Opinião

A história de um piloto de aviação que abriu uma Chocolate House em Óbidos

Rui Almeida, piloto e fundador da Chocolate House

Uma casa que foi do avô, dos pais e que agora é sua. A Chocolate House abriu portas em Óbidos na semana passada e é um projeto de Rui Almeida, piloto de aviação, que decidiu dar uma nova vida ao espaço que foi da família. Aqui, agora, respira-se chocolate, já para não falar do peso da história. Em entrevista ao Link To Leaders recorda como tudo começou.

Um exemplar do Ford T, um desenho de Mickey Mouse, a escultura de Charleston ou de Charlie Chaplin, uma mala Chanel, um ferro de engomar, um rádio ou um avião Fokker Dr.I, são alguns dos ex-líbris em chocolate que estão em exposição na Óbidos Chocolate House e que nos transportam para uma viagem aos “loucos anos 20”.

Na Rua Josefa de Óbidos vive-se e sente-se o peso da história, a de Rui Almeida, de 61 anos, que tem um percurso profissional ligado à aviação e que abriu recentemente, no espaço onde nasceu, uma casa dedicada ao chocolate

Rui Almeida esteve oito anos e meio na Força Aérea Portuguesa, depois foi para a África do Sul. Abriu empresas no Brasil, em Moçambique, na Nigéria e em Portugal. No Brasil continua a ser o presidente do Conselho de Administração da Omni Táxi Aéreo, uma empresa que criou há 20 anos e que hoje ultrapassa os mil funcionários, tem mais de 60 helicópteros e fatura 1,7 mil milhões de reais por ano. Em Portugal, criou a OHI – Omni Helicopters Internacional da qual é chairman.

A sua vida sempre foi “muito mundo”, pois passava semanas em viagem. De segunda a sexta-feira, eram poucas as vezes que ficava em Portugal, confidenciou em entrevista ao Link To Leaders. Agora, a Chocolate House, onde investiu cerca de dois milhões de euros, mobiliza a sua atenção, pelo menos até ao próximo projeto, um hotel de charme.

Há quantos anos é que existe este espaço?
Abrimos a Chocolate House no dia em que começou o Festival Internacional do Chocolate, em Óbidos. Mas a  construção desta casa data do século XI, XII. Aliás, já houve quatro reconstruções deste espaço. A última reconstrução foi em 1617. Por exemplo, há ali umas cantarias das janelas que tem a data marcada, apontando para 1617.

“No fundo, queria colaborar também com o festival e com toda esta dinâmica à volta do chocolate”.

Foi sempre da sua família?
Não. Esta casa foi comprada pelo meu avô no início do século XX, por volta de 1910, depois acabou, por acaso, por ser subdividida porque havia dois filhos. Dividiram o espaço na década de 40. Acabei por adquirir a parte dos meus primos e juntei a casa toda outra vez. Ao juntar a casa toda, a intenção era primeiro recuperá-la e depois criar aqui um espaço virado para o turismo porque Óbidos é muito turístico. Queria tentar criar também um instrumento próprio, muito ligado à tradição de Óbidos, ao chocolate. Note-se que há 20 anos que se faz o Festival Internacional do Chocolate. No fundo, queria colaborar também com o festival e com toda esta dinâmica à volta do chocolate.

E porquê uma Chocolate House?
A decoração desta casa foi toda feita à volta de Óbidos. Primeiro como elemento inspirador – por isso temos algumas paredes em pedra. Depois, uma tentativa de proporcionar um espírito moderno, de século XXI, com muito digital, com sistemas de vídeo e som também muito sofisticados. No fundo, procurei fazer esta combinação entre passado e futuro, que acho que é importante porque o passado não quer dizer que tenha que ficar congelado. As coisas têm que evoluir – mesmo mantendo o traçado histórico.

A quem se destina este espaço?
A todos, mas principalmente a quem gosta de chocolate, aos jovens que, normalmente, também são sempre grandes apreciadores de chocolate. Em Portugal o consumo de chocolate ainda está muito abaixo até da média dos outros países. Portanto há-de ser um produto que ainda vai crescer em termos de fornecimento. Queremos trabalhar o chocolate com arte. Os bombons que aqui se fazem, as tabletes… tudo é muito trabalhoso. É tudo gourmet, com uma decoração muito minuciosa…

O que é que podemos encontrar neste espaço?
O espaço abriu em colaboração com o Festival Internacional do Chocolate e, por isso, o piso de cima está reservado para as esculturas do festival. Depois de acabar o festival, o espaço vai ter mesas e cadeiras, quer na parte de cima quer na parte de baixo. O espaço está dividido numa loja e numa espécie de chocolate bar, onde se pode degustar fondue de chocolate com frutas, crepes, waffles, trufas, brownies…todas essas coisas à volta do chocolate. Pode-se experimentar ou comprar e levar, que também é o objetivo para depois entrarmos numa lógica de vendas online. A produção será feita aqui e será muito à volta de bombons.

