Opinião
Porque matámos os nossos heróis?
Deixámos de ter heróis. Ou, pior ainda, deixámos de os apresentar como tal. As novas gerações crescem rodeadas de estímulos, ecrãs, personagens, influenciadores, ruído e consumo, mas com poucos modelos sólidos de identificação.
Há protagonistas, há celebridades, há figuras virais, há gente conhecida por ser conhecida. Só. Mesmo só. Mas heróis? Heróis a sério? Esses parecem ter desaparecido do imaginário, da banda desenhada, do cinema, da escola, da empresa e até da linguagem pública. Apenas uns indiferenciados e inacreditáveis influenciadores: sem criatividade, sem ideias, sem rasgo, sem papel algum que não frases bonitas para promoção pessoal!
Isto tem consequências. Porque o herói não é apenas entretenimento. O herói é pedagogia moral. É uma forma narrativa de dizer a uma criança, a um jovem, a um adulto: podes ser melhor. Podes proteger. Podes servir. Podes sacrificar-te. Podes ter medo e avançar. Podes errar e corrigir. Podes ser útil aos outros sem perguntares primeiro quanto ganhas com isso. Até porque o que ganhas, monetariamente falando, é uma pequeníssima dimensão da vida.
Tintin ensina-nos a procura da verdade, a lealdade e a pureza de intenções. Astérix mostra a defesa da comunidade, a astúcia e a liberdade coletiva. Super-Homem representa a força com contenção, a compaixão e a proteção da vida humana. Pippi das Meias Altas é um expoente de liberdade interior, autenticidade e generosidade espontânea. Shrek ensina que a rudeza pode esconder vulnerabilidade, desejo de aceitação e justiça. Capitão América é dever moral, lealdade e sacrifício pelo bem comum. Lucky Luke faz justiça sem teatro, com autocontrolo e simplicidade. Woody lidera cuidando, sendo útil e leal mesmo quando isso custa. Não são perfeitos. Ainda bem. São reconhecíveis. Têm traços de carácter. Têm falhas. Mas têm missão. Por onde andam? E há novos? Não, não e não. Mas porquê?
O papel dos role models começa cedo. Muito cedo. Uma criança não aprende apenas por instrução direta. Aprende por imitação, admiração, repetição e desejo de pertença. Quer ser como alguém. Quer vestir a pele de alguém. Quer experimentar uma forma de coragem antes de a ter. O herói é isso: uma antecipação simbólica daquilo que podemos vir a ser. Marca. Fica. Orienta. Não substitui pais, professores ou educadores, mas ajuda a construir um edifício moral: coragem, lealdade, serviço, justiça, compaixão, responsabilidade.
Quando retiramos estes modelos, não deixamos o espaço vazio. Não há espaços vazios. Porque o espaço é sempre, sempre ocupado. Por quem grita mais alto. Por quem exibe mais. Por quem vende melhor. Por quem transforma a atenção em poder. Por quem aparecer mais vezes com discursos banais. E, depois, espantamo-nos com a fragilidade, o egoísmo, a desistência rápida, a incapacidade de lidar com a frustração, a falta de sentido de dever ou a ausência de compromisso com algo maior do que o próprio umbigo.
Nas organizações acontece algo similar. Também deixámos de acarinhar os heróis. Não falo dos heróis de palco, dos discursos motivacionais ou dos cartazes de valores até porque esses são dispensáveis. Falo dos que ajudam colegas, sem mais, dos que seguram equipas, dos que resolvem problemas sem pedir medalhas, dos que ficam mais tempo, saem mais tarde, e se entregam quando é preciso, protegendo os mais novos e a organização, transmitindo conhecimento, segurança, dando o corpo às balas e mantendo a casa de pé. Esses existiam. E existem (cada vez em menor número). Mas passaram a ser tratados como peças indiferenciadas. Acabou o “quadro de honra” por ajuda aos colegas. Acabou o reconhecimento discreto, mas simbólico. Acabou, muitas vezes, a valorização real.
Substituímos isto exatamente pelo quê? Por métricas? Por prémios de performance individual? Por slogans sobre cultura? Por frases postadas nas paredes? Por avaliações onde quem ajuda perde tempo e quem se autopromove ganha visibilidade?
Uma organização sem heróis internos é apenas uma máquina operacional fria. Desumana. Pode funcionar. Pode até dar lucro. Mas perde alma, memória e exemplo. E uma sociedade sem heróis deixa de pedir grandeza às pessoas.
Talvez esteja na hora de voltar a dizer: precisamos de heróis. Não para nos salvarem. Mas para nos lembrarem que um dos nossos maiores objetivos de vida é sermos melhores. Talvez o maior objetivo.








