Opinião

Empregabilidade em modo “duplo eixo”

Pedro Rocha e Silva, Managing-Diretor da LLH | DBM Portugal

Falar de empregabilidade hoje é falar de reinícios. Não apenas de novos empregos, mas de novas versões de nós mesmos.

Em transições de carreira – especialmente em outplacement – repete‑se um padrão: quem combina competências digitais sólidas com soft skills bem trabalhadas não só encontra novo lugar no mercado, como muitas vezes reencontra um sentido mais profundo para a sua vida profissional.

As competências digitais tornaram‑se um verdadeiro passaporte profissional. Já não é apenas “saber usar o computador”, é conseguir trabalhar, decidir e liderar num ambiente em que tudo passa por plataformas, dados e colaboração online. Em outplacement isto é muito visível: o profissional que domina bem LinkedIn, ferramentas de videoconferência, partilha de ficheiros, gestão de projetos digitais ou mesmo IA generativa aumenta a sua visibilidade, prepara melhor entrevistas e reposiciona a carreira com outra velocidade e alcance.

Pense no exemplo de um diretor que, durante anos, delegou tudo o que fosse “digital” e que, num processo de transição, decide aprender a fundo a usar dashboards, ferramentas colaborativas e automação. O ideal seria que já estivesse preparado, mas em poucos meses, não se tornará apenas mais empregável: torna‑se mais estratégico e mais preparado para liderar equipas e negócios num contexto tecnológico em permanente mudança.

Ao lado deste eixo digital, e quando o cargo desaparece e a identidade profissional é colocada em causa, as soft skills são o que sustenta a confiança nas transições.

Entre as soft skills mais críticas destacam‑se a autoliderança (gerir emoções, foco e energia em momentos de incerteza), a adaptabilidade (abrir‑se a novos setores, funções, modelos híbridos ou projetos), a comunicação e influência (transmitir confiança a recrutadores, pares e redes) e a colaboração (usar grupos de programas de outplacement como espaço de apoio e aprendizagem, e não de comparação ou culpa).

É na interseção destes dois eixos que surge o líder em “T”. A barra vertical é a especialização – finanças, marketing, operações, RH, tecnologia. A barra horizontal representa a combinação entre competências digitais e soft skills que permite atravessar contextos, liderar em ambientes complexos e transformar tecnologia em valor humano e de negócio. A diretora que lê dados em tempo real, mas reserva tempo para conversar com a equipa; o gestor que domina plataformas digitais, mas não abdica de conversas difíceis cara a cara; o líder em transição que usa IA para preparar candidaturas, mas investe em escuta, redes e propósito – estes são os perfis que o mercado mais procura.

Construir este duplo eixo é uma estratégia de carreira, não um curso de fim de semana. Em contexto de outplacement ou de desenvolvimento de liderança, um bom ponto de partida é escolher conscientemente uma competência digital e uma soft skill para trabalhar em cada fase, usar os desafios reais como laboratório e pedir feedback frequente. No fim, o que sustenta a empregabilidade não é apenas aquilo que sabemos fazer, mas a forma como escolhemos crescer, liderar e aprender em cada transição. É aí que competências digitais e soft skills se tornam, juntos, o verdadeiro motor da empregabilidade moderna.


Pedro Rocha e Silva é atualmente o Managing Director da LHH|DBM Portugal. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas, pelo ISCTE, iniciou a sua carreira na Andersen Consulting, tendo mais tarde passado por empresas como a Watson Wyatt, Portugal Telecom, Heidrick&Struggles e Neves de Almeida HR Consulting.

Desenvolveu maioritariamente a sua carreira na área de Recursos Humanos, com uma experiência relevante nas temáticas de Executive Search, Talent Assessment, Leadership Advisory, Políticas de Remuneração, Modelos de Avaliação de Desempenho e Carreiras, estando atualmente dedicado às áreas do Outplacement e de Preparação para a Reforma.

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