Entrevista/ “O que impede as empresas de escalar a IA é a falta de talento híbrido”

Hugo Balseiro, Consult Partner da Kyndryl

“Globalmente, 95% das organizações já investem em inteligência artificial, mas apenas 54% reportam retorno positivo, sinal de que, apesar do entusiasmo, a maturidade tecnológica ainda é desigual”, revela Hugo Balseiro, Consult Partner da Kyndryl, que considera que existe falta de “talento híbrido”, ou seja, profissionais que combinem literacia tecnológica, pensamento crítico e visão de negócio.

A inteligência artificial (IA) está a transformar rapidamente o mundo dos negócios, mas muitas empresas ainda enfrentam desafios para tirar o máximo proveito desta tecnologia. De acordo com o Kyndryl Readiness Report 2025, apenas 29% das organizações consideram as suas equipas realmente preparadas para a IA e 62% dos projetos ainda se encontram em fase piloto.

Em entrevista ao Link to Leaders, Hugo Balseiro, Consult Partner da Kyndryl, explica como as empresas portuguesas e globais podem ultrapassar barreiras tecnológicas, modernizar infraestruturas, requalificar equipas e gerar valor real a partir da inovação digital.

O Kyndryl Readiness Report 2025 recolheu respostas de 3.700 líderes empresariais de 21 países. Que tendências ou diferenças se notam entre geografias? Há dados específicos sobre Portugal?

O relatório não apresenta dados individualizados sobre Portugal, uma vez que o país está incluído na market unit da Ibéria. Ainda assim, as tendências globais refletem de forma bastante fiel a realidade nacional. Globalmente, 95% das organizações já investem em inteligência artificial, mas apenas 54% reportam retorno positivo, sinal de que, apesar do entusiasmo, a maturidade tecnológica ainda é desigual. Os mercados mais avançados, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha, evoluem mais rapidamente para além da fase piloto, enquanto os países do sul da Europa, incluindo Portugal, adotam uma postura mais prudente e concentram-se em aplicações específicas, sobretudo na área da segurança.

O estudo evidencia também que as organizações enfrentam uma pressão crescente para modernizar infraestruturas, escalar a inovação, requalificar equipas e gerir riscos num contexto regulatório e geopolítico cada vez mais fragmentado. Cerca de 65% das empresas já ajustaram as suas estratégias de cloud devido a essas pressões, com destaque para a Europa, onde se observa uma tendência clara para a repatriação de dados e a preferência por fornecedores locais, reflexo das preocupações com a soberania digital.

Outro desafio relevante é a preparação da força de trabalho. Embora 91% das empresas europeias promovam programas de aprendizagem contínua, quase metade dos CEOs (48%) considera que a cultura organizacional ainda trava a inovação. A urgência em requalificar as equipas para acompanhar a transformação impulsionada pela IA é evidente, até porque apenas 29% dos líderes acreditam que as suas forças de trabalho estão verdadeiramente prontas para essa mudança.

“Muitas empresas estão a obter ganhos iniciais com projetos-piloto, mas ainda não conseguiram integrar a inteligência artificial de forma estruturada nos seus processos críticos”.

O estudo mostra que 54% das empresas já obtêm retorno positivo com IA, mas 62% ainda estão em fase piloto. O que explica esta diferença?

Esta diferença explica-se sobretudo pela distância entre a experimentação e a adoção em escala. Muitas empresas estão a obter ganhos iniciais com projetos-piloto, mas ainda não conseguiram integrar a inteligência artificial de forma estruturada nos seus processos críticos. O relatório identifica três fatores principais para esse desfasamento.

Em primeiro lugar, a maioria das organizações utiliza os pilotos como fase de validação de casos de uso antes de avançar para investimentos em larga escala, e apenas uma parte conseguiu industrializar essas iniciativas e medir impacto real. Em segundo lugar, persistem barreiras organizacionais significativas: a complexidade tecnológica associada a infraestruturas legadas e ambientes híbridos, a falta de talento especializado e a resistência cultural à mudança continuam a travar a transição do piloto para produção. Por fim, há uma forte pressão para demonstrar retorno rápido, o que leva muitas empresas a privilegiar ganhos imediatos em detrimento de uma adoção mais estruturada e estratégica. As que reportam ROI positivo distinguem-se precisamente por terem uma estratégia clara, alinhamento entre TI e negócio e métricas bem definidas para avaliar resultados.

