – sem necessidade de novo hardware – e transforma os dados brutos de consumo em informações claras e acionáveis. Num único dashboard, as empresas veem onde desperdiçam energia, comparam edifícios e acompanham emissões em tempo real.

Essa visibilidade desbloqueia o progresso. Com dados estruturados e transparentes, as organizações definem metas científicas, reduzem consumo e cumprem normas ESG como CSRD, GHG Protocol e Taxonomia Europeia. Já vimos o impacto disso: clientes como HF Hotels, Câmara Municipal de Cascais e Details – Hospitality, Sports, Leisure usam a Builtrix para centralizar dados energéticos e identificar oportunidades de redução de custos e emissões.

De certa forma, a nossa missão é tornar os edifícios “autoconscientes” – transformar consumidores passivos de energia em ativos inteligentes e orientados por dados que contribuam ativamente para a descarbonização europeia.

Não se pode descarbonizar o que não se consegue medir, e é precisamente essa lacuna que estamos a fechar.

A transição energética é muitas vezes vista apenas como uma obrigação ambiental. Como a Builtrix a encara também como uma oportunidade estratégica para as empresas e municípios?

É verdade, muitas organizações ainda veem a transição energética como uma obrigação. Mas, para a Builtrix, ela representa uma das maiores oportunidades estratégicas desta década. A mudança para a sustentabilidade já não se resume a conformidade ou reputação; é uma questão de competitividade. Os custos de energia sobem, as regras tornam-se mais rigorosas e os investidores valorizam quem demonstra progresso real na descarbonização. Neste contexto, a gestão energética baseada em dados é não só uma necessidade ambiental, mas também uma estratégia financeira poderosa.

A nossa plataforma ajuda empresas e municípios a transformar dados ambientais em business intelligence. Ao compreender onde a energia é consumida – e desperdiçada – reduzem custos operacionais, otimizam ativos e até valorizam propriedades. Para o setor público, isso significa uma utilização mais eficiente dos recursos e a capacidade de liderar pelo exemplo nos objetivos climáticos locais.

Costumamos dizer aos clientes que a sustentabilidade está a tornar-se a nova medida de desempenho. Um edifício que consome menos energia, emite menos carbono e o prova com dados não é apenas mais verde – é mais valioso.

“Num cliente hoteleiro, descobrimos que cerca de 18% do consumo total de eletricidade provinha de sistemas ligados durante a noite (…)”. 

De que forma a vossa plataforma transforma dados de contadores inteligentes em insights acionáveis?

Assim que os dados entram na plataforma são limpos, unificados e analisados através de algoritmos desenvolvidos internamente. O sistema identifica tendências, anomalias e ineficiências –  por exemplo, pode destacar edifícios que consomem mais energia do que outros semelhantes, detetar consumo anormal durante a noite ou indicar onde pode haver desperdício de água ou gás. Num cliente hoteleiro, descobrimos que cerca de 18% do consumo total de eletricidade provinha de sistemas ligados durante a noite, em períodos de baixa ocupação. 

Em seguida, traduzimos essas informações em indicadores de desempenho e dashboards na plataforma. Os gestores de instalações, equipas de ESG e decisores financeiros podem ver rapidamente o desempenho dos seus edifícios, acompanhar as emissões de CO₂ e avaliar o impacto financeiro das suas medidas de eficiência.

Mas não ficamos apenas pela análise. Depois de compreenderem os seus padrões de consumo, os clientes passam à ação – e é aqui que entra a nossa rede de parceiros. Colaboramos com especialistas do setor energético – desde instaladores de painéis solares e empresas de carregamento de veículos elétricos até consultores em eficiência – que ajudam os nossos clientes a implementar soluções concretas. Assim, fechamos o ciclo entre dados, decisão e impacto mensurável.

Em termos simples, transformamos consumo invisível em inteligência acionável  e ligamos essa inteligência à ação.

Utilizam IA e big data para gerar relatórios de pegada de carbono e cumprir regulamentos ESG. De que forma ajudam os gestores de ativos a obter financiamento verde ou a valorizar imóveis?

No setor imobiliário, o foco está no valor do ativo e na conformidade. Investidores e gestores de ativos precisam de demonstrar que os seus edifícios cumprem critérios ESG e de descarbonização, evitando que se tornem ativos desvalorizados. Com a Builtrix, conseguem acompanhar consumo e emissões em todo o portefólio, comparar desempenhos e preparar relatórios alinhados com normas como a CSRD e a Taxonomia Europeia. Isto reforça o acesso a financiamento verde e valoriza os ativos.

