Do crescimento ao impacto: as decisões que moldam o turismo português
Entre inovação, sustentabilidade e mobilidade, traçou-se um retrato do futuro do turismo português no BOOST 2026, que este ano reuniu mais de 500 profissionais, no dia 16 de janeiro, em Lisboa. E agora, com o regresso da Fórmula 1 ao Algarve, em 2027 e 2028, e com o Mundial de Futebol de 2030 no horizonte, Portugal prepara-se para eventos que vão projetar o país globalmente. Mas o desafio foi claro: como aproveitar estas oportunidades e criar outras?
Num setor exposto a choques externos, instabilidade económica e mudanças rápidas nos comportamentos de consumo, o turismo precisa de estar preparado para vários cenários e para escolher caminhos possíveis num contexto em constante mutação. O que hoje parece uma certeza pode deixar de ser amanhã. Ainda assim, adiar decisões não é uma opção. É imperativo agir, investir e preparar o futuro, mesmo quando o quadro é incompleto.
Esta foi uma das linhas orientadoras do BOOST 2026 e que reuniu um amplo consenso entre os mais de 500 profissionais presentes no Pavilhão de Portugal, no dia 16 de janeiro, num evento organizado pelo NEST – Centro de Inovação do Turismo, sob o tema Seizing the Future.
Mais do que uma tese teórica, a mensagem atravessou várias intervenções ao longo do evento: a incerteza não pode paralisar a ação. Pelo contrário, deve funcionar como um estímulo para trabalhar, desde já, os futuros que se querem construir.
Como referiu na ocasião Roberto Antunes, diretor executivo do NEST, há fatores que escapam ao controlo direto do turismo – da inflação ao preço do petróleo, da mobilidade global à escassez de talento – e que tornam qualquer exercício de previsão necessariamente limitado. A resposta, defendeu este responsável, passa por abandonar a lógica de um único caminho e aceitar que o setor tem de ser capaz de trabalhar vários cenários em simultâneo. O modelo assente num futuro previsível e linear pertence ao passado. O presente exige flexibilidade, imaginação e capacidade de escolha. “Pensar apenas num caminho único é uma visão ultrapassada. Esse era o modelo do passado, quando acreditávamos num mundo equilibrado e previsível”, sublinhou.
É precisamente neste enquadramento que o BOOST sublinhou a importância de preparar hoje os alicerces dos futuros que se querem construir. Em vez de ficar refém do que não controla, o setor deve concentrar-se no que pode influenciar, transformando a incerteza em ação concreta. Essa preparação implica também uma clarificação de valores. Inovação, sustentabilidade e dimensão humana surgiram como princípios transversais, independentemente do rumo que o turismo venha a seguir.
Apesar do cenário volátil, há uma realidade que permanece sólida: o turismo é hoje um dos principais motores da economia portuguesa. Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal, lembrou que o setor não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para gerar prosperidade, bem-estar e impacto positivo no território. Sublinhou que as previsões de mais de 29 mil milhões de euros em receitas em 2025 reforçam esse peso estrutural, com efeitos que se estendem a múltiplas atividades económicas, e apontou como meta “crescer com valor, mais do que o volume”. E, além disso, crescer cada vez com mais equilíbrio e impacto.
Esse posicionamento encontra respaldo na atratividade estrutural do país, sustentada por fatores como a oferta de alojamento, a segurança, a capacidade de acolhimento e as ligações aéreas. A ANA, que integra desde 2013 o grupo VINCI Airports, tornou-se no maior operador privado de aeroportos do mundo, com uma rede de 72 infraestruturas distribuídas por todos os continentes. No conjunto dessa rede, circularam no último ano mais de 300 milhões de passageiros.
Neste contexto, eventos internacionais de grande escala, como o regresso da Fórmula 1 ao Algarve, em 2027 e 2028, ou o Mundial de Futebol de 2030, organizado conjuntamente por Portugal, Espanha e Marrocos, surgem como oportunidades de projeção global, mas também como testes à capacidade do país para crescer com equilíbrio. A sustentabilidade esteve no centro dessa discussão, com o Mundial 2030 a assumir o compromisso de se posicionar como o mais sustentável da história do futebol. No caso da Fórmula 1, as estimativas apontam para cerca de 200 mil pessoas por evento em 2027 e 2028, com um impacto económico que deverá ultrapassar 150 milhões de euros por ano.