Que setores estão mais avançados na adoção de IA e quais estão a ficar para trás?

Os setores financeiro, da saúde e do retalho lideram a adoção da inteligência artificial. No primeiro, a tecnologia é usada sobretudo para deteção de fraude, análise preditiva e automação de processos; na saúde, apoia o diagnóstico assistido e a gestão de dados clínicos; e no retalho, potencia a personalização da experiência do cliente e a otimização da cadeia logística. Já a indústria transformadora, o setor público e a educação avançam mais lentamente, travados pela complexidade de integração tecnológica, restrições orçamentais e resistência cultural à mudança.

Quais são atualmente as áreas que mais valor geram? A cibersegurança continua a ser o foco principal?

A cibersegurança continua a ser a principal prioridade, com 82% das organizações a reportarem interrupções relacionadas com ciberataques no último ano. É também o caso de uso mais comum para a inteligência artificial, usada para deteção e resposta em tempo real. Outras áreas que estão a gerar elevado valor incluem a modernização das infraestruturas, com investimentos em cloud híbrida e automação para reforçar a resiliência, e a análise avançada de dados e IA aplicada, que já demonstram retorno positivo em setores como o financeiro e o retalho. A gestão de dados e o compliance ganham igualmente relevância, impulsionados pela crescente pressão regulatória e geopolítica.

Como é que a crescente complexidade regulatória (dados, IA, cloud, etc.) está a influenciar as decisões das empresas?

A crescente complexidade regulatória está a redefinir as estratégias tecnológicas das empresas. Normas como o RGPD e as leis de soberania digital estão a impulsionar uma revisão profunda das estratégias de cloud, 65% das organizações já ajustaram a sua abordagem, com tendência para a repatriação de dados e preferência por fornecedores alinhados com requisitos legais. A conformidade e o governo dos dados tornaram-se áreas estratégicas, exigindo investimentos em auditorias automatizadas e monitorização contínua. Em paralelo, a regulação da IA impõe novas obrigações éticas e de transparência, levando muitas empresas a manter projetos em fase piloto para mitigar riscos. No conjunto, este contexto está a deslocar as decisões tecnológicas para um eixo centrado na segurança, conformidade e soberania, tão determinante hoje como o custo ou a inovação.

“(…) é essencial desenvolver o talento, requalificando as equipas para IA e cloud, e promover uma cultura adaptativa”.

Que recomendações a Kyndryl faz às empresas que querem ultrapassar estas barreiras tecnológicas?

A Kyndryl recomenda uma abordagem integrada, começando pela modernização das infraestruturas através de arquiteturas híbridas e automação para ganhar resiliência e suportar a IA. É crucial reforçar a segurança, utilizando a própria IA para deteção em tempo real e garantindo um governo de dados robusto para compliance. Paralelamente, é essencial desenvolver o talento, requalificando as equipas para IA e cloud, e promover uma cultura adaptativa. Para garantir o sucesso, a tecnologia deve alinhar-se ao negócio com métricas de ROI claras e, por fim, é vital escalar a inovação estrategicamente, industrializando projetos de IA para evitar a “fadiga de pilotos” e priorizando casos de uso de alto impacto.

A repatriação de dados e a migração para clouds privadas são soluções sustentáveis ou apenas reações de curto prazo?

Estas estratégias, frequentemente respostas táticas à pressão regulatória e aos riscos geopolíticos para garantir a soberania digital, não são soluções definitivas. A sua sustentabilidade a longo prazo depende da sua integração numa arquitetura tecnológica coerente. A repatriação e a cloud privada tornam-se sustentáveis apenas quando evoluem para modelos híbridos e multicloud, suportados por automação e governo robusto. A chave está em usar esta abordagem para conciliar a conformidade e a segurança com a flexibilidade operacional e a inovação.

Apenas 29% das empresas consideram as suas equipas preparadas para a IA. Que competências estão em falta?

As principais lacunas de competências para a IA são abrangentes. Além da falta de conhecimentos técnicos (como desenvolvimento de IA, gestão de dados e cibersegurança aplicada a modelos), existem falhas críticas em competências analíticas (interpretar resultados e avaliar riscos ou enviesamentos éticos) e de negócio (alinhamento estratégico focado em ROI e gestão da mudança). Em síntese, o que impede as empresas de escalar a IA é a falta de “talento híbrido” – profissionais que combinem literacia tecnológica, pensamento crítico e visão de negócio.