No turismo e hotelaria, a energia representa uma das maiores despesas operacionais  e a sustentabilidade é cada vez mais um fator decisivo para os hóspedes. A Details – Hospitality, Sports, Leisure, por exemplo, usa a Builtrix para monitorizar o consumo de energia nos seus hotéis e resorts no sul de Portugal, identificar ineficiências e comunicar progressos de forma transparente. Ao tornar o consumo visível e mensurável, os operadores reduzem custos, melhoram a imagem da marca e respondem às expectativas de viajantes e investidores.

No retalho, cada loja conta. As cadeias de supermercados e lojas de conveniência gerem dezenas ou centenas de espaços. A nossa plataforma centraliza todos os dados de eletricidade, gás e água num único local, permitindo detetar desperdícios, comparar desempenhos e verificar poupanças resultantes de medidas de eficiência.

Nos municípios, os benefícios vão além das poupanças financeiras. Municípios como Cascais utilizam a Builtrix para gerir edifícios públicos de forma mais eficiente, acompanhar o progresso rumo a metas climáticas e liderar pelo exemplo. É uma forma de traduzir políticas em resultados mensuráveis, apoiando o objetivo nacional de Portugal de alcançar a neutralidade carbónica até 2050 e aumentando a transparência pública.

“Um excelente exemplo do impacto da Builtrix vem da nossa colaboração com o grupo HF Hotels, um dos mais reconhecidos em Portugal”.

Trabalharam com cidades como Porto, Cascais e Roma, bem como com empresas do setor hoteleiro. Pode partilhar exemplos concretos de impacto e resultados?

Um excelente exemplo do impacto da Builtrix vem da nossa colaboração com o grupo HF Hotels, um dos mais reconhecidos em Portugal. Realizámos um estudo de eficiência energética abrangente em oito propriedades em Lisboa e Porto, com o objetivo de compreender o desempenho energético de cada hotel e identificar oportunidades de poupança sem comprometer o conforto dos hóspedes.

As conclusões foram reveladoras. O grupo já tinha uma base sólida de eficiência, com um consumo total de eletricidade de cerca de 6,7 GWh anuais, mas muitos sistemas ainda operavam com horários fixos. Aquecimento, ar condicionado e iluminação funcionavam na capacidade máxima, independentemente da ocupação ou estação. Ao adotar controlos inteligentes baseados na ocupação e ajustar operações à procura real, o grupo poderia reduzir o consumo, representando cerca de 300 mil euros em poupanças anuais potenciais.

Hotéis como o Fénix Garden e o Fénix Porto destacaram-se como referências internas, com desempenhos muito abaixo dos níveis médios do setor. Já as propriedades maiores apresentavam mais margem de melhoria, especialmente na otimização dos sistemas AVAC e na gestão de áreas comuns.

A principal lição foi clara: o HF Hotels pode alcançar ganhos financeiros e ambientais substanciais ao alinhar o uso de energia com a ocupação real e automatizar operações.

Há algum projeto que considere particularmente emblemático, como o projeto com a COOP Suíça? Que insights trouxeram e que impacto teve na eficiência energética das lojas?

Sim, um dos nossos projetos internacionais mais emblemáticos foi com a COOP Suíça, uma das maiores cadeias de retalho da Europa. O principal objetivo consistia em compreender as razões por detrás de picos de eletricidade anormais em algumas lojas da Suíça. No mercado energético suíço, as tarifas durante as horas de ponta podem ser três a quatro vezes superiores às tarifas normais, por isso é essencial nivelar a curva de consumo para reduzir custos e garantir estabilidade na rede.

Com a nossa plataforma, analisámos padrões de consumo detalhados em vários pontos energéticos de cada loja, incluindo sistemas AVAC, iluminação, vitrinas frigoríficas, unidades de refrigeração e aquecedores elétricos. Os nossos algoritmos aplicaram técnicas de medição virtual e de desagregação não intrusiva de carga (NILM) para identificar quais os equipamentos responsáveis por esses picos.

A análise revelou um resultado surpreendente: os aquecedores elétricos usados durante as manhãs e à hora de almoço, principalmente em áreas de preparação de alimentos, eram os principais responsáveis pelos picos elevados. Foi um exemplo clássico de um pequeno hábito operacional a gerar um impacto financeiro desproporcionado.

Com base nestas conclusões, a COOP decidiu instalar sistemas de baterias para absorver e redistribuir a carga durante as horas de ponta, reduzindo a exposição a tarifas elevadas sem comprometer o conforto dos clientes nem a continuidade das operações. Este projeto demonstrou como a ciência de dados e a inteligência artificial podem revelar ineficiências ocultas que até gestores energéticos experientes podem não identificar.

“A sustentabilidade, o ESG e o impacto tornar-se-ão parte integrante de todas as decisões financeiras de bancos, seguradoras e investidores”.

