Futurista dinamarquês alerta para os riscos de uma Europa espectadora na era da IA
Bugge Holm Hansen alertou no BOOST 2026 que a Europa está a perder capacidade de definir o seu próprio futuro, ao deixar que narrativas tecnológicas externas condicionem as decisões sobre inteligência artificial, inovação e desenvolvimento económico.
Bugge Holm Hansen, futurista e diretor de Futuros Tecnológicos e Inovação no Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS), lançou um alerta crítico no BOOST 2026: o futuro não é um destino inevitável, mas um território em disputa. Uma das mensagens centrais da sua intervenção incidiu na necessidade urgente de a Europa deixar de ser uma espectadora passiva para passar a desenhar os seus próprios futuros possíveis, alinhados com os seus valores sociais, culturais e democráticos.
Hansen iniciou a sua intervenção estabelecendo uma distinção crucial entre as metáforas de risco tradicionais: os “cisnes negros” (eventos raros e imprevisíveis) e os “elefantes negros” (problemas óbvios e visíveis que todos ignoram) e um conceito mais contemporâneo e insidioso, como as alforrecas, pequenas e aparentemente inofensivas. Estas representam fenómenos que julgamos conhecer e controlar, mas que possuem uma complexidade oculta e uma capacidade de escalada rápida que habitualmente subestimamos.
Tal como pequenas alforrecas podem paralisar uma central nuclear ao entupirem os sistemas de arrefecimento, a Inteligência Artificial pode desencadear disruções sistémicas massivas por via de efeitos de rede que ainda não compreendemos totalmente.
Enquanto responsável pelo CIFS Horizon 3 AI Lab e membro de vários conselhos científicos e tecnológicos europeus, Hansen contextualizou o seu olhar a partir da investigação em futuros, inovação e políticas públicas. Defendeu que a grande questão já não é se a inteligência artificial vai transformar os setores económicos, mas como essa transformação está a ser conduzida e por quem. “Estamos a deixar que outros desenhem os nossos futuros”, alertou, referindo-se à influência dominante de narrativas tecnológicas vindas dos Estados Unidos e da China.
A este propósito relatou um exercício feito com estudantes, em que quase todas as visões de futuro apresentadas eram associadas a figuras ou empresas como Elon Musk, Google ou Microsoft. Para o futurista, esta dependência narrativa limita a capacidade europeia de imaginar alternativas próprias e de construir modelos tecnológicos alinhados com os seus valores. “Quem controla a narrativa controla o futuro”, avisou, defendendo que a Europa tem vindo sistematicamente a adiar esta discussão estratégica.
No setor do turismo, tema central do BOOST 2026, Hansen descreveu um paradoxo. Por um lado, os dados apontam para crescimento sustentado na próxima década, impulsionado sobretudo por populações mais envelhecidas e com maior rendimento disponível. Por outro, este crescimento agrava tensões sociais nas cidades, onde os mais jovens enfrentam maiores dificuldades no acesso à habitação, ao emprego e à estabilidade económica. “O que é bom para o turismo nem sempre é bom para a cidade”, resumiu.
A crítica estendeu-se aos modelos de inovação dominantes, ainda excessivamente focados no curto prazo. Planos a quatro ou dez anos continuam, na prática, a reproduzir pensamento incremental, pouco preparado para cenários de rutura. Hansen defendeu a adoção de metodologias de foresight, como o modelo dos três horizontes, que distingue entre inovação imediata, transição e futuros transformadores. “Estamos a investir demasiado no presente e quase nada em validar futuros alternativos”, afirmou.
Como a IA está a transformar a confiança
Sobre a inteligência artificial, rejeitou leituras simplistas centradas apenas na eficiência ou na substituição de tarefas. Para Hansen, a IA já está a alterar profundamente a forma como confiamos, decidimos e interpretamos o mundo. Exemplificou com situações quotidianas em que os utilizadores passam a confiar mais em aplicações e algoritmos do que em recomendações humanas, um fenómeno com implicações diretas para o turismo, os media e a relação entre consumidores e marcas.
A questão da confiança foi, aliás, uma das mais enfatizadas. Hansen alertou para a erosão da credibilidade nos media de viagens, frequentemente associados a conteúdos patrocinados ou pouco transparentes, num contexto em que os novos sistemas de IA tendem a intermediar cada vez mais o acesso à informação. “Quem controla a narrativa controla o futuro”, afirmou, defendendo que esta é uma discussão estratégica que a Europa tem vindo a adiar.
Na reta final, o futurista recorreu a uma metáfora simbólica: a ponte construída para resistir às cheias, mas que se tornou inútil quando o rio mudou de curso. Para Hansen, é exatamente isso que está a acontecer em vários setores, incluindo o turismo. “Estamos a construir soluções perfeitas para um cenário que já está a desaparecer”, concluiu.
A sua mensagem deixou claro que o desafio não é prever o futuro, mas desenvolver capacidade coletiva para imaginar, questionar e escolher entre diferentes futuros possíveis. Num contexto de elevada incerteza, a pergunta decisiva deixa de ser “como fazemos melhor o que já fazemos” e passa a ser “como continuamos relevantes quando o rio muda de direção”.








