Obama defende uma nova geração de líderes assente na ética, nos valores e no respeito pelos outros

Foto: @Nuno Ramos | Game Changers

Na sexta edição do Game Changers Forum, o antigo presidente dos Estados Unidos defendeu uma nova geração de líderes, capaz de conciliar inovação, responsabilidade e valores democráticos.

Barack Obama subiu ao palco de uma MEO Arena perante mais de 10 mil pessoas. O antigo presidente dos EUA veio falar de liderança e resiliência e deixou uma mensagem clara: num mundo em mudança acelerada, “precisamos de mais líderes jovens porque os líderes velhos não sabem como usar o telemóvel”.

Orador principal na sexta edição do Game Changers Forum, em Lisboa, Obama sublinhou a importância de incutir “ética, valores, regras e respeito pelos outros” às novas gerações de líderes. Um trabalho que desenvolve não só na Fundação Obama, mas agora também através do Centro Presidencial Barack Obama, inaugurado em junho em Chicago, reforçou.

“O mundo está mais pequeno e mais rápido. Historicamente, quando há grande disrupções, as pessoas sentem-se inseguras”, recordou o antigo presidente, que partilhou o palco com Ricardo Parreira, fundador e ex-CEO da PHC Software, no papel de moderador. E deixou o alerta: “Nessas alturas, as pessoas tendem a cair no radicalismo, no sectarismo”.

Obama lembrou que a democracia é um regime muito recente se pensarmos na História da Humanidade. E que por isso é tão importante reafirmá-la e defendê-la.

“O radical na democracia é que todos são iguais aos olhos da lei. Todos temos votos, todos temos dignidade”.

“A tecnologia avança rapidamente, mas os governos e as sociedades mudam lentamente”.

Em Lisboa, Obama começou por recordar que quando esteve na Casa Branca se rodeou de lusodescendentes e enumerou: “O meu diretor político, o meu secretário da Energia, o fotógrafo”, referindo-se a David Simas, Ernest Moniz e Pete Souza. E, “mais importante”, disse, com um sorriso, os dois cães de água portugueses – Bo e Sunny.

Questionado sobre o que os líderes têm de perceber agora para garantir que a tecnologia, sobretudo a Inteligência Artificial, gera mais oportunidades do que cria desigualdades, Obama sublinhou que a mudança da IA “vai dar-se em dez anos, e não em 30 ou 50”. O perigo disso é que “a tecnologia avança rapidamente, mas os governos e as sociedades mudam lentamente”.

Perante este cenário, afirmou que “temos de criar um conjunto de regras para garantir a segurança” de todos. E para tal, é preciso começar pelos dois países mais poderosos do mundo: os EUA e a China. Uma tarefa difícil, sobretudo devido à “desconfiança” entre Washington e Pequim. Mas Obama não tem dúvidas: “temos de encontrar maneira de coordenar a regulação” entre EUA e China.

Olhando para os seus dois mandatos presidenciais, Obama recordou alguns dos momentos em que teve de tomar decisões difíceis. Um deles foi quando acabou por não ordenar um ataque à Síria mesmo depois de ter afirmado que o uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad ultrapassaria uma “linha vermelha”.

“Quando era presidente, a maior parte das decisões que tomei não era óbvias. E tomei decisões que não foram as melhores para mim, politicamente, mas eram as melhores para o país”. Quanto à Síria, recordou que “nos EUA o presidente não pode iniciar uma guerra sem aprovação do Congresso”. A alusão ao presente não escapou ao público, que de novo recebeu as palavras de Obama com aplausos.

O  antigo presidente falou ainda da IA e do facto de termos máquinas e algoritmos a tomar decisões em vez de humanos. “Pessoalmente acho que devíamos viver num mundo sem armas nucleares. Mas enquanto isso não acontece, não podemos ter uma máquina a decidir sobre lançar uma bomba nuclear. Tem de ser uma decisão humana e não só de uma pessoa, de várias”, garantiu, insistindo que há ocasiões em que nenhuma tecnologia pode superar o discernimento e a capacidade de decisão humanas.

Obama fez história em 2008 ao tornar-se no primeiro afro-americano eleito presidente dos EUA. Natural do Havai, cresceu aos cuidados da mãe e dos avós maternos, tendo também vivido parte da infância na Indonésia, para onde a mãe se mudou com o segundo marido. O seu percurso académico ficou marcado pela distinção de ter sido o primeiro negro a presidir à Harvard Law Review, prestigiada revista jurídica da Universidade de Harvard.

Licenciado em Direito, conheceu Michelle Obama, com quem viria a casar, durante um estágio num escritório de advogados em Chicago, onde esta desempenhava funções de orientadora. A carreira política ganhou forma em 1996, quando foi eleito para o Senado estadual do Illinois. Oito anos mais tarde, em 2004, alcançou notoriedade nacional com um discurso na Convenção Nacional Democrata, que oficializou a candidatura de John Kerry à presidência dos EUA, numa disputa contra George W. Bush.

Ainda em 2004, conquistou um lugar no Senado federal, em representação do Illinois. Quatro anos depois, avançou para a corrida à Casa Branca, numa campanha marcada pela sua capacidade de comunicação, pelo apelo à esperança e pelo slogan Yes We Can («Sim, podemos»). Depois de superar Hillary Clinton, antiga primeira-dama e senadora por Nova Iorque, nas primárias do Partido Democrata, venceu o senador republicano John McCain nas eleições presidenciais de novembro de 2008, protagonizando um momento histórico na política norte-americana.

 

 

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