Como podem as empresas equilibrar a necessidade de requalificar equipas com a pressão por resultados rápidos?

A solução passa por adotar uma abordagem integrada que combine formação prática, aprendizagem contínua e apoio da liderança. Programas modulares, orientados para competências críticas como IA, cloud ou cibersegurança, permitem às equipas aplicar imediatamente o conhecimento sem comprometer a produtividade. A integração de microlearning, mentoria interna e plataformas digitais acelera a curva de aprendizagem no próprio fluxo de trabalho. A automação de tarefas complexas libera tempo para a formação e reforça a evolução das equipas. É essencial que a liderança defina KPIs claros e comunique os benefícios diretos da requalificação, promovendo uma cultura de adaptação e inovação onde novas competências são valorizadas e rapidamente aplicadas.

“A transformação exige uma cultura aberta à mudança e uma liderança alinhada com objetivos estratégicos claros”.

O relatório menciona barreiras culturais e processos de decisão lentos. Como pode a liderança acelerar esta transformação?

A transformação exige uma cultura aberta à mudança e uma liderança alinhada com objetivos estratégicos claros. Comunicar uma visão partilhada, simplificar estruturas de decisão e capacitar líderes intermédios acelera a implementação de projetos e reduz burocracia. Equipas multidisciplinares, metodologias ágeis e uma cultura de experimentação fortalecem colaboração e inovação, permitindo ajustes rápidos sem penalizar falhas. Medir resultados com KPIs claros e celebrar conquistas reforça a confiança e mantém o ritmo da transformação. Empresas com maior capacidade de adaptação cultural registam melhor retorno sobre investimentos em IA e maior agilidade na tomada de decisão.

O relatório identifica um grupo de empresas mais avançadas – os “Pacesetters”. O que as distingue das restantes?

Os Pacesetters destacam-se por transformar a inovação em valor de negócio, combinando cultura adaptativa, liderança alinhada e decisões orientadas por dados. Investem na modernização de infraestruturas e na formação contínua das suas equipas, criando talentos híbridos com competências técnicas e visão estratégica. Utilizam metodologias ágeis e tecnologias de automação para acelerar a execução e escalar soluções, evitando a “fadiga de pilotos” e garantindo que provas de conceito se convertam em resultados concretos. Esta integração de cultura, processos, talento e tecnologia permite-lhes gerir riscos com eficácia e maximizar o retorno dos investimentos em inovação.

Há boas práticas destas empresas que possam servir de modelo para o mercado português?

Sim. Os Pacesetters demonstram que alinhar os investimentos tecnológicos com os objetivos de negócio e apostar no desenvolvimento contínuo das pessoas é determinante para transformar inovação em valor real. Empresas em Portugal podem beneficiar desta abordagem, integrando tecnologia, cultura de aprendizagem e estratégia organizacional para ganhar agilidade, reduzir riscos e maximizar resultados, mesmo perante desafios regulatórios e escassez de talento especializado.

“O modelo de “Agentic AI Framework” atua como acelerador operacional, facilitando a integração da IA nos processos das empresas”.

Como está a Kyndryl a apoiar os seus clientes nesta transição para uma adoção mais estratégica e sustentável da IA?

A Kyndryl apoia os seus clientes através de serviços empresariais críticos e de uma abordagem consultiva que ajuda a transformar pilotos em projetos de larga escala. O modelo de “Agentic AI Framework” atua como acelerador operacional, facilitando a integração da IA nos processos das empresas. A Kyndryl oferece também soluções de modernização de IT, cibersegurança, cloud, governança de dados e integração de IA, bem como workshops e projetos de curta duração que permitem testar e aplicar as recomendações do relatório.

Quais são as principais tendências tecnológicas identificadas pela Kyndryl para os próximos dois anos?

As prioridades para os próximos dois anos passam pela modernização das infraestruturas de IT, com adoção crescente de arquiteturas cloud híbridas e multicloud, e pela consolidação de estratégias de inteligência artificial como motor estratégico, tanto para análise de dados como para cibersegurança em tempo real. A cibersegurança manter-se-á como uma preocupação central, acompanhada do reforço das competências das equipas, da automação inteligente de processos críticos e da implementação de práticas sólidas de governança, risco e conformidade. Estes fatores serão determinantes para aumentar a resiliência, a eficiência operacional e a competitividade das empresas, tendo sempre em conta a regulação e a sustentabilidade tecnológica

Comentários

Artigos Relacionados