Opinião
Produtividade: o próximo salto não está em trabalhar mais depressa
Portugal tem um problema persistente de produtividade: segundo a OCDE, a produtividade do trabalho no nosso país continua cerca de 17% abaixo da média da organização. E o problema não é falta de trabalho.
Em 2025, Portugal atingiu um recorde de emprego, com mais de cinco milhões de pessoas a trabalhar. Ainda assim, cada hora de trabalho em Portugal gera apenas 66,9% da riqueza (PIB) que gera, em média, uma hora de trabalho na União Europeia — uma proporção inferior aos 67,6% registados em 2000. Ou seja: nos últimos 25 anos pusemos mais gente a trabalhar, mas não aproximámos a riqueza que cada hora produz da dos nossos parceiros europeus. É uma diferença demasiado relevante para continuarmos a tratar a produtividade apenas como uma questão de trabalhar mais ou de fazer as mesmas tarefas mais depressa. Está na altura de mudar a pergunta.
Em vez de perguntarmos como podemos fazer mais trabalho no mesmo número de horas, deveríamos perguntar quanto do trabalho que fazemos hoje deveria continuar a exigir tempo humano.
Nas organizações existem ainda inúmeras horas dedicadas a tarefas repetitivas: introduzir informação em diferentes sistemas, procurar documentos, validar dados, preparar reportes, transferir informação entre equipas ou executar sucessivamente processos que poderiam estar integrados. Nenhuma destas tarefas é irrelevante, mas é legítimo questionar se todas continuam a precisar de ser realizadas da mesma forma. E a fronteira já não está só no trabalho repetitivo: com a inteligência artificial, também uma parte do trabalho cognitivo, como ler e classificar documentos, triar pedidos ou preparar uma primeira análise, pode ser feita de outra forma. E é aqui que tecnologia e produtividade se encontram: não porque a tecnologia deva substituir indiscriminadamente pessoas, mas porque nos permite redesenhar o trabalho.
No setor financeiro, por exemplo, existe uma enorme quantidade de processos, informação e documentação. Automatizar uma tarefa repetitiva ou permitir que diferentes sistemas comuniquem entre si pode representar menos horas gastas em atividades administrativas. Mas o verdadeiro ganho não está apenas nas horas poupadas, está naquilo que as pessoas podem fazer com esse tempo: analisar uma situação complexa, resolver uma exceção, falar com um cliente, tomar uma decisão, melhorar um processo ou criar uma solução que ainda não existe. É aqui que se encontra, provavelmente, o próximo salto de produtividade.
Mas há uma armadilha: o tempo libertado não se transforma sozinho em valor. Se nada for decidido, é absorvido por mais reuniões, mais reporte e mais tarefas de baixo valor. Por isso, cada automação devia vir acompanhada de uma decisão tomada à partida: para onde vão as horas que libertamos e como vamos saber se lá chegaram. Uma organização produtiva não será necessariamente aquela em que as pessoas fazem mais coisas por dia, mas aquela que consegue concentrar o talento humano nas atividades onde esse talento realmente faz diferença.
Isto exige tecnologia, naturalmente, mas exige também uma mudança de gestão. Digitalizar processos sem os questionar pode simplesmente transformar uma ineficiência analógica numa ineficiência digital. Antes de automatizar, é preciso perguntar se podemos eliminar, simplificar ou redesenhar. Exige também autonomia: libertar tempo para que alguém tome uma decisão só serve se essa pessoa tiver margem para a tomar. Muitas vezes, o estrangulamento não é o tempo, é a cadeia de aprovações. E exige igualmente investimento nas pessoas. Nem todas as funções vão ficar iguais, e é honesto dizê-lo. Mas a forma mais eficaz de preparar as pessoas é também a mais simples: pôr quem executa hoje a tarefa a desenhar a forma como ela vai mudar. Quem conhece o processo por dentro sabe onde estão as exceções, os atalhos e aquilo que pode desaparecer sem perda. Ao participar no redesenho, deixa de ser alvo da mudança e passa a ser dono dela, e as competências de que vai precisar a seguir desenvolvem-se no próprio trabalho.
Por isso, a discussão sobre produtividade não deveria ser uma discussão sobre fazer as pessoas trabalhar mais, deveria ser sobre criar organizações onde as pessoas conseguem dedicar mais tempo ao trabalho que verdadeiramente necessita delas.
Os bloqueios estruturais do país, como o investimento, a escala das empresas ou os custos de contexto, não se resolvem dentro de uma organização. Mas há uma parte que depende inteiramente de nós. Se queremos aproximar Portugal dos níveis de produtividade das economias mais avançadas, é por essa parte que as empresas podem começar amanhã: deixar de medir progresso apenas pela quantidade de trabalho que conseguimos fazer e começar a medir a quantidade de trabalho que conseguimos deixar de fazer sem perder valor. Na prática, isto pode ser tão simples como fazer uma revisão trimestral do que cada equipa deixou de fazer — o relatório que ninguém lia, a validação duplicada, a aprovação que nada acrescentava — e tratar essa revisão com a mesma seriedade com que tratamos aquilo que entregámos.
Porque produtividade não é fazer tudo mais depressa, é perceber o que vale realmente a pena continuar a fazer.








