Entrevista/ “Fool’s Gold”

Hugo Vaz de Oliveira, Head of Media & Corporate Relations Beta-i

A Pirite (ou Pirita) é famosa por ser o chamado “Ouro dos tolos” ou “Ouro dos pobres”, muito graças à sua forte semelhança visual com o ouro genuíno, e ao facto de haver sempre muitas pessoas prontas a alimentar essa confusão com frequência, obviamente para proveito próprio.

Esta metáfora tem aqui lugar devido à recente eleição de Boris Johnson, que superou de forma expressiva o rival Jeremy Hunt na votação interna do Partido Conservador e assim sucede a Theresa May na liderança do Governo britânico. “Cumprir o Brexit, unir o País e derrotar Corbyn” são as grandes linhas condutoras do ex-ministro e ex-mayor de Londres, reveladas num discurso que foi mais um exercício vago, dominado por lugares comuns e promessas populistas.

Sim, e isso connosco? A verdade é que os candidatos com este tipo de perfil, celebrados pelos que escolhem ver nas suas gaffes e polémicos soundbites um político autêntico e sem medo de correr riscos, em vez do tonto que diz o que lhe apetece, começam a ser os vencedores “normais” em vários quadrantes e contextos políticos. Na verdade, Boris acaba por não inventar nada agora, como Trump, Bolsonaro, Duterte, Orbán ou Salvini não tinham inventado antes, mas a novidade é o facto de serem agora levados a sério.

A verdade é que, numa sociedade que cada vez mais celebra a forma face ao conteúdo, e onde o parecer é mais impactante do que o ser, este tipo de líderes se sente como peixe na água. E isso implica outro tipo de raciocínio, até na forma como pensamos e organizamos a Economia, por exemplo.

É um facto, nunca houve tantos turistas em Portugal. Depois de um ligeiro abrandamento no final de 2018, as receitas do turismo voltaram a crescer 9,6% em Abril, para 331,5 milhões de euros, muito à boleia dos espanhóis e da Páscoa. De acordo com dados do Diário de Notícias, em 2019, devem abrir 65 novos hotéis, 23 dos quais em Lisboa e 17 no Norte. Mas será isto fruto de uma tendência sustentada, ou estamos ainda sujeitos a fatores de moda, sempre aleatórios?

Olhando para o universo das fintech e das plataformas digitais de serviços, é óbvio que existe uma oportunidade para países como Portugal se posicionarem para permitir a experimentação controlada destas tecnologias, especialmente no contexto maior da transformação digital dos bancos e do sistema financeiro. O paradigma industrial anterior, em que apenas éramos competitivos por causa do baixo custo da mão de obra, parece algo do passado, e a economia digital oferece-nos uma oportunidade muito interessante de posicionamento, com maior geração de riqueza, por assentar em trabalho mais qualificado.

Mas para que os esforços de empresas como a James, a Attentive.us, a Sparkl, a InfraSpeak, a DashDash, a Visor.ai ou a Landing Jobs não se revelem tentativas fugazes e condenadas ao insucesso de ótimos empreendedores com azar no país de implantação ou péssimo timing, importa que o restante ecossistema de inovação se revele também à altura, desde os investidores institucionais e corporativos às plataformas de aceleração e incubação. Mais do que vender o sonho, e cavalgar a onda, começa a ser tempo de construir em cima destas oportunidades, criando pilares sólidos de crescimento, assentes em métricas reais. Para não estarmos também aqui sujeitos a fatores de moda…

Encerrando a metáfora, Boris Johnson revê-se em Churchill, e nunca se esquece citar o Velho Leão para fazer lembrar aos seus correligionários que a velha nação imperial de que se orgulham ainda existe. Encara o Brexit como Winston olhou para o “Blitz” alemão, e isso num país ainda desnorteado face a um cenário para o qual ninguém estava preparado, acaba por ter impacto. Mas o Ouro verdadeiro aguenta altas temperaturas e é ótimo condutor de energia, a Pirite nem tanto, e a diferença acaba por notar-se!

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