Opinião

2026: O que muda na forma como as empresas devem pensar o risco

Nathalie Ballan, membro da Direção do GRACE – Empresas Responsáveis*

Porque a sustentabilidade passou a ser uma questão de governação. O ano de 2026 abre num contexto que desafia muitas das práticas empresariais.

Durante décadas, o risco foi tratado como algo a identificar, mitigar e reportar. Financeiro, operacional, reputacional, regulatório, compartimentado entre diferentes direções, e, muitas vezes, reativo. Esse modelo é frágil face à realidade atual.

Hoje, os riscos que moldam o desempenho das empresas não surgem isolados. Convergem. Reforçam-se mutuamente. E manifestam-se com custos económicos cada vez mais tangíveis. Assim, em 2026, a questão central já não deve ser “quais são os riscos”, mas “como as organizações os integram na decisão estratégica”.

Da fragmentação à convergência do risco

A sustentabilidade sempre esteve associada à gestão de riscos. No GRACE, essa leitura antecede ciclos regulatórios, modas terminológicas ou agendas políticas. A escala e a natureza desses riscos mudou.

Riscos climáticos cruzam-se com riscos sociais, de saúde, tecnológicos e geopolíticos. A transição para uma economia de baixo carbono, quando mal gerida, pode aprofundar desigualdades, fragilizar cadeias de valor e gerar resistência social. Eventos climáticos extremos afetam infraestruturas, produtividade e custos de seguro. A degradação da biodiversidade e da água compromete sistemas produtivos inteiros. A inteligência artificial acelera soluções, mas também cria riscos sociais e de confiança e aumenta necessidades energéticas.

A capacidade de entender, tomar em consideração nas decisões empresarias as consequências de um contexto multi crise afirma-se como um dos principais pontos de convergência identificado tanto em análises estratégicas globais como nos debates internacionais que marcam o início de 2026. E questiona a robustez das empresas, ou seja, a capacidade de um sistema em encaixar perturbações, sem ir abaixo.

O desfasamento entre política e economia

Outro traço distintivo do momento atual é o crescente desfasamento entre a retórica política e a realidade económica. Em várias geografias, assistimos a recuos ou adiamentos de políticas e obrigações formais em matéria de sustentabilidade. No entanto, os mercados, os investidores e os reguladores, prudentes, seguem outra lógica.

O capital continua a mover-se de acordo com fatores estruturais: a viabilidade económica das tecnologias de transição, o custo da inação perante riscos físicos, a exposição a choques climáticos e sociais, e a qualidade dos dados que permitem avaliar risco e retorno. A sustentabilidade deixou de depender do ritmo político para se afirmar como critério económico.

Este desfasamento não reduz o risco. Pelo contrário, torna-o mais complexo. Obriga as empresas a navegar num contexto em que a previsibilidade regulatória diminui, mas a materialidade económica dos riscos aumenta.

O que muda na abordagem ao risco em 2026

Perante este cenário, três mudanças tornam-se decisivas.

Primeiro, o risco deixa de ser apenas um tema técnico e passa a ser um tema de governação. Riscos climáticos, sociais e tecnológicos exigem envolvimento direto da gestão de topo e dos conselhos de administração, porque condicionam escolhas fundamentais sobre investimento, localização, modelo de negócio, pessoas e tempo.

Segundo, o foco desloca-se da conformidade para a antecipação. Cumprir continua a ser necessário, mas já não é suficiente para garantir resiliência ou competitividade. As organizações que se destacam são aquelas que conseguem integrar o risco antes de ele se materializar, usando-o como filtro estratégico e não apenas como obrigação de reporte.

Terceiro, muda a relação com os dados. O desafio deixou de ser a falta de informação. O desafio é integrar dados relevantes, financeiramente materiais, em decisões reais, conciliando diferentes horizontes temporais e níveis de incerteza. Menos volume, mais utilidade, mais capacidade de decisão.

Pensar o risco como condição de competitividade

Em 2026, gerir risco já não é apenas proteger valor. É criar as condições para continuar a operar, investir e crescer num mundo estruturalmente mais volátil e interdependente. Adotar uma atitude preventiva – a da robustez – e não apenas a da resiliência.

Isto implica reconhecer que a sustentabilidade não é um custo adicional nem um exercício de comunicação. É um enquadramento para compreender limites, dependências e trade-offs, que, quando ignorados, se transformam em perdas financeiras, disrupções operacionais e erosão de confiança.

É esta visão que o GRACE continuará a promover ao longo de 2026: a sustentabilidade como fator de competitividade, a gestão do risco como competência central de liderança, e a antecipação como vantagem estratégica.

* Em representação da The Equator Company

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