“Quando se está na distribuição com um produto prime as pessoas também devem poder ter acesso a comprar online”.

O ecommerce é importante para vocês?
Quando se está na distribuição com um produto prime as pessoas também devem poder ter acesso a comprar online. A publicidade que se tenta fazer extravasa um pouco a dinâmica de Óbidos, por isso se pudermos também vender para fora… O objetivo é efetivamente permitir que pessoas mesmo sem virem cá possam usufruir daquilo que é fabricado aqui.

Quantas pessoas estão envolvidas na produção do chocolate?
À volta de quatro, uma que é o chefe e depois a restante equipa. Uns com mais experiência, outros com menos experiência. Temos um protocolo com a Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste, com o objetivo de fazer estágios. Também está planeado fazer workshops para um determinado produto ou para uma determinada forma de fazer chocolate.

Quais têm sido os maiores desafios para conseguir abrir uma Chocolate House?
Reconstruir casas dentro de um centro histórico é sempre muito complicado por causa da acessibilidade, das limitações. Todos os projetos têm que ser aprovados pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). A DGPC é que tem que aprovar tudo, inclusivamente, antes da Câmara Municipal local aprovar e, portanto, isso torna o processo do projeto muito complexo.

Eu coloquei o processo na câmara [Câmara Municipal de Óbidos] em 2017, ou seja, foram cinco anos desde que entreguei tudo para começar as obras. Tive uma empresa que fez todo o design interior e que foi fundamental. Com os renders 3D, eu já idealizava como isto iria ficar há cinco anos. Depois foi só materializar, ser rigoroso, obedecer muito aos projetos, não haver desvios e shortcuts, apesar de já não estar nada como estava planeado. Então foi esse o desafio desde o princípio ao fim.

Depois, e como referi, há a complexidade, que é enorme, de fazer uma obra destas dentro do centro histórico. Só para ter uma ideia: foram retirados 3500m³ de entulho, porque isto era uma casa de habitação com muitas paredes interiores.Umas foram demolidas, outras reestruturadas. Só foi possível fazer esta obra porque consegui montar uma grua aqui dentro que passava por cima da muralha as coisas para os camiões que estavam do lado de fora. Foram dois anos e um mês de obra.

Já estava ligado a este setor de atividade?
Não, nunca estive. O meu setor é o da aviação. Fui piloto da Força Aérea, estive a trabalhar no estrangeiro alguns anos e depois fundei o Grupo Omni Aviação. Sou acionista e administrador do grupo. É onde trabalho normalmente. A Chocolate House é gerida por outras pessoas. A minha filha também vai estar dedicada a este projeto. Eu continuo a estar três ou quatro dias por semana em Lisboa e só estou em Óbidos aos fins de semana. A única ligação que tenho é ser o dono da casa e o querer dar-lhe um fim digno e, de certa forma, também ter alguma coisa para me entreter quando deixar a aviação.

Como é que um piloto se interessou por este projeto?
Interessei-me principalmente pela recuperação da casa. E depois, ao recuperar a casa, queria dar um fim digno que permitisse realmente ter aqui uma coisa engraçada.

O espaço também vai ter uma vertente museológica?
O objetivo é ter exposições. Gostava de abrir com algo ligado à arqueologia para retratar efetivamente a reconstrução da casa. Fui fazendo um filme ao longo da construção, tirei fotografias todas as semanas, fui sempre atualizando e quero fazer um documentário de arqueologia com a exposição de algumas das pedras que foram encontradas. Essa era a minha intenção, abrir o espaço com essa exposição, mas com o festival de chocolate acabou por não avançar já.

Quanto já investiu no espaço?
À volta de dois milhões de euros, com a aquisição que fiz da parte da casa que pertencia aos meus primos.

Fale-nos da cascata de chocolate que tem neste espaço. Foi uma ideia sua?
Quando fizeram o render do projeto propuseram a cascata e, no fundo, acabei por cumprir o projeto que foi feito por profissionais que fazem lojas no mundo inteiro. O objetivo é simular uma fábrica, com os tubos no teto onde circula o chocolate. É como se aqui dentro houvesse o fabrico de chocolate. De x em x tempo o chocolate sai para fora, “cai no chão” e depois entra naqueles tubos que vão levar o chocolate para a parte da cozinha onde estão as torneiras de onde sai o chocolate preto, branco e de leite. É o espaço ideal para que as pessoas façam selfies. Foi tudo pensado ao detalhe, de forma a multiplicar os “likes”.

