Entrevista/ “É a sustentabilidade que vai guiar toda a inovação dos próximos anos”
Recém instalada em Portugal, a brasileira Avatim tem planos ambiciosos. A marca brasileira de produtos de beleza espera abrir mais cinco unidades na Europa, em 2024. A revelação é de Mônica Burgos, sócia fundadora da Avatim.
A empresa brasileira de cosméticos e perfumaria inspirada na biodiversidade tem 21 anos de história no Brasil e escolheu Portugal para ser o primeiro país a receber a marca fora do seu país de origem e dar o pontapé de saída na estratégia de internacionalização. A aposta no mercado português prevê vários pontos de venda em Lisboa, representando um investimento de aproximadamente 1 milhão de euros.
A proximidade cultural que une os dois países fizeram com que Portugal fosse a escolha óbvia para alavancar o negócio, bem como “a forte presença da comunidade brasileira em Portugal, que já conhece e utiliza os produtos da marca, e pode ajudar neste processo de implementação”, explicou Mônica Burgos, sócia-fundadora da marca.
O que motivou a Avatim a avançar para o mercado português? É uma porta de entrada no mercado europeu?
Portugal foi a nossa escolha pela proximidade cultural que existe entre os dois países e por considerarmos que é uma porta de entrada para a Europa. Além disso, como já existe uma forte presença da comunidade brasileira em Portugal, seria fácil passar o testemunho da qualidade da nossa marca para os portugueses.
“Com a abertura de mais cinco lojas na Europa para o próximo ano, prevemos, pelo menos, criar mais 25 postos de trabalho”.
Quais os planos para o projeto Avatim em Portugal?
No primeiro semestre deste ano abrimos o Office Avatim que funciona como um ponto de captação e apoio a revendedores da marca em Portugal, além de poder comercializar os produtos para o consumidor final. Mas agora que inauguramos oficialmente a nossa primeira loja, que fica no Centro Comercial Saldanha Residence, em Lisboa, o próximo passo será abrir, ainda este ano, um novo ponto de venda em Lisboa.
Ao juntarmos todas estas operações, teremos investido um total de aproximadamente 1 milhão de euros. Nas unidades que abrimos este ano, criámos 10 postos de trabalho. Mas para além disso, potenciamos honorários para cerca de 40 revendedores, já registados em Portugal, entre Lisboa e Porto. Com a abertura de mais cinco lojas na Europa para o próximo ano, prevemos, pelo menos, criar mais 25 postos de trabalho.
Já sabem como é ser empreendedor no Brasil. Que expetativas têm quanto a empreender em Portugal?
Percebemos que estamos numa fase mais madura e a nossa experiência permite-nos dar passos mais firmes e seguros. Mas empreender na Europa trouxe-nos alguns desafios, nomeadamente a necessidade de adequação cultural e compreensão dos anseios daquele público. Vamos manter o nosso foco em transmitir, de forma clara, os conceitos e valores da Avatim tendo sempre o consumidor como o centro de todas as nossas ações.
Afirmaram ter-se inspirado na biodiversidade brasileira para lançar os vossos produtos. É isso que os distingue da concorrência?
Sim. A palavra Avatim vem do tupi-guarani e significa “cheiros da terra”, o que representa a nossa forte ligação com as nossas raízes e a nossa cultura e remete à terra de onde vêm os elementos que tanto enriquecem os nossos produtos. Somos inspirados pela biodiversidade brasileira no desenvolvimento dos mais de 400 produtos que temos no portefólio atual, para além de outras medidas que nos distinguem, nomeadamente a não testagem de produtos em animais, a oferta de um portefólio 90% vegano e sem parabenos e a utilização de embalagens PET com tecnologia biodegradável.
De que forma, transportam para a vossa estratégia empresarial os valores de sustentabilidade, de boas práticas laborais e de mobilização social?
A procura pela sustentabilidade sempre esteve presente no posicionamento estratégico da marca. Além da redução do uso de plásticos em todo o processo produtivo, procuramos garantir a rastreabilidade dos ativos que utilizamos, e ampliámos a nossa oferta de produtos veganos – que hoje representa mais de 90% do nosso portefólio – e neutralizamos toda a emissão de carbono através do projeto Green Farm CO2 Free. Nenhum dos nossos produtos é testado em animais ou possui parabenos e adaptamos constantemente as nossas embalagens pet com tecnologia biodegradável. O nosso objetivo é reduzir os impactos ambientais e contribuir para fazer do nosso planeta justamente o que a Avatim transmite: um refúgio de boas sensações, para esta e para as gerações que estão por vir.
Qual o impacto da transformação digital no vosso negócio?
