Entrevista/ “A tecnologia não veio substituir o ensino; veio potenciá-lo”
“Apesar de existirem iniciativas relevantes e projetos inovadores na área da Educação, a articulação entre setor público, escolas, start-ups e empresas tecnológicas continua, muitas vezes, fragmentada, pontual ou pouco estruturada”, afirma Maria João Arruda, gestora da Futurália e do TECH_EDU, defendendo que “este diálogo é indispensável”.
Marcado para os dias 11, 12 e 13 de março, na FIL, em Lisboa, o TECH.EDU afirma-se como um espaço de diálogo, experimentação e capacitação num momento decisivo para o futuro da aprendizagem. Em entrevista ao Link to Leaders, Maria João Arruda, gestora da Futurália e do TECH.EDU, explica que o evento surge para colmatar a falta de articulação estruturada entre escolas, setor público, empresas tecnológicas e start-ups, sublinhando a necessidade de uma transformação digital na educação que seja inovadora, inclusiva e centrada nas pessoas.
Side event da Futurália, esta iniciativa aposta em conferências, workshops certificados, talks práticas e numa área expositiva dedicada às edtech, colocando temas como inteligência artificial, bem-estar digital, inclusão e sustentabilidade no centro da agenda educativa.
O TECH.EDU nasce como o primeiro evento nacional dedicado exclusivamente às tecnologias inovadoras para a educação. Que lacuna vem este projeto colmatar no panorama educativo português?
O TECH_EDU surge para colmatar uma lacuna evidente no panorama educativo português: a ausência de articulação estruturada entre o sector público, empresas tecnológicas, start-ups e escolas no processo de transição digital da educação.
Apesar de existirem iniciativas dispersas e investimentos pontuais, tem-se verificado a falta de um espaço comum de diálogo, colaboração e co-criação, capaz de alinhar as necessidades reais das escolas com soluções tecnológicas eficazes. É exatamente neste ponto que o evento pretende intervir.
“O TECHO TECH_EDU não surge à margem da Futurália, mas sim em continuidade com o seu legado e propósito.
O TECH_EDU acontece à margem da Futurália. O que distingue este side event e porque fazia sentido criar um espaço autónomo focado apenas na tecnologia educativa?
O TECH_EDU não surge à margem da Futurália, mas sim em continuidade com o seu legado e propósito. Ao longo de 17 edições, a Futurália tem desempenhado um papel determinante na valorização da educação e da qualificação, mobilizando jovens estudantes, recém-licenciados, pais e profissionais activos a reconhecê-las como instrumentos fundamentais para o desenvolvimento pessoal e profissional.
O TECH_EDU complementa esta missão, oferecendo um foco mais especializado e estratégico: a tecnologia educativa e a transformação digital do ensino. Se a Futurália se concentra nos percursos educativos e nas oportunidades de futuro, o TECH_EDU dedica-se às ferramentas, metodologias e soluções tecnológicas que estão a moldar o presente e o futuro da aprendizagem.
O evento dirige-se a um leque muito alargado de públicos, desde professores e diretores pedagógicos a decisores políticos e empresas tecnológicas.
Que tipo de impacto espera gerar junto destes diferentes agentes do ecossistema educativo?
Envolver todo o ecossistema educativo, pois a transformação digital da educação só é eficaz quando resulta de um esforço coletivo e coordenado entre quem decide, quem ensina, quem desenvolve tecnologia e quem a implementa no terreno.
“Queremos capacitar professores e formadores para utilizarem a tecnologia de forma crítica, intencional e alinhada com objetivos pedagógicos claros (…)”.
Um dos pilares do TECH.EDU é o encontro entre inovação, tecnologia e humanismo. Como se garante que a tecnologia é um meio para melhorar a aprendizagem e não um fim em si mesma?
Queremos capacitar professores e formadores para utilizarem a tecnologia de forma crítica, intencional e alinhada com objectivos pedagógicos claros, considerando as necessidades educativas, o contexto da escola e o desenvolvimento integral dos alunos. Desta forma, a tecnologia torna-se uma ferramenta que enriquece a experiência de aprendizagem, sem jamais substituir a relação educativa, que permanece no centro do ensino.
A inteligência artificial, incluindo a IA generativa, estará em destaque. Que desafios e oportunidades identifica na integração destas tecnologias no ensino, sobretudo em sala de aula?
Questões como o uso ético e responsável, a protecção de dados, o risco de dependência excessiva, o plágio ou a superficialidade das aprendizagens são desafios que não podem ser ignorados. Por outro lado, a inteligência artificial pode ser um aliado poderoso na personalização da aprendizagem. A IA generativa, em particular, oferece oportunidades para estimular a criatividade, a experimentação e o desenvolvimento de competências digitais e de pensamento crítico, preparando os alunos para um mundo cada vez mais tecnológico.
O verdadeiro desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade é garantir que a IA contribua para uma educação mais personalizada e inclusiva.
