O meu último artigo gerou diversos tipos de ondas. As já clássicas ondas de simpatia, muitas das quais dos amigos que gostam de nós como somos, escrevamos nós as maiores baboseiras, e as dos críticos.

OK. Há outro tipo de ondas, umas das quais aprendi a gostar e que se revelam nos haters que, na maior parte das vezes ao abrigo do anonimato, me fazem pensar na pobreza daquelas vidas que pouco ou nada produzem, exceto…. Ódio. Há também nesta última onda os bots que são a nova inteligência artificial e que me faz dirigir a minha “simpatia” para os seus criadores.

Relativamente às críticas construtivas, entendo que devo partir delas para alguns esclarecimentos. Obviamente que no meu artigo anterior havia uma componente económica substancial. Defendendo, como defendo, que os mercados abertos têm proporcionado evidências de um ciclo virtuoso de ganhos económicos, ambição e vontade de crescer e desenvolver as aptidões de cada um, o pior que pode acontecer a uma pessoa e a um povo é o conceito de “não-valer-a-pena”. Essa é a prerrogativa que tem vindo a ser a base para a fuga de muitos cidadãos do Mundo para outros países que esperam que a sua energia (que é muita), aliada ao fator mérito e reconhecimento do trabalho, satisfaça a necessidade que esses países recebedores de imigrantes têm de manter a sua economia oleada (do lado da produção e do consumo).

A questão fundamental é que o menor desenvolvimento dos países já por mim referido (e quero focar-me por interesse intelectual próprio nos países que conquistaram a sua independência de Portugal no século XX) é muito culpa dos portugueses. E de outros cidadãos dos países que melhor estão nos rankings do desenvolvimento.

Apresento dois exemplos gritantes para justificar a minha tese: a proteção da agricultura nacional e europeia através de uma Política Agrícola Comum que teve uma despesa anual em 2018 de cerca de 59 mil milhões de euros, representando cerca de 27% de um orçamento total de 218 milhares de milhões de euros. E tendo noção que dos 59 mil milhões atrás referidos, justificados na sua quase plenitude pelo conceito de segurança alimentar, 42 mil milhões representam apoio direto aos agricultores, podemos dizer que os preços pagos pelos consumidores são direta e indiretamente subsidiados por estes e que esta é, na atualidade, a grande barreira à exportação por parte dos países que, em condições já estudadas nas unidades curriculares que lecionei no ISG – Instituto Superior de Gestão – só conseguiriam ter uma revolução industrial depois de uma revolução agrícola (que permitiria a acumulação de capital por parte dos agricultores e fundiários).

O segundo exemplo que gostaria de referir reflete mais um caso de brain drain, aplicado, neste caso, ao rei-futebol. Se virmos por exemplo a representação da Seleção Nacional nos jogos que nos conduziram à vitória na recém-criada Liga das Nações (jogos da fase de apuramento e da fase final) verificamos que dos 28 jogadores utilizados, nove nasceram num outro país. No Mundial de 2018, onde esta análise foi mais detalhada pela comunicação social[1], Portugal foi o 5.º país com mais jogadores estrangeiros, atrás de Marrocos (123.º na lista do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano), Senegal (164.º no IDH), sendo que estes dois países basicamente têm nas suas formações jogadores nascidos na grande maioria em França e na Holanda e, por fim, Suíça, com o seu melting pot  de nacionalidades nascido da sua famosa neutralidade.

A curiosidade de Portugal é que tanto tem jogadores nascidos em países europeus, no Brasil e, onde quero chegar, em Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau. A minha referência a esta situação é que quer a Federação Portuguesa de Futebol quer os clubes que contratam os jogadores, não só não parecem querer preocupar-se com a retirada de jogadores das opções das Federações dos países de origem dos jogadores, como parecem alimentar todo um modelo de afastamento dos jogadores, encarando como um incómodo um jogador africano ser chamado a representar as cores da sua seleção. Há casos recentes, bastante conhecidos, principalmente com jogadores cabo-verdianos e guineenses. Sugestão: promover o brain gain dos congéneres da nossa FPF sobre as outras federações e promover mecanismos de reforço da consciência de responsabilidade pessoal dos atletas, para além das simpáticas ações que, de tempos a tempos, ocorrem, e que reforçam as minhas convicções.

