São felizmente cada vez menos as empresas bem sucedidas que hoje não têm preocupações de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e que não procuram quer ter um impacto cada vez mais positivo na comunidade em que se inserem, quer diminuir/compensar o impacto negativo (ambiental ou de outra ordem) que a sua atividade possa causar.

E a pressão para que assim seja tende a aumentar. Por exemplo, a Diretiva sobre o reporte de informação não financeira, recentemente transposta em Portugal, exige que determinadas empresas passem a elaborar e divulgar uma “demonstração não financeira” que contenha informação bastante para a compreensão da evolução, do desempenho, da posição e do impacto das atividades da empresa em causa, referentes, no mínimo, às questões ambientais e sociais, aos trabalhadores, à igualdade de género, à não discriminação, ao respeito dos direitos humanos, ao combate à corrupção e às tentativas de suborno.

Por sua vez, os investidores institucionais consideram crescentemente as práticas de RSC da organização, antes de realizar um investimento. E já não é só a análise de retorno proporcionada pelos fundos de investimentos socialmente responsáveis (SRI – Socially Responsible Investments) que demonstra a existência de uma relação entre RSC e o valor das empresas.

No início deste ano, Laurence Fink, CEO e fundador da BlackRock (o maior fundo de investimento do mundo) escreveu uma “carta aberta” às empresas, na qual transmite que “Society is demanding that companies, both public and private, serve a social purpose. To prosper over time, every company must not only deliver financial performance, but also show how it makes a positive contribution to society. Companies must benefit all of their stakeholders, including shareholders, employees, customers, and the communities in which they operate.”

A mensagem subliminar, que todos compreenderam, é a de que a BlackRock deixará de investir em empresas que não demonstrem servir, também, um propósito social e dar um contributo positivo para a sociedade, numa lógica multi-stakeholder. Esta carta aberta foi uma “pedrada no charco” na matéria em causa, da qual se esperam consequências substanciais.

Tudo isto significa que é essencial que os gestores e altos quadros do mundo empresarial conheçam e compreendam a importância de dar atenção a temas que excedem, em muito, “a criação de valor acionista” e saibam definir e implementar uma estratégia de RSC alinhada com o seu core business.

Estranhamente, porém, podemos dizer que, em regra, não se ensina RSC nas universidades, o que significa que os futuros quadros das empresas não saem do mundo académico para o mundo empresarial, minimamente preparados para muito daquilo que deles será exigido, se quiserem dar um contributo verdadeiramente positivo para a sustentabilidade da sua organização. No atual sistema de ensino superior, um engenheiro tem de aprender matemática, um jurista tem de aprender direito das obrigações, um médico tem de aprender anatomia e por aí fora. Nenhum deles tem necessariamente de ter, nem sequer uma vaga ideia, do significado de RSC, sustentabilidade ambiental, objetivos do desenvolvimento sustentável, Pacto Global das Nações Unidas, Pacote Europeu sobre a Economia Circular…

Consciente desta realidade –  e, sobretudo, da importância de a alterar – o GRACE lançou, há já quatro anos, um projeto denominado Uni.Network que tem, essencialmente, os seguintes objetivos: (i) sensibilizar o mundo académico para as boas práticas de RSC e de Empreendedorismo Social, (ii) promover a aproximação entre as Instituições de Ensino Superior (IES) portuguesas na temática da RSC e (iii) fomentar a aproximação entre o mundo empresarial e as IES, de forma a haver maior convergência entre a saída dos jovens do mundo académico e entrada na vida laboral.

O facto de o Uni.Network contar hoje com a participação de 28 IES, de Norte a Sul do País, não deixa de constituir um sinal de esperança. Tão forte, quanto a consciência de que há muito por fazer para que os objetivos nesta matéria sejam atingidos

*Em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

Comentários

Sobre o autor

Margarida Couto

Margarida Couto é licenciada em Direito e pós-graduada em Estudos Europeus, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lisboa. Integra a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida & Associados (VdA) desde 1988, sendo a sócia que lidera a área... Ler Mais