A capacitação dos professores é um dos grandes eixos da transição digital educativa. Que papel têm os workshops certificados e as talks práticas neste processo de mudança?
Os workshops certificados e as talks práticas desempenham um papel fundamental, pois ajudam a reduzir a distância entre tecnologia e pedagogia. São formatos que permitem aos docentes experimentar ferramentas, testar metodologias, resolver problemas concretos e sair com soluções prontas para implementar em sala de aula.
“A inovação tecnológica não se limita à adopção de ferramentas e plataformas; deve abranger aspectos como inclusão, bem-estar digital e sustentabilidade (…)”.
Além da inovação tecnológica, o programa aborda temas como inclusão, bem-estar digital e sustentabilidade. Porque é essencial que a transformação digital da educação integre estas dimensões?
Integrar estas dimensões significa reconhecer que a transformação digital não é apenas tecnológica, mas também pedagógica, ética e humana. A inovação tecnológica não se limita à adopção de ferramentas e plataformas; deve abranger aspectos como inclusão, bem-estar digital e sustentabilidade, colocando o impacto humano e social no centro das decisões.
A área de exposição assume-se como uma mostra dinâmica de soluções e criatividade pedagógica. O que podem os visitantes esperar encontrar e experimentar neste espaço?´
Os visitantes poderão encontrar empresas tecnológicas, start-ups, edtechs e projectos inovadores a apresentar ferramentas digitais, plataformas de aprendizagem, conteúdos interactivos, soluções de inteligência artificial, realidade aumentada e virtual, robótica, gamificação, gestão escolar e recursos educativos digitais. O foco está sempre na aplicabilidade prática e no impacto pedagógico.
O diálog entre diferentes atores como entre setor público, escolas, start-ups e empresas é suficiente em Portugal ou ainda há caminho a percorrer?
O TECH_EDU nasce do reconhecimento de que este diálogo é indispensável, mas ainda há um caminho significativo a percorrer. Apesar de existirem iniciativas relevantes e projetos inovadores na área da Educação, a articulação entre setor público, escolas, start-ups e empresas tecnológicas continua, muitas vezes, fragmentada, pontual ou pouco estruturada.
Durante demasiado tempo, as escolas identificaram necessidades, as empresas desenvolveram soluções, os decisores definiram políticas e as startups inovaram, mas nem sempre em conjunto ou com espaços regulares de colaboração. Isso pode resultar em investimentos pouco alinhados, tecnologias subaproveitadas ou soluções que não correspondem plenamente à realidade do terreno.
De que forma o TECH.EDU está alinhado com os planos nacionais e europeus para a transição digital da educação e que contributo concreto pode dar para a sua implementação?
O evento está plenamente alinhado com as prioridades definidas nos planos nacionais e europeus para a transição digital da educação, especialmente no que se refere à capacitação de docentes, modernização de infraestruturas, promoção de competências digitais e integração pedagógica da tecnologia. Estas orientações, presentes tanto nas estratégias governamentais portuguesas como nas iniciativas europeias de educação digital, enfatizam que a transformação não depende apenas de equipamentos, mas, sobretudo, de pessoas, metodologias e da colaboração entre os diferentes actores do ecossistema.
“Portugal tem vindo a progredir no uso de tecnologias educativas, mas ainda enfrenta desafios estruturais significativos (…)”.
Como avalia o posicionamento de Portugal no uso de tecnologias educativas face a outros países europeus? Estamos a acompanhar o ritmo ou a ficar para trás?
Portugal tem vindo a progredir no uso de tecnologias educativas, mas ainda enfrenta desafios estruturais significativos, como a desigualdade no acesso a infraestruturas entre escolas urbanas e rurais, a necessidade de formação de professores em competências digitais e a fragmentação da articulação entre escolas, sector público e empresas tecnológicas, que dificulta a implementação consistente de soluções.
Quando olha para os próximos cinco a dez anos, como imagina a escola do futuro e que papel terão eventos como o TECH.EDU nessa transformação?
A escola do futuro será um espaço híbrido, combinando aulas presenciais e digitais, metodologias ativas, aprendizagem personalizada e colaboração entre alunos, professores e comunidade. A inteligência artificial, a realidade aumentada, a gamificação e outros recursos digitais farão parte do quotidiano. Eventos como o TECH_EDU funcionam como uma ponte entre a visão estratégica e a prática diária, ajudando a transformar a inovação tecnológica em mudanças reais e duradouras no ensino.
Que mensagem gostaria de deixar aos professores, escolas e decisores que ainda olham para a digitalização da educação com alguma resistência?
A tecnologia não veio substituir o ensino; veio potenciá-lo. É essencial que a inovação digital seja vista como uma ferramenta ao serviço da pedagogia, capaz de tornar as aprendizagens mais personalizadas, inclusivas e significativas, e não como um obstáculo à prática educativa.








