53,6% dos portugueses apresenta níveis elevados de sofrimento psicológico. Mulheres ultrapassam os homens.

Foto: Luke Jones, Unsplash

A ansiedade está na origem de 72,9% das consultas de saúde mental e as mulheres registam valores mais elevados (86,8%), face aos homens (58.3%).

Cerca de 54% dos portugueses regista níveis elevados de sofrimento psicológico, contra 63% que considera que o seu estado de saúde mental é bom ou muito bom. Quem o diz são os participantes no novo estudo sobre saúde mental em Portugal feito pela ConsumerChoice, com base na Kessler Psychological Distress Scale (K10) (uma escala de 10 perguntas utilizada para avaliar o nível de sofrimento psicológico das pessoas).

A poucos dias do Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala a 10 de outubro, esta análise (que procurou compreender a perceção dos inquiridos quanto ao recurso a acompanhamento especializado, quanto aos fatores que influenciam o bem-estar psicológico e a perceção de estigma associada à saúde mental) verificou que apesar dos níveis de sofrimento psicológico identificados, a maioria dos entrevistados (72,1%) considera que a sua saúde mental está melhor ou igual à do período homólogo. Entre os fatores associados a uma perceção de melhoria estão as melhores condições de trabalho (22,2%) e uma melhor condição financeira (23,3%).

Contudo, a vertente económica surge também como uma das principais fontes de pressão, já que a situação financeira e o custo de vida são apontados por 47,5% dos participantes como o motivo que mais negativamente contribui para a sua saúde mental.

O estudo (que se apresenta somente como um indicador do estado psicológico dos inquiridos e não um diagnóstico clínico) indica também que 54,3% nunca recorreu a um profissional na área da saúde mental. Entre os que já procuraram este tipo de acompanhamento, 31% fizeram-no há cerca de um ano e 23% há mais de um ano, o que indicia que o recurso a este tipo de apoio tende a ocorrer com alguma distância temporal.

Quando questionados sobre quais os motivos da última ida ao médico, as consultas de rotina ou de prevenção surgem em primeiro lugar, com 46,6% das respostas. Se incluirmos as consultas para renovação de receitas ou realização de exames, este valor sobe para 67,8%.  Por sua vez, as idas ao médico motivadas por doenças/perturbações do foro mental representam 12% das respostas.

Refira-se que a ansiedade surge destacada como o principal motivo para a marcação de consultas relacionadas com a saúde mental (72,9%). Trata-se de uma realidade que assume particular expressão entre os mais jovens, uma vez que 88,9% dos participantes entre os 18 e os 24 anos identificou a ansiedade como motivo para procurar este tipo de acompanhamento. Entre as mulheres a percentagem chega aos 86,8%, enquanto os homens apresentam valores de ansiedade muito inferiores, na ordem dos 58,3%.

Por último, também se constatou que recurso a acompanhamento especializado na área da saúde mental continua a depender, sobretudo, da iniciativa dos próprios indivíduos, num contexto em que persistem sinais de estigma associados à procura de apoio psicológico: cerca de 63% refere que ainda há um certo preconceito em receber acompanhamento psicológico.

“Há um dado neste estudo que merece particular atenção. Podemos acreditar que estamos bem e, ainda assim, estar a acumular níveis significativos de sofrimento psicológico. Esse contraste mostra que falar de saúde mental não pode limitar-se à forma como cada pessoa avalia o seu próprio estado”, salienta Nassrin Majid, diretora-geral da ConsumerChoice.

Esta profissional lembra que “a ansiedade, sobretudo entre os mais jovens e as mulheres, e o peso crescente das preocupações financeiras mostram-nos também que o bem-estar psicológico não acontece de forma isolada e é profundamente influenciado pelas condições em que vivemos, trabalhamos e gerimos o nosso dia a dia. Mais do que normalizar a conversa sobre saúde mental, precisamos de criar condições para que pedir apoio seja também normal”.

Refira-se que o questionário que deu origem a estes resultados teve a participação de 683 portugueses, 55% de pessoas do sexo masculino e 45% do feminino. A faixa etária com maior representação é dos 35 a 44 anos (28%) e dos 45 a 54 anos (22%). A maioria dos participantes está localizada no Norte (38%), na Grande Lisboa (28%) e na região Centro do país (21%). A restante percentagem encontra-se distribuída em outros pontos de Portugal.

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