Opinião
Onde está o teu brio, Portugal?
Há palavras que parecem ter perdido o seu lugar no nosso vocabulário. Brio é uma delas. Sinto no país uma inquietação, um cansaço e uma descrença que não podemos normalizar. Portugal não pode resignar-se. Precisa de recuperar o seu brio.
Há palavras que parecem ter perdido o seu lugar no nosso vocabulário. Brio é uma delas.
Brio é algo que se expressa naquilo que fazemos: no esforço e na qualidade que colocamos no nosso trabalho, no respeito pela palavra dada, na forma como tratamos os outros, cuidamos do espaço que partilhamos ou como procuramos fazer bem, mesmo quando seria mais fácil fazer apenas o suficiente.
Tenho dado por mim a pensar nesta palavra e no que ela representa.
Quando olho hoje para Portugal, pressinto uma inquietação geral: um cansaço que atravessa gerações, uma descrença presente nas conversas do dia a dia e uma distância crescente entre aquilo que sabemos ser capazes de fazer individualmente e aquilo que acreditamos conseguir construir coletivamente. Alguma coisa parece ter-se desgastado no nosso brio coletivo.
E, no entanto, Portugal não é um país sem talento, capacidade ou futuro. Vejo conhecimento, criatividade, iniciativa e inúmeros exemplos de dedicação e excelência. Somos hoje, em muitos aspetos, um país mais qualificado, mais aberto e mais preparado do que alguma vez fomos.
Este desgaste do nosso brio coletivo não aconteceu num momento preciso. Os estados de espírito constroem-se pela acumulação de experiências, expectativas e desilusões. Trabalhamos, esforçamo-nos, suportamos impostos e um custo de vida elevados face aos rendimentos que auferimos, enfrentamos serviços que demasiadas vezes respondem tarde ou mal, burocracias que consomem tempo e energia e problemas que discutimos há anos sem conseguir resolver. A isto juntam-se desigualdades sociais e de oportunidades que persistem e uma perceção de impunidade quando determinados comportamentos parecem não ter consequências ou quando as regras parecem não ser iguais para todos. Tudo isto corrói a confiança de que o esforço, a responsabilidade e o cumprimento das regras valem a pena.
Para muitas pessoas, a vida parece avançar menos do que o esforço realizado justificaria. E esse desfasamento entre esforço e recompensa, entre expectativa e realidade, resulta num desgaste que não é apenas económico, é acima de tudo emocional.
É nesse terreno que surgem expressões bem conhecidas: “é assim”, “não vale a pena”, “isto nunca muda”. Não são necessariamente palavras de revolta; são, muitas vezes, palavras de resignação. E a resignação é mais perigosa do que a revolta, porque a revolta ainda incorpora energia e vontade de mudar. A resignação começa quando deixamos de acreditar que a mudança está ao nosso alcance.
É aqui que a fasquia desce: um atraso torna-se habitual, um mau serviço deixa de surpreender, uma falta de cuidado passa despercebida, uma responsabilidade dilui-se. Tornamo-nos tolerantes perante aquilo que não funciona e começamos a aceitar como normal aquilo que não deveria sê-lo. Uma sociedade perde o brio quando deixa de se incomodar.
Uma sociedade com brio não é necessariamente uma sociedade perfeita, mas é exigente consigo própria, em que fazer bem tem valor, o esforço é respeitado, a competência conta, as regras são para todos e os erros têm consequências. Uma sociedade que não aceita a desigualdade como fatalidade, a impunidade como hábito ou a mediocridade como inevitabilidade cultural. E que conserva a ambição elementar de deixar à geração seguinte um país melhor do que aquele que recebeu.
Por isso, talvez os países comecem a empobrecer muito antes de empobrecerem economicamente. Empobrecem quando a competência deixa de inspirar e a mediocridade deixa de incomodar. É assim que se perde confiança. E a confiança é um dos patrimónios invisíveis mais importantes de qualquer sociedade: confiança de que o esforço pode compensar, de que as regras valem para todos, de que as instituições existem para servir, de que o mérito não é irrelevante, de que não vale tudo para vencer e de que os nossos filhos poderão encontrar um país onde faça sentido construir a sua vida. Quando essa confiança enfraquece, não perdemos apenas otimismo, perdemos energia coletiva.
Não escrevo estas linhas por pessimismo. Continuo a acreditar – apesar de sentir, confesso, também algum cansaço e frustração – que os estados de espírito mudam. Mas importa distinguir otimismo de esperança. O otimismo acredita que as coisas acabarão por correr bem; a esperança acredita que vale a pena trabalhar para que corram melhor. É dessa esperança que precisamos: uma esperança que não espere apenas por outros governos, circunstâncias ou tempos, mas que parta de cada um de nós.
Recuperar o brio, se aceitarmos que parte dele se perdeu, exige instituições que funcionem, regras que sejam cumpridas, responsabilidades que tenham consequências e oportunidades que não dependam excessivamente do ponto de partida. Mas exige também que façamos a nossa parte: na educação que damos aos nossos filhos, na forma como trabalhamos, no cuidado com aquilo que é de todos e na exigência que colocamos primeiro em nós próprios.
Portugal não está condenado ao declínio, como também não está destinado ao sucesso. O futuro constrói-se através daquilo que, enquanto sociedade, premiamos, toleramos, exigimos e recusamos. E talvez tenhamos tolerado demais algumas coisas durante demasiado tempo.
É este o espírito que procurarei trazer para os próximos artigos: refletir sobre o país que somos e, sobretudo, sobre aquele que ainda podemos ser. Não para procurar culpados ou apresentar soluções milagrosas para problemas complexos – que não as tenho –, mas para questionar o que fomos aceitando como inevitável e contribuir, sem alinhamentos partidários, para uma conversa sobre o nosso futuro.
Portugal precisa de voltar a acreditar que fazer bem vale a pena, que cumprir vale a pena e que exigir mais e melhor vale a pena.
Não pode resignar-se. Precisa de recuperar o seu brio.








