Recentemente, num manifesto, mais de dois mil cientistas incluindo o ministro da Ciência – que assinou na qualidade de investigador – solicitaram, entre outras reivindicações, “financiamento consistente e transparente“, “menos burocracia” e “contratação de investigadores baseada no mérito”.

Os proponentes consideram que a legislação de estímulo ao emprego científico “gerou muita arbitrariedade e injustiça“, ao “promover critérios de elegibilidade que têm a ver sobretudo com questões administrativas“, e não com o mérito científico dos candidatos.

Ao acompanhar esta discussão, não se pode deixar de reflectir sobre algumas questões relevantes.

A primeira, o espanto de vermos um Ministro usar a sua qualidade de investigador para contestar a política do ministério que tutela. É até difícil de conceber. Um Ministro faz o que julga correcto para resolver os problemas com que se depara ou no mínimo faz o possível com os meios de que dispõe, ou então não se sente capaz de resolver os problemas e só tem uma saída, a sua. Agora subscrever um documento contra si próprio…

A segunda, o quanto custa vermos, há tantos anos e repetidamente, pessoas qualificadas e conhecedoras do processo de financiamento da ciência em Portugal questionarem-no, dizendo-o inconsistente e opaco, impregnado de burocracia e onde investigadores/projectos são financiados por critérios que não o mérito. Tal é muitíssimo grave, e fica a sensação de que muitos projectos fracos e muitos investigadores sem grande mérito são financiados em detrimento de outros cujos trabalhos de investigação são ou poderiam ser importantes para si próprios, para as instituições e para Portugal.

Muitas vezes a discussão e Portugal é sobre a % do PIB que é afecta à Investigação e Desenvolvimento, o que é relevante pois se recorrentemente investimos menos que os nossos concorrentes dificilmente conseguiremos competir com eles. Mas há uma importante discussão a montante, a da qualidade desse investimento. Se investimos menos e ainda por cima investimos pior, então é que a nossa competitividade está mesmo em risco.

Recentemente entre outros do mesmo teor li um artigo de Pedro Bicudo, Professor do Instituto Superior Técnico, que não conheço mas cujas opiniões parecem de alguém conhecedor do sistema de financiamento, não só em Portugal como noutros países, em especial na Alemanha onde a transmissão de tecnologia entre as universidades e as empresas é muito forte. Diz ele que lá “muitos dos melhores alunos optam por fazer um doutoramento para terem a oportunidade de realizar um trabalho perfeito e profundo, e fazerem avançar a universidade, mas depois vão trabalhar em empresas. Isto porque todos os doutorados, até mesmo em áreas mais abstractas – Matemática e Física – são úteis nas empresas”, enquanto que “em Portugal, os programas doutorais que supostamente seriam “de qualidade” são mal seleccionados por existirem falhas graves nos critérios, nos procedimentos e nos júris”. Diz ainda que em Portugal critérios com requisitos permissivos e júris por vezes constituído por apenas um jurado! e nem sempre conhecedor do que avalia! distribuem por programas doutorais dezenas de milhões de euros. Ou seja, que por cá é grande a arbitrariedade na atribuição de bolsas, ao contrario da Alemanha, “onde os júris são muito rigorosos e consistentes a tomar as suas decisões”.

Outra questão relevante referida é a dos doutoramentos nas empresas. Na Alemanha “um professor que realize trabalho tecnológico ou de consultoria relevante para alguma empresa pode receber dessa empresa até um milhão de euros por ano sem perder o seu vínculo com a universidade”. Não é necessário ser-se grande conhecedor do mundo empresarial e da essência humana para perceber o quanto uma medida como esta atrai os melhores investigadores para as melhores empresas, potenciando a investigação de qualidade e a inovação empresarial.

Não sendo especialista na matéria, conheço um pouco da realidade das nossas empresas e das nossas universidades para perceber o quão é importante é, para as universidades, empresas e para o país fazer-se investigação de qualidade e conseguir-se uma maior simbiose entre a investigação universitária e o mundo empresarial.

E, neste como noutros sectores da nossa vida colectiva, ficamos com a sensação que o nosso maior problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como o gastamos. A atribuição do financiamento tem de ser altamente rigorosa. A realidade demonstra que não é boa solução o Estado ter organismos centralizadores a decidirem, em concursos altamente burocráticos, sobre a atribuição de bolsas de doutoramento. Talvez fosse inteligente descentralizar o processo, dando o Estado poder às suas boas universidades e bons laboratórios para que estes decidissem onde aplicar o dinheiro disponível.

Creio ainda importante que os investigadores, na sua maioria altamente qualificados, vejam as empresas como um adequado veículo para o desenvolvimento das suas ideias e projectos. Até porque, sendo actualmente elevada a procura por profissionais qualificados, talvez seja tempo de investigadores procurarem emprego em empresas que valorizem a sua investigação enquanto âncora de inovação e competitividade. E, se não encontrarem o que procuram em empresas existentes, o tempo actual é também bom para criarem uma empresa à sua medida com apoio de investidores, como sejam os business angels e/ou sociedades de capital de risco. Quem sabe não encontram no mercado o que até agora veem procurando apenas no Estado.

Nota: Este artigo segue a antiga ortografia por vontade expressa do seu autor.

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Sobre o autor

Ricardo Luz

Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores e Membro do Risk Finance Advisory Group for Horizon 2020 da Comissão Europeia. Foi administrador executivo da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) entre 2015 e 2017. Foi board member da EBAN, a The European Trade Association for Business Angels, Seed Funds, and other Early Stage Market em Bruxelas, entre 2014 e 2016. Foi co-fundador, em 2007, da FNABA, a Federação Nacional de... Ler Mais