Opinião

Um dos mais influentes autores mundiais e teórico sobre questões relacionadas com a gestão, Peter Drucker, disse uma vez que a grande diferença entre gerir e liderar residia no facto de gerir ser o fazer as coisas da forma certa, enquanto liderar seria fazer as coisas certas.

A nuance parece irrisória, mas tem em si uma enorme diferença de fundo quanto ao que podemos dessa citação inferir. É comummente sabido que um bom chefe nem sempre é um bom líder. Podemos até dizer que em muitos aspetos as management theories acabam por penalizar fortemente a posição do ‘simples’ chefe por oposição às alvíssaras que cantam àqueles que ascendem a uma classificação de líder, como se de seres iluminados se tratassem.

Ora, segundo Drucker, chefiar ou gerir é fazer as coisas de forma certa. Mas então porque é que isso acaba por ter uma carga tão negativa ou depreciativa a nível do mercado profissional? Se alguém segue regras, procedimentos, manuais e instruções, fazendo as coisas da forma que foi considerada por tantos como sendo a adequada ou correta, qual a razão pela qual a conotação acaba por ser tão negativa? Talvez seja, simplesmente, pela colocação da liderança nas antípodas da gestão. Justo?

Se liderar é fazer as coisas certas, a implicação negativa de gerir será no sentido de se presumir que a gestão faz de forma certa as coisas erradas. Mas isso é um contrasenso pois fazer algo errado de forma certa é em si mesmo um anacronismo de difícil resolução. E por outro lado, o líder faz as coisas certas. A questão é, certas aos olhos de quem? Dele? De terceiros que o influenciam? Quantos líderes tivemos ao longo da História que fizeram tudo menos coisas certas? Alguém questionou por momentos que seriam líderes?

Inexistindo assim verdades absolutas em qualquer das definições porquanto um chefe também fará coisas certas de forma errada, ou coisas erradas de forma certa, enquanto um líder pode fazer tanto coisas certas como erradas consoante o ou os interlocutores, muitas vezes até variando essa noção em função do contexto histórico, social ou geográfico, ficamos assim num vazio que impede a distrinça exata entre gerir e liderar.

Penso que é aqui que devem sempre entrar os axiomas máximos da razão e emoção (se é que se pode alguma vez assumir algum destes conceitos como um verdade axioma). A razão leva a uma gestão racional, a uma liderança racional, baseada em factos, experiência, repetição de ações, previsibilidade de resultados. A emoção, por outro lado, leva a todos os inversos da razão, à gestão emocional, à liderança emotiva, ao sentimento, ao instinto, inovação ou disrupção e total incapacidade de antecipar produtos finais. Qual é certa? As duas, sempre. Umas vezes mais uma, outras vezes mais outra, mas sempre simbióticas e unidas.

Talvez a grande diferença entre gerir e liderar seja então a forma como sabemos conciliar estas diferentes realidades. Um gestor irá racionalmente adoptar uma determinada postura racional perante uma situação, fazendo então as coisas de “forma certa”, isto é, mensurável por experiências semelhantes. Por outro lado um líder irá conduzir-se para o resultado certo, emocionalmente considerado, em detrimento de qualquer pensamento mais racional quanto ao processo e sendo influenciado fortemente pelo seu contexto e envolvência.

Não há verdadeiramente um certo ou errado pois as teorias dos multiversos não têm ainda aplicação demonstrada. Uma ação é melhor que outra? Não sabemos. Uma decisão diferente teria melhores resultados? Não sabemos. Sabemos apenas o que vemos. E ao fim do dia nunca nos podemos esquecer que o mercado profissional é acima de tudo um local de percepções. O poder real vem daí. A gestão correta ou a liderança eficaz advém mais vezes do que os outros percepcionam do que efetivamente do mérito intrínseco daquelas. Por isso, cada um deve aprimorar-se, sim, mas sempre respeitando o seu âmago, sendo verdadeiro consigo nas decisões que toma. Isso para mim é um bom gestor e um bom líder.

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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