Opinião

Posso não ser “ninguém” no mundo, mas posso ser o mundo de alguém!

Susana Duro, Senior Marketing Manager na Coca-Cola Europacific Partners

Vivemos num momento estranho no mundo. Estranho porque nunca tivemos tanta informação, tanta tecnologia, tanta ligação. Nunca foi tão fácil falar com alguém do outro lado do planeta. Nunca foi tão simples aceder a conhecimento, opiniões, causas, histórias.

Temos centenas de “amigos” nas nossas redes sociais. E, no entanto, nunca nos sentimos tão distantes, tão sozinhos, tão desligados uns dos outros. É um paradoxo difícil de ignorar.

Vivemos numa era em que meia dúzia decide, governa, influencia e molda o rumo de milhões, enquanto a maioria observa, comenta, indigna-se… e sente-se impotente. Como se o nosso lugar fosse pequeno demais para fazer diferença. Como se a nossa voz não tivesse peso. Como se o mundo fosse algo que acontece “lá fora”, longe de nós.

Mas não é.

No mundo existem cerca de oito biliões de pessoas. Oito biliões de histórias, de contextos, de feridas, de sonhos. E dizem — e bem — que não existem duas pessoas iguais. Cada um de nós é único. Biologicamente, emocionalmente, culturalmente. Isso é extraordinário. E, ainda assim, raramente paramos um minuto para pensar no que isso realmente significa.

Vivemos fechados no nosso próprio mundo. Nos nossos problemas, nas nossas rotinas, nas nossas bolhas. E esquecemo-nos de algo essencial: fazemos parte de algo maior. Quer queiramos, quer não. O nosso lugar importa. A nossa presença tem impacto. Mesmo quando não damos por isso.

Talvez não sejamos “alguém” para o mundo. Talvez o nosso nome nunca apareça nas manchetes, nem nas listas dos mais poderosos, nem nos rankings de influência. Mas quase de certeza somos o mundo de alguém. De um filho, de um pai, de um amigo, de um colega, de uma equipa. Às vezes, de uma pessoa que nem imagina o quanto dependia de nós naquele momento.

E isso muda tudo.

O problema não é a falta de poder. É a falta de consciência. A ideia perigosa de que só quem está no topo conta. De que só quem lidera países, empresas ou movimentos tem responsabilidade. Não tem. Todos temos responsabilidade. A responsabilidade começa muito antes. Começa na forma como tratamos os outros. Na forma como escutamos. Na forma como escolhemos não ser indiferentes. Na forma como cuidamos dos outros.

Num mundo cada vez mais ruidoso, ser humano é um ato de coragem. Num mundo cada vez mais rápido, parar para ver o outro é quase revolucionário. Num mundo que nos empurra para o individualismo, escolher a empatia é liderança.

O futuro não se constrói apenas com grandes decisões globais. Constrói-se com pequenos gestos consistentes. Com pessoas que entendem que o seu lugar, por mais simples que pareça, tem valor. Que a sua atitude diária influencia mais do que imagina. Que estar presente, de forma consciente, já é uma forma de mudar o mundo.

Talvez não possamos mudar tudo. Mas podemos sempre mudar alguma coisa. E, muitas vezes, essa “alguma coisa” é exatamente o que alguém precisa para não desistir. Essa “alguma coisa” pode ter muito mais impacto do que imaginamos !

Num mundo estranho como o de hoje, talvez a maior aprendizagem seja esta: lembrar-nos, todos os dias, que não somos irrelevantes, que está nas nossas mãos mudar o nosso mundo e quem sabe o mundo de alguém! Fazemos parte de um grande puzzle e todas as peças são importantes.


Susana Duro tem mais de 20 anos de experiência no desenvolvimento e implementação de estratégias de marketing para marcas líderes de mercado e um sólido percurso profissional construído em empresas nacionais e multinacionais de referência dentro do mercado de FMCG.

É licenciada em Marketing e Publicidade pelo IADE, pós-graduada em Retail Management e em Direção Comercial no Indeg/Iscte e mestre em Marketing pela mesma instituição. Iniciou a sua carreira de marketing na Henkel Ibérica como gestora de produto, passando depois para brand manager na Dan Cake. Em 2004 entrou para a Nestlé onde esteve durante 11 anos. Aqui desempenhou a função de brand manager da categoria de Culinários, de trade marketing manager na categoria de chocolates e de head of trade marketing na categoria de Cereais de pequeno-almoço. Em 2017 entrou para a Coca Cola Europacific Partners como responsável pela equipa de Customer Development do Canal Alimentar. Em 2022 foi convidada para assumir a função de National Account manager ficando com a responsabilidade de várias contas no canal Horeca Organizado. É também professora na pós-graduação em Gestão de Vendas do INDEG_ISCTE, onde leciona a disciplina de Comportamento do Consumidor.

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