A propósito da ideia de “agarrar”, ou mesmo conquistar, o futuro, aproveitando as oportunidades que vão surgindo, ou sabendo criá-las, Bugge Holm Hansen, futurista e Diretor de Futuros Tecnológicos e Inovação no Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS), deixou um alerta crítico. A Europa precisa de deixar de ser uma espectadora passiva e passar a desenhar os seus próprios futuros possíveis, alinhados com os seus valores sociais, culturais e democráticos, em vez de se deixar dominar por narrativas tecnológicas oriundas dos Estados Unidos e da China, frisou. Num contexto em que os novos sistemas de IA tendem a intermediar cada vez mais o acesso à informação, “quem controla a narrativa controla o futuro”, avisou.
Esta reflexão sobre tecnologia ganhou uma leitura complementar na intervenção de David Rowan, fundador da WIRED e orador numa palestra sobre “Turismo amanhã: Tecnologia, Tendências e Transformação”. Rowan considerou que o setor se tornou excessivamente focado na eficiência, esquecendo o impacto humano da viagem. “A tecnologia, e em particular a inteligência artificial, deve servir para reduzir fricções, simplificar processos e criar experiências mais personalizadas e memoráveis, devolvendo significado ao ato de viajar”, salientou.
Das ideias à prática. Casos de sucesso.
Essa visão ganhou expressão prática nos exemplos apresentados ao longo do evento. Os projetos da NOS, apresentados por João Marques, da equipa de inovação da empresa de telecomunicações, mostraram como a análise de dados pode apoiar decisões mais informadas, oferecendo indicadores sobre mobilidade, padrões de consumo e fluxos turísticos. A NOS, com cerca de 4 milhões de cartões ativos, gera diariamente biliões de pontos de dados, permitindo extrair mais de 20 indicadores de perfis e padrões de consumo.
Também no campo da mobilidade, a Bolt apresentou uma abordagem fortemente orientada para a experiência do utilizador, em particular nos aeroportos. Rita Santos Silva, gestora de operações da empresa, explicou como a recolha e análise de dados sobre padrões de procura, aliada à integração de informação de voos em tempo real, permite reduzir fricções no início e no fim da viagem. A aplicação possibilita o agendamento de viagens e ajusta automaticamente a disponibilidade dos motoristas em função de atrasos ou alterações nos voos, garantindo que os turistas têm transporte à chegada. Em paralelo, a Bolt tem vindo a promover opções mais sustentáveis, como as trotinetes, e está a trabalhar na integração dos transportes públicos na plataforma em Portugal, com projetos-piloto previstos para Lisboa e Porto.
A discussão sobre mobilidade alargou-se, assim, à gestão urbana e à partilha de dados como base para decisões mais informadas. Célia Aguiar, do Centro de Gestão e Inteligência Urbana de Lisboa, explicou como a cidade centraliza dados de diferentes sistemas municipais e parceiros para analisar grandes volumes de informação e compreender dinâmicas de tráfego e fluxos urbanos, recorrendo, entre outras fontes, a dados de dispositivos móveis e da EMEL.
Por sua vez, Xavier Simó, engenheiro e fundador da Inlea, trouxe o exemplo dos “super quarteirões” de Barcelona como modelo de mobilidade inteligente e integrada, sublinhando a importância de partilhar dados (não pessoais) para criar oportunidades no turismo e no entretenimento, com recurso à tecnologia. A mensagem comum foi clara: a mobilidade turística vai muito além dos veículos, envolvendo também ciclovias, zonas pedonais e espaço público, e deve ser pensada de forma integrada com áreas como a segurança, a higiene urbana e a qualidade de vida nas cidades.
A cultura surgiu como outro eixo estruturante da reflexão. Longe de ser tratada como um produto indiferenciado, foi apresentada como experiência transformadora, capaz de criar memórias duradouras e reforçar a ligação ao destino. Festivais, museus e equipamentos culturais ganham força quando integrados em ofertas estruturadas, com narrativas claras e articulação real com o turismo. Aqui, o consenso foi evidente: o digital complementa, mas não substitui a experiência presencial.
No balanço do BOOST 2026, ficou uma ideia central. O turismo não pode esperar que o futuro se esclareça para agir. Entre múltiplos cenários possíveis, cabe ao setor decidir, desde já, que valores quer sedimentar e que papel quer desempenhar no país. A incerteza mantém-se, mas as escolhas começam no presente.

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