O desenvolvimento da vida na terra, assente na teoria da evolução social, concretizou-se através da diversificação das estruturas e do próprio ser humano. Esta (hipotética) evolução estancou, abruptamente, pela pandemia que vivemos e pelo confinamento social a que estamos sujeitos.

Encontramo-nos em processo de adaptação, interior e exterior. Interior, pelas novas rotinas, com os nossos órgãos, processos fisiológicos e mentais a reajustarem-se às limitações e à pressão psicológica. Exterior, relativamente ao meio ambiente em que passamos a viver (em casa), limitados na nossa mobilidade, privados da componente laboral que envolve os relacionamentos interpessoais e a combinação das funções individuais e coletivas.

A teoria da evolução social não previa o atual cenário que o mundo atravessa. Ao longo das últimas décadas alinhámo-nos às tecnologias e subjugámo-nos às modas, fomos seduzidos pela fama e pelo dinheiro, mas não fomos preparados, nem educados, para nos adaptarmos à ausência e à limitação.

O conceito de que só damos valor a “algo” depois de se perder esse “algo”, pode encaixar-se no ambiente que presentemente enfrentamos: a liberdade de movimentos, o afeto, a cultura (enquanto povo)…

A continuidade da vida social está a ser assegurada pelos órgãos do Estado, pela operacionalidade dos sistemas de saúde e segurança, pela reformulação das respostas das organizações, das escolas, das universidades e dos serviços públicos e privados. Sabemos que as leis, as normas e as regras continuam em vigor. São elas, inclusivamente, que nos asseguram alguma normalidade (dentro do imprevisível e anormal cenário).

Há uma significativa franja da sociedade portuguesa que já percebeu que o futuro individual e coletivo, dependerá da mudança de comportamentos. Afinal sobrevivemos sem jogos de futebol, sem concertos, sem a última versão do carro “x” da marca “y”, sem as últimas tendências da moda, sem as socialites e outras futilidades que, outrora, eram uma prioridade.

Hoje percebemos (ainda mais) a importância da família, da prática de hábitos alimentares saudáveis, do valor da saúde e dos sistemas de saúde, da prevenção e promoção de estilos de vida que conjuguem o trabalho, o lazer, a partilha e a entreajuda.

Quando isto acalmar e a sociedade começar a retomar a sua rotina, devemos indemnizar o ser humano pela remoção, neutralização e violação dos nossos próprios direitos. Sendo a sociedade composta por cada um de nós, devemos obrigar-nos, por uma questão de sobrevivência coletiva, a concretizar uma efetiva alteração de hábitos, compensando e restituindo o equilíbrio perdido nas relações pessoais e no respeito pela natureza.

Está na altura de aplicarmos na nossa vida, nas organizações onde trabalhamos, nas instituições a que pertencemos, o direito primitivo. Impõe-se reformular os rituais de vida e de ação. Não precisamos de sanções sociais ou legais. Necessitamos de ser mais autocríticos, mais responsáveis, mais exigentes pelo todo que integramos, mais humanos, mais conscientes e garantir que o futuro seja uma realidade (e não a palavra que agora nos surge distorcida).


João Caldeira Heitor é licenciado em Português/Inglês pelo Instituto Jean Piaget, tem um doutoramento em Turismo pela Universidade de Lisboa, é mestre em Educação e Administração Escolar pela Universidade de Évora e pós-graduado em Gestão de Bibliotecas Escolares, pelo Instituto Superior de Línguas Aplicadas.

Paralelamente é investigador colaborador do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CiTUR Leiria). Além das diversas publicações efetuadas também é orador em vários congressos nacionais e internacionais. Ao longo do seu percurso profissional desenvolveu atividades de docência em diversas instituições de ensino superior. Atualmente é o secretário-geral do Instituto Superior de Gestão (ISG).

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