Depois de ter relido o discurso de João Miguel Tavares num pequeno livro[2] que traz o seu discurso de 10 de junho último, juntamente com outros textos e entrevistas que geriram, de alguma forma, as polémicas subsequentes aquele, dou por mim a concordar com a componente de integração bi-direcional entre cidadãos – não são só os outros que têm o dever de se integrar no nosso modo de vida, mas sou eu, e outros como eu, que têm a vantagem de poder enriquecer este caldo de cultura em que habitamos, com culturas terceiras.

A propósito do trabalho sugerido relativamente à utilização do crioulo na Academia Portuguesa, e aos críticos da mesma, trago, de memória uma situação em que uma comitiva de alto nível da Universidade Lusófona foi convidada a desenvolver um trabalho integrado, nas escolas do Luxemburgo onde os filhos dos portugueses que lá chegavam eram (e julgo que ainda são) avaliados e empurrados para três ou quatro anos para trás face ao ano de escolaridade onde estavam em Portugal, pelas lacunas, óbvias, entre outras, de falta de conhecimento da língua Luxemburguesa (Lëtzebuergesch).

A ideia, na altura, seria apoiar a criação de um modelo que permitisse uma adaptação progressiva e que não criasse nas crianças e jovens um estigma que os prejudica, na escola e na vida. Pois… a ideia não passou no Parlamento Luxemburguês. Sem o oficializar, a ideia que ficou foi de que os portugueses, que representam cerca de 15% da população residente no Luxemburgo deviam continuar a fazer aquilo que faziam e fazem tão bem…. É ler a descrição de João Miguel Tavares sobre os cabo-verdianos, e fazer as devidas adaptações. Dizem-me que o Luxemburgo de hoje já não é igual ao de há 10 anos. Fica a estória. Se alguém tiver novos factos, que me os reencaminhe, por favor.

E por aqui fico. Boas férias a quem as pode tirar.

[1] Ver por exemplo https://www.euronews.com/2018/06/15/which-world-cup-teams-include-the-most-foreign-born-players-
[2] Tavares, João Miguel (2019); Dêem-nos Alguma Coisa em Que Acreditar – O discurso do 10 de Junho e outros textos; Edição Cinco Um Zero.


* Professor convidado do ISG – Instituto Superior de Gestão, em cursos de licenciatura e mestrado, Carlos Vieira é  licenciado em Administração e Gestão de Empresas, pela Universidade Católica Portuguesa (1996) e doutorando em Business Administration no ISCTE – IUL. Fez uma pós-graduação em Gestão e Organização Industrial, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (2000), e frequentou o mestrado em Gestão, no ISG – Instituto Superior de Gestão (2009), só com conclusão da parte curricular.

Profissionalmente, pertenceu aos quadros Price Waterhouse e de uma associada; integrou os quadros da Vodafone Telecel, tendo desempenhado as funções de Manager no departamento de Planeamento e Controlo Financeiro; desempenhou atividade docente no ISCAD-Instituto Superior de Ciências da Administração e na ULHT-Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias; pertenceu aos quadros da Media Capital, como diretor de Contabilidade e diretor de Tesouraria do Grupo; foi administrador do Grupo Unisla; e ainda administrador do Grupo Ensinus.

A este percurso junta-se, ainda, entre março 2013 e junho 2018, os cargos de vice-presidente do Sporting Clube de Portugal, com o pelouro financeiro (e desde março de 2017 também com o pelouro do património), e de administrador da Sporting Clube de Portugal-Futebol, SAD. Além disso, é vice-presidente da ANESPO -Associação Nacional de Escolas Profissionais e membro da direção da CNEF- Confederação Nacional da Educação e Formação. Assume também a presidência do Conselho de Fundadores da FLAV-Fundação Luís António Verney e é membro da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados.

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