Como vê a evolução do mercado de energia e tecnologia sustentável nos próximos anos?

Estamos a entrar numa década decisiva para a energia e a sustentabilidade – uma década que transformará profundamente a forma como as organizações operam, se financiam e tomam decisões.

Até agora, a sustentabilidade foi muitas vezes tratada como um tema paralelo – algo separado da estratégia central das empresas. Isso está prestes a mudar. Nos próximos anos, as finanças sustentáveis deixarão de ser um nicho; falar-se-á apenas de finanças. A sustentabilidade, o ESG e o impacto tornar-se-ão parte integrante de todas as decisões financeiras de bancos, seguradoras e investidores. O próprio sistema financeiro está a ser redesenhado para recompensar transparência, eficiência e descarbonização mensurável – e os dados serão a ponte entre o desempenho ambiental e o valor financeiro.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial e a digitalização estão a transformar o mercado energético. A IA não só otimizará o consumo energético dos edifícios, como redefinirá a forma como a energia é produzida, comercializada e gerida. Contudo, esta aceleração digital também traz novos desafios: o crescimento dos centros de dados, por exemplo, está a criar uma procura significativa de eletricidade. Isso significa que a eficiência e a flexibilidade energética devem evoluir lado a lado com a inovação digital, garantindo que os ganhos em inteligência não resultam em mais emissões.

É também necessário reconhecer que o mercado energético se tornou mais volátil. Os preços são cada vez mais influenciados por fatores geopolíticos, decisões políticas e desequilíbrios regionais. Esta volatilidade está a levar empresas e consumidores a repensar a energia – não como um custo fixo, mas como uma variável estratégica que pode ser gerida, otimizada e até rentabilizada através de sistemas inteligentes e produção distribuída.

Neste contexto, a geração descentralizada de energia desempenhará um papel essencial — especialmente em países como Portugal, onde a capacidade renovável cresce rapidamente. Caminhamos para um modelo em que os edifícios deixam de ser apenas consumidores, passando a participantes ativos no ecossistema energético – a produzir, armazenar e partilhar energia limpa localmente. Telhados solares, veículos elétricos e micro-redes formarão uma rede interligada que proporcionará resiliência, independência e novas oportunidades.

Do nosso ponto de vista, o mercado está claramente a mover-se em direção à inteligência e integração. Os sistemas energéticos tornam-se mais inteligentes, o sistema financeiro mais sustentável e as fronteiras entre tecnologia, energia e finanças estão a desaparecer. A próxima revolução energética não será sobre geração  será sobre informação.

Que desafios ainda persistem para a adoção generalizada de tecnologia sustentável?

Os maiores obstáculos à adoção em larga escala de tecnologia sustentável não são tecnológicos, mas organizacionais, culturais e estruturais. A maioria das empresas já entende a importância da sustentabilidade. A verdadeira dificuldade está em integrá-la no dia a dia operacional. Os dados continuam dispersos por fornecedores, faturas e sistemas antigos. As equipas são pequenas, e as funções de sustentabilidade muitas vezes acumulam-se com outras responsabilidades. Como resultado, as ambições ESG frequentemente ficam presas em apresentações, em vez de se traduzirem em práticas mensuráveis e orientadas por dados.

Esta realidade é confirmada por estudos nacionais. O relatório mais recente do BCSD Portugal sobre Maturidade ESG (2024–2025) reforça este cenário: a maioria das empresas portuguesas ainda se encontra na fase de “desenvolvimento”, e apenas algumas atingem maturidade avançada. O pilar Ambiental (“E” em ESG) avança mais depressa do que os Social e de Governança, com setores como imobiliário, energia e finanças a liderarem o caminho. Outros – sobretudo retalho e indústria – continuam atrás na integração estruturada do ESG.

Um dos dados mais reveladores é que menos de 30% das empresas em Portugal têm dados ESG digitalizados e auditáveis. A maioria ainda depende de sistemas manuais ou folhas de cálculo. Somando a complexidade de novas regulamentações como a CSRD e a Taxonomia Europeia, percebe-se por que tantas organizações mais pequenas se sentem sobrecarregadas.

A nossa plataforma automatiza o que antes era manual: recolhe dados de eletricidade, gás e água diretamente dos fornecedores, limpa e estrutura-os segundo padrões europeus de reporte e converte-os em informação fiável, pronta para decisões. Assim, ajudamos as empresas a evoluir de relatórios ESG estáticos para gestão contínua de desempenho ambiental.

A verdade é que a maturidade ESG em Portugal está a crescer, mas falta o passo da digitalização. Quando as empresas tiverem sistemas e dados que lhes permitam agir com confiança, a sustentabilidade deixará de ser um peso e passará a ser uma vantagem competitiva.

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