Opinião

ALICE em dificuldades no país das oportunidades: a economia dos paradoxos

Carlos Rocha, economista e gestor

Numa das minhas recentes visitas à barbearia, enquanto aguardava a minha vez, ouvi uma conversa pública entre dois senhores que aguardavam a sua vez para serem atendidos. Por estar próximo, acabei envolvido na conversa quando um deles foi chamado e o outro ficou com a conversa pendurada.

Fui então inserido na discussão, que girava em torno do custo de vida (inflação), e as previsões sobre a evolução socio-económica nos próximos anos, especialmente para os mais vulneráveis.

Em outro cenário distante geograficamente, mas próximo financeira e emocionalmente devido à emigração, muitos norte-americanos estão também passando por dificuldades económicas e se tornando “ALICEs” (Asset Limited, Income Constrained, Employed), ou seja, pessoas com poucos bens, rendimentos limitados, mas empregadas. Quem são ALICE?

O termo ALICE descreve cidadãos que trabalham e ganham acima do nível de pobreza federal (US$ 31.200 para uma família de quatro pessoas, ou US$ 15.060 para um indivíduo), mas lutam para cobrir necessidades básicas (Fonte: United For ALICE da United Way). Ou seja, ALICE é outra face da pobreza.

Perfil das famílias ALICE:

Alguns dados estatísticos mostram que nos Estados Unidos cerca de 29% das famílias são ALICE, de acordo com a Business Insider. Na Europa, os dados da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) indicam que cerca de 1 em cada 10 trabalhadores enfrenta pobreza laboral.

Relativamente aos Estados Unidos, a maioria está no Sul, com 50% dos residentes sendo ALICE. As gerações mais novas e mais velhas (Geração Z e Boomers) são as mais afetadas. Em termos de ocupação, estão no comércio de retalho, saúde, alimentação e bebidas. Mais de 25% possuem formação superior, enquanto 17% têm menos que o ensino médio. Pouco mais de metade trabalha a tempo inteiro e 13% procuram emprego.

As consequências da situação de ALICE são sentidas a vários níveis, nomeadamente na saúde (dificuldades de acesso à alimentação adequada e serviços de saúde), na educação (rendimento familiar limitado pode prejudicar o acesso à educação de qualidade) e financeira (as famílias frequentemente endividam-se para cobrir necessidades básicas, agravando a situação).

Paradoxos:

Os trabalhadores ALICE enfrentam paradoxos: não podem beneficiar da rede de segurança alimentar dos países. A maioria possui um salário alto demais para se qualificar para assistência governamental, mas insuficiente para cobrir o custo de vida nos EUA. Eles ganham o suficiente para não receber ajuda governamental ou invalidez, mas não para pagar aluguer e cuidados de saúde.

Paradoxo 1) Em um país de oportunidades, muitos trabalhadores estão em dificuldades e não conseguem cobrir suas despesas e vivem de salário em salário (from paychek to paychek). Alguns são forçados a escolher entre a renda da casa, alimentação ou cuidados médicos.

Paradoxo 2) Enquanto houve aumentos de rendimentos, esse aumento não foi suficiente para cobrir a perda do poder de compra devido à inflação que aumentou muito mais, por exemplo na habitação. Apenas 61% dos trabalhadores a tempo inteiro ganham o suficiente para o orçamento de sobrevivência doméstico (Fonte: United For ALICE da United Way). A inflação atinge essas famílias mais duramente, e o Índice ALICE Essentials, que mede apenas despesas básicas, aumentou mais rapidamente que o Índice de preços no consumidor.

Paradoxo 3) Enquanto a percentagem de pobreza nos EUA tem diminuído, a percentagem de ALICE tem aumentado na última década, apesar dos rendimentos terem aumentado. Para se qualificarem para os programas sociais, por exemplo, as famílias devem ter um rendimento inferior a 138% do Nível de Pobreza Federal.

Ao nível macro, creio que o FED ( Banco Central dos Estado Unidos) também enfrenta o seu paradoxo ao tomar a decisão se altera ou não nas taxas de juros. A inflação ainda está acima da meta (o que leva a pensar duas vezes antes de reduzir as taxas de juros), mas a economia está abaixo do seu potencial (num cenário de soft landing, encoraja a reduzir as taxas) e o mercado de trabalho dá sinais de alguma saturação (o que poderá encorajar a reduzir as taxas).

O BCE (banco central da União Europeia) já deu o primeiro sinal, baixando os juros no início deste mês, mas não se comprometeu sobre o caminho a seguir, ou seja, as decisões futuras serão baseadas nos dados estatísticos (data driven em vez de model driven).

Conclusão:

A situação de ALICE é um desafio global que afeta milhões de trabalhadores e suas famílias e é crucial desenvolver metodologias para quantificar o problema e implementar políticas públicas eficazes para apoiar essas famílias.

São necessárias políticas públicas mais assertivas para ajudar essas pessoas a sair da pobreza, considerando as diferenças regionais e as mudanças nas proporções dos orçamentos familiares para alimentação. É preciso revisitar as definições tradicionais de pobreza e reforçar a necessidade de ações urgentes e conjuntas para superar a situação.

As empresas, governos e sociedade civil devem unir-se para buscar soluções eficazes, pois a superação da situação das famílias ALICE (e pobreza no geral) exige soluções abrangentes e multissetoriais.

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Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

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