A vida, nas suas várias dimensões, vai correndo seguindo as opções que fazemos. Todas, da maior à mais insignificante. Por vezes, é a última mais determinante do que a primeira! E não é sempre fácil e, por vezes, quando parecia fácil acabamos por concluir que, afinal, foi bem difícil.

Algo nos move e nos muda, muitas vezes sem entendermos, por exemplo, a minha curiosidade levou-me a gatinhar pela primeira vez na vida, diretamente e sem travões, para uma lareira onde o objeto de curiosidade estava: o fogo. Claro, queimei-me. Não me recordo, mas seguramente ficou nas minhas memórias, acumulei sabedoria. É verdade que continuo a ter uma curiosidade insaciável pelo desconhecido, mas talvez, quem sabe à conta disso, procure as minhas respostas e caminhos com um pouco mais de ponderação!

Ao optarmos, escolhemos caminhos e transformamo-nos. A escolha faz parte da nossa natureza. É única em cada indivíduo, complexa, acompanhando o nosso crescimento, sabedoria e experiências vividas. É a capacidade através da qual tomamos posição frente ao que nos aparece. Diante de um fato, podemos desejá-lo ou rejeitá-lo. Ante um pensamento, podemos afirmá-lonegá-lo ou suspender o julgamento sobre ele. Tem sempre inerente um juízo de valor, uma ética, e a coragem e determinação para agir, ou não.

A possibilidade de escolha, ou livre arbítrio, tem sido objeto de vários estudos ao longo dos tempos, designadamente por Santo Agostinho na sua obra Livre Arbítrio (De Libero Arbitrio), que tem data do ano 395, e na qual o grande filósofo elabora algumas teses a respeito da liberdade humana e aborda a origem do mal moral.

Muitas vezes a expressão livre arbítrio tem o mesmo significado que a expressão liberdade. No entanto, Santo Agostinho diferenciou claramente esses dois conceitos. O livre arbítrio é a possibilidade de escolher entre o bem e o mal e a liberdade é o bom uso do livre arbítrio.

Na escolha, está o mais profundo e indisfarçável de nós. E, provavelmente, é na mais pequena e aparentemente menos importante das nossas escolhas que mais “falamos” sobre nós pois nas grandes imperam, quase sempre, os fatores externos muitas vezes com peso superior à nossa vontade mais pura.

Se através da escolha vamos traçando o nosso caminho e mostrando quem somos, também é na escolha alheia que poderemos conhecer quem nos rodeia, grupos ou indivíduos.

Na observação dos outros, pelas suas escolhas, na atenção aos detalhes, sabemos apurar melhor a verdade, as reais intenções, melhor separando “o trigo do joio”. É um exercício difícil, mas imprescindível, em especial num mundo em que se fala em “fake news”.

O tema é complexo se pensarmos que cada uma das nossas escolhas interfere com o que nos rodeia e multiplicarmos todas as escolhas de todos. Discute-se em filosofia desde o libertinismo até ao determinismo, com implicações na responsabilização de cada um pelos seus atos. Certo é que, mais ou menos condicionados internamente ou externamente, optamos todos os dias, nas mais variadas situações e assim vamos seguindo e construindo a nossa vida e interagindo na dos demais.

Saber escolher, em cada momento, a natureza da escolha, por muito debatido que seja na filosofia, na religião ou no processo científico, é inerente ao ser vivo, e é uma responsabilidade para o ser humano saber fazê-lo com consciência dos seus atos e implicações. É uma questão ética e moral que cada um de nós tem de ponderar, desejavelmente com integridade e com coragem para avançar.

É igualmente na escolha, tantas vezes sem “filtros”, que manifestamos exatamente quem somos e para onde queremos ir.

Não só devemos ponderar as nossas escolhas e suas implicações como deveremos analisar as dos demais, e com atenção redobrada sempre que se trate de alguém com capacidade de influenciar as nossas.

Aprender a sentir quem somos, saber ser pensando nas consequências dos nossos atos, observar os demais, é um processo de autoconhecimento que nos ajudará nas nossas escolhas pessoais e profissionais, na vida.

Não há nada melhor na vida do que sabermos ser nós próprios e sermos felizes com isso.

E por que não sabemos sempre tudo, em caso de dúvida ao escolher, pensar nas palavras de Steve Jobs, “Have the courage to follow your heart and intuition. They somehow already know what you truly want to become.”

 

*Fundação Portuguesa das Comunicações

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Sobre o autor

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Margarida Sá Costa iniciou o seu percurso profissional como advogada, com o sonho de defender causas e apoiar pessoas. Em 1988, aceitou o desafio de integrar uma das empresas percursoras da atual Altice Portugal motivada pelas novas tecnologias e inovação... Ler Mais