Opinião

Laissez faire

Nuno Madeira Rodrigues, administrador do Grupo HBD

A popular expressão laissez faire simboliza um “deixar fazer” tradicionalmente associada ao capitalismo económico, a uma menor regulação e maior raio de acção à iniciativa privada, tendo porém sido mais tradicionalmente adoptada no vocabulário corrente para simbolizar um certo desinteresse e apatia perante determinadas situações que determinariam um comportamento distinto.

Transposta para o âmbito empresarial, esta situação assume cada vez mais contornos dramáticos em que a desresponsabilização e desinteresse generalizados conduzem a uma crescente ausência de solidariedade e, acima de tudo, compromisso para com os objectivos e metas de uma determinada instituição.

O problema não é apenas da economia em si mesma. Quantos não verificámos já situações deste género a nível dos serviços públicos, das instituições privadas, das relações familiares, enfim, em bom rigor da maioria das situações relacionais com que nos deparamos na generalidade do nosso dia-a-dia?

Em bom rigor, porquê fazer algo que não é nossa responsabilidade, mesmo quando vemos que quem o deve fazer não faz ou não consegue fazer? Qual o mérito de ajudar quem precisa quando não temos correspondência direta remuneratória ou similar em consequência dessa ajuda? A que título é que nos devemos preocupar quando, quem o deve fazer, claramente não está preocupado com determinada situação?

É muito complicado exigir a alguém este tipo de brio profissional, esta solidariedade intensa que leva a que um “soldado desconhecido” entre no “campo de batalha” em auxílio dos seus colegas. Mas o facto de ser complicado exigir não o faz menos exigível, pelo contrário. Aliás, nem deveria de todo ser complicado exigir aquilo que eticamente seria esperado de todo e qualquer membro de uma estrutura, familiar, empresarial, pública, etc., que tenha um mínimo de consciência que o todo é efetivamente mais que a soma das partes e, amiúde, o sucesso das partes – ou de algumas delas – raramente se traduzirá no sucesso do todo.

Sim, reconheço que isto é um convite a que muitos se “encostem”, sabendo perfeitamente que se não dão o que podem outros virão para salvar o dia. E até se trabalha menos assim, e ganha-se provavelmente o mesmo. Muitos alegarão que o problema está no sistema de recompensa associado ao cumprimento de objectivos, que a remuneração deveria contemplar melhor estas situações, tratando de forma igual o igual e desigual o desigual. Concordo, sem dúvida, mas apenas num plano teórico. Na prática, gratificar extraordinariamente o trabalho bem feito significa reconhecer que o salário “base” é quase como que um pagamento apenas associado à presença física, aos serviços mínimos, sem que do mesmo se possa esperar excelência. E isso não posso nunca aceitar.

Não se mudam mentalidades numa ou duas gerações e, por isso, vamos fazendo como o ditado e deixamos andar…

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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