Atualmente a transformação digital chega a muitos processos dentro da empresa, seja na forma de comunicar, de desenvolver o produto ou até na forma de vender. A transformação digital veio ditar alguns ajustes na nossa linguagem e possibilitar novas maneiras de distribuirmos o produto, fazendo com que ele chegue a mais lugares. Mesmo entendendo a crescente procura por canais de vendas online, somos muito cautelosos nesse aspeto. A nossa loja e os nossos produtos são muito sensoriais e valorizamos a experiência e o contato pessoal com os clientes e parceiros. Então, por enquanto, focamo-nos mais nos meios digitais para nos comunicarmos e partilharmos os nossos valores com o público.
“(…) para 2024, temos a expetativa de abrir mais 50 unidades, cinco delas na Europa”.
Além de Portugal, que outros mercados são o alvo da vossa estratégia de internacionalização?
Atualmente, a Avatim tem 250 lojas no Brasil e uma rede com mais de 3 mil revendedores e distribuidores. Portugal vai contar, para já, com três pontos de venda e no total, para 2024, temos a expetativa de abrir mais 50 unidades, cinco delas na Europa.
Quem são as pessoas por trás deste projeto empresarial? Qual o vosso percurso profissional e o que os motivou a lançarem-se nesta aventura?
Atrás deste projeto estamos eu e o Cesar Fávero. O Cesar é paranaense, mas mudou-se para a Bahia há quase 30 anos, depois de abandonar uma carreira estável no Banco do Brasil. É licenciado em Marketing pelo que rapidamente viu potencial nos produtos que eu vendia e fizemos um upgrade na apresentação dos mesmos. Na altura, eu estava à procura de uma mudança na minha vida e decidi abandonar a minha carreira de oito anos enquanto advogada em Itabuna, no Sul da Bahia, e fui para o Rio de Janeiro à procura de uma formação na área da moda.
Como autodidata que sou, procurei aprofundar os estudos na área do marketing olfativo e entender como os aromas podiam representar uma marca e fidelizar os clientes. Quando regressei à Bahia, comecei por vender porta a porta, aromatizadores artesanais comprados numa empresa localizada em Teresópolis, no Rio de Janeiro, e ao assistir a isto tudo e como ele diz “ao meu potencial”, o Cesar convidou-me para criarmos juntos uma empresa no ramo olfativo. Assim, em 2002, nasceu a Avatim.
“A experiência que adquirimos ao logo destes 20 anos, entre alguns tropeços e muitos acertos, tornou-nos mais cautelosos e fiéis ao planeamento estratégico da empresa”.
É fácil ser empreendedor nesta área de atividade? Que erros gostaria de ter evitado?
Não é fácil dizer-se que se é empreendedor. Mas, desde o início, a Avatim apostou em escutar com atenção os seus consumidores, antes sequer de dar o passo seguinte. O desenvolvimento dos nossos produtos sempre se baseou nos pedidos dos clientes e nas necessidades que eles nos apresentavam. Cada passo para o crescimento foi dado em função da procura. A experiência que adquirimos ao logo destes 20 anos, entre alguns tropeços e muitos acertos, tornou-nos mais cautelosos e fiéis ao planeamento estratégico da empresa.
Com um portefólio de mais de 400 produtos de bem-estar e cuidado pessoal, que argumentos vão usar para conquistar o consumidor português?
Temos como diferencial a origem 100% brasileira e inspira-se na biodiversidade do Brasil para desenvolver os nossos produtos. Esse é o nosso ponto de partida para uma aproximação cada vez mais consistente com os portugueses e europeus. Com valores sustentáveis, pretendemos trazer o melhor do Brasil para o mundo.
A Avatim é cruelty free, garante a neutralidade carbónica das suas operações, 90% do seu portfólio é vegano e utiliza embalagens PET com tecnologia biodegradável… que outras medidas ambientais pensam adotar?
Pretendemos continuar a seguir o caminho da sustentabilidade. Temos o objetivo de reduzir ainda mais os nossos resíduos e somos uma empresa que trabalha em consonância com o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Como olha para a inovação no seu setor de atividade e de que forma espera que esta contribua para um setor de cosmética, beleza e bem-estar mais amigo do ambiente?
A área de cosméticos, perfumaria e beleza é extremamente dinâmica e cheia de inovações. O nosso objetivo é acompanhar esse ritmo e seguir inovando e desenvolvendo produtos que sejam sustentáveis e que tragam benefícios reais para as pessoas.
Que tendências prevê para este setor de mercado?
A utilização de matérias-primas e a tomada de ações sustentáveis, que minimizem o impacto humano no meio ambiente, são a grande realidade para todas as empresas do setor. É a sustentabilidade que vai guiar toda a inovação dos próximos anos.
E que conselhos deixa aos jovens que queiram lançar-se na criação de um negócio próprio?
Coragem e autoconfiança.
Respostas rápidas
O maior risco: Deixar de perceber o que o mercado procura.
O maior erro: Criar uma linha inspirada na orientação religiosa.
A maior lição: Grandes empresas são feitas tijolo a tijolo. Leva tempo.
A maior conquista: A última conquista foi mesmo chegar à Europa. Mas no futuro teremos muito mais motivos para celebrar na Avatim.







