Opinião

Da fragmentação à integração: como criar soluções digitais para o futuro da farmácia

Tiago Cunha Reis, docente universitário*

O setor farmacêutico está no centro da revolução digital da saúde, criando um terreno fértil para empreendedores que desenvolvem soluções tecnológicas inovadoras.

A fragmentação dos sistemas de informação em saúde tem sido um entrave à eficácia da prática farmacêutica, limitando o acesso a dados clínicos completos e reduzindo o potencial dos farmacêuticos como agentes ativos na gestão da terapia medicamentosa.

A crescente adoção de registos eletrónicos de saúde e a digitalização das prescrições médicas representam um avanço significativo, mas a interoperabilidade continua a ser um desafio. Para startups e investidores, este cenário apresenta uma oportunidade clara para a criação de plataformas que integrem farmácias, hospitais, clínicas e seguradoras, promovendo um fluxo contínuo e seguro de informação. A implementação de soluções digitais não se limita à gestão de dados; há uma necessidade urgente de capacitação profissional. Estudos indicam que aproximadamente 70% dos farmacêuticos sentem dificuldades na adaptação a novas tecnologias devido à falta de formação adequada. Este défice de competências abre caminho para plataformas de aprendizagem especializadas em saúde digital, incluindo certificações, simulações clínicas e formação baseada em inteligência artificial. Empresas que apostarem na educação digital para profissionais de farmácia podem desempenhar um papel crucial na modernização do setor.

Ainda, a infraestrutura tecnológica das farmácias continua desatualizada, dificultando a integração com sistemas mais avançados. A criação de softwares modulares e APIs que garantam interoperabilidade entre farmácias e outras entidades do setor pode ser um diferencial competitivo significativo. Modelos que automatizem processos, reduzam falhas operacionais e otimizem a reconciliação medicamentosa têm grande potencial de adoção, especialmente em redes de farmácias e hospitais. Outro fator crítico na transformação digital do setor farmacêutico é a segurança da informação. Com regulamentações cada vez mais rigorosas, como o GDPR na Europa e a HIPAA nos Estados Unidos, a proteção de dados sensíveis dos pacientes tornou-se uma prioridade.

As empresas especializadas em cibersegurança têm a oportunidade de desenvolver soluções que garantam conformidade legal, encriptação avançada e sistemas de autenticação robustos, protegendo as informações de saúde contra acessos indevidos e violações de privacidade. Para startups que desejam explorar este mercado, o modelo de negócios B2B surge como uma abordagem estratégica, permitindo parcerias com redes de farmácias, seguradoras de saúde e entidades hospitalares.

Por fim informar sobre a existência de programas governamentais e fundos de incentivo à inovação em saúde digital que oferecem oportunidades de financiamento para o desenvolvimento de tecnologias alinhadas com os objetivos de modernização do setor. Captar estes recursos pode acelerar a escalabilidade das startups e facilitar a entrada em mercados internacionais. A digitalização da farmácia é um processo inevitável e os empreendedores que souberem aliar inovação tecnológica a uma compreensão profunda das necessidades do setor terão vantagem competitiva.


Tiago Cunha Reis, Ph.D., é doutorado em Sistemas de Bioengenharia pelo programa MIT-Portugal, tendo desenvolvido o seu doutoramento no Hammond Lab (MIT, EUA). Com foco nas necessidades de translação médica, o então engenheiro é agora aluno de Medicina. Reconhecido por sua paixão pela humanização da tecnologia em saúde e por melhorar ferramentas de diagnóstico e prognóstico, Tiago Cunha Reis possui um amplo histórico de prémios, publicações e nomeações internacionais em sociedades científicas europeias. Fomentador de conhecimento aplicado, fundou uma start-up focada em sensores e inteligência artificial, a qual expandiu internacionalmente antes de ser adquirida no final de 2022.

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