Uma frase para descrever este espaço?
Começa primeiro por preservar o património que era dos meus pais, o conseguir reunificar a casa que era do meu avô e depois dar-lhe um fim digno com um objetivo de estar atual para os próximos 50 anos. É basicamente o objetivo do espaço que está enquadrado em Óbidos, mas dentro da modernidade. Queremos efetivamente transpor a parte da Óbidos antiga, medieval, para a modernidade digital. Esse é o foco. Também vamos ter um site e vendas online.

Como é que pensa atrair as pessoas para a Chocolate House durante todo o ano e não só na altura da Feira do Chocolate?
Óbidos não está só ligada à Feira Internacional de Chocolate. Tem a Feira Medieval, o Fólio, a Vila Natal e os eventos sucedem-se, trazendo sempre milhares de pessoas. Então, basicamente, é nessa base e nesse mercado que eu me quero enquadrar, nos grandes eventos e depois no dia a dia. Antes da Covid-19, Óbidos tinha três a quatro mil visitantes por dia, mesmo sem nenhum evento. Portanto, é um destino turístico de grande peso.

Pensa na expansão geográfica?
Não. Isto é muito familiar, é o lugar onde nasci, onde o meu pai nasceu. Portanto, para mim tem todo esse peso simbólico.

É a primeira vez que está a lançar um negócio fora da aviação?
Sim. Lancei vários negócios na área da aviação, mas fora dessa área é a primeira vez que estou a estabelecer-me.

“(..) como em tudo na vida, se quiser ter um bom produto tem que rodear-se das melhores pessoas, porque senão não se conseguem atingir os objetivos, nem marcar a diferença”.

Que conselhos daria um jovem empreendedor que queira lançar um negócio?
É difícil. Neste tipo de negócio só conheço a parte do investimento até estar pronto para começar agora a vender. Por isso é que foram importantes os parceiros, as pessoas que se recrutaram, as pessoas com experiência. E isso é fundamental.

E depois, como em tudo na vida, se quiser ter um bom produto tem que rodear-se das melhores pessoas, porque senão não se conseguem atingir os objetivos, nem marcar a diferença. Um investimento destes é muito grande para um jovem. É impossível colocar-se ao nível deste investimento, mas eu acho que, como em qualquer negócio, tem que se adaptar aquilo que se vai vender ao mercado onde está inserido, porque se eu for vender bananas para a Madeira, ninguém vai comprar.

Depois disso, é tentar ser profissional, eficiente, ter muito controlo de custos, muita gestão de proximidade no dia a dia e penso que se conseguirá singrar. Mas não é fácil.

“Eu estou no fim de carreira, não estou no início, portanto não estou a fazer isto para ganhar dinheiro”.

Como vê a Chocolate House daqui a dois anos?
Vejo-a com maior atividade, e também com uma componente de vendas online já com um certo significado, o que agora não tem. Eu estou no fim de carreira, não estou no início, portanto não estou a fazer isto para ganhar dinheiro. Não é essa a minha intenção. Estou a fazer isto porque gostava de conservar a casa. Agora espero que, pelo menos, dê para pagar as contas. É esse o objetivo.

Que outros projetos gostaria de realizar?
Tenho uma outra casa em Óbidos e talvez venha a fazer um hotel de charme. Espero que esse seja o meu último projeto em Óbidos para depois ficar com estas duas unidades e passar o resto da minha velhice entre as duas.

Respostas rápidas:
Qual o maior risco? Ao ser piloto militar, lido com o risco desde os 18 anos. O risco é constante.
O maior erro: Às vezes os negócios correm mal, mas é assim. A capacidade dos empresários deve-se ver pela forma e pelas vezes que se levantam e não pelas que caem.
A maior lição: Quando já se passou por tanta coisa, como eu já passei, a maior lição é sempre ser persistente, no fundo ser resiliente. Eu tenho um lema de vida mesmo nos negócios: não há bem que sempre dure nem mal que não acabe. Quando as coisas estão bem, não se deve entrar em grandes euforias, porque se está bem só vai piorar. E quando está mal, há-de conseguir resolver e sair do problema. Humildade e encarar as coisas sempre com um pé no chão.
A maior conquista: É minha filha. O resto tudo se compra, tudo se vende.

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