Entrevista/ “Portugal tem todas as condições para ser um farol da inovação na Europa”

Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa

“O nosso grande objetivo é perceber como podemos colaborar e apoiar o ecossistema na sua totalidade – empresas, outras organizações, incubadoras – e ajudar start-ups e scale-ups a tornarem-se empresas de dimensão internacional, com potencial para alcançar o estatuto de unicórnio”, afirma Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa.

O Financial Times distinguiu recentemente a Unicorn Factory Lisboa como o hub português mais bem classificado no ranking Europe’s Leading Start-up Hubs 2026, um 24.º lugar entre 180 hubs de 25 países e o único português no top 30. O reconhecimento reflete mais de três anos de trabalho intenso. Desde 2022, a Unicorn Factory Lisboa apoiou mais de 300 start-ups por ano, captou mais de mil milhões de euros em investimento e atraiu 17 unicórnios internacionais para a cidade.

Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa, acredita que Portugal reúne os ingredientes certos para liderar a próxima vaga de inovação europeia, desde que supere três obstáculos críticos: burocracia, acesso a capital e falta de visão estratégica de longo prazo. Nesta entrevista, o responsável fala dos principais marcos da Unicorn Factory, do Engineers Hub, recentemente criado em parceria com a Ordem dos Engenheiros – Região Sul, sobre a aposta no empreendedorismo jovem e na retenção de talento, assim como da grande ambição de transformar Lisboa num sistema operativo de inovação à escala global.

Quais são os principais marcos que têm consolidado a Unicorn Factory como um polo de inovação em Portugal e que contribuem para este resultado?

Destacaria três grandes marcos, que refletem a visão do presidente da Câmara de Lisboa [Carlos Moedas] quando lançou esta iniciativa no final de 2021 e que começámos a concretizar em 2022. O primeiro foi a criação de um apoio direcionado a start-ups em fase de crescimento internacional. O programa Scaling Up, único em Portugal, reúne alguns dos melhores especialistas internacionais de apoio a equipas na expansão para outros mercados. Atualmente, o programa apoia mais de 20 scale-ups por ano, já vai na sétima edição e tem registado um crescimento muito significativo. Pela primeira vez, conseguimos posicionar o apoio à inovação também na fase de internacionalização das empresas.

E o segundo e terceiros marcos?

Foi o foco nos hubs temáticos de inovação. O mais recente foi criado em parceria com a Ordem dos Engenheiros – Região Sul. Este junta-se aos hubs já existentes nas áreas de gaming, sustentabilidade e inteligência artificial. O objetivo é dinamizar comunidades de inovação em setores com elevado potencial de crescimento. No conjunto, estes programas e hubs atraem atualmente mais de 300 start-ups por ano para a Unicorn Factory Lisboa, um crescimento cinco vezes superior face ao que acontecia há três anos. O terceiro marco tem tido menos visibilidade pública, mas é igualmente fundamental para nós, que é o apoio ao empreendedorismo jovem. Trabalhamos com universidades e escolas para ajudar a formar uma nova geração mais inovadora e empreendedora. Esta é uma área que temos vindo a desenvolver e que já permitiu chegar a mais de mil alunos através dos nossos programas.

“Muitos engenheiros têm ideias e soluções técnicas com potencial, mas nem sempre dispõem dos conhecimentos necessários para desenvolver o negócio”.

Qual foi a motivação para a criação do Engineers Hub e que oportunidades concretas oferece para estudantes, start-ups e profissionais da engenharia?

Este espaço nasceu de um desafio lançado pela própria Ordem dos Engenheiros – Região Sul. Na altura, já tínhamos criado três hubs de inovação nas áreas de gaming, sustentabilidade e inteligência artificial, e surgiu a oportunidade de desenvolver também um hub dedicado à engenharia. A motivação partiu da constatação de que muitos engenheiros têm ideias e soluções técnicas com potencial, mas nem sempre dispõem dos conhecimentos necessários para desenvolver o negócio. Esta iniciativa procura juntar, por um lado, o apoio técnico e científico proporcionado pela Ordem dos Engenheiros e, por outro, a experiência da Unicorn Factory Lisboa no apoio à inovação e ao desenvolvimento de negócios. Desta forma, qualquer engenheiro, seja estudante ou profissional já com experiência, que tenha uma ideia ou um projeto em desenvolvimento, pode integrar o Engineers Hub. Aqui encontra um espaço de apoio, mentoria e comunidade que ajuda a estruturar o projeto e a aumentar a sua tração de crescimento.

Como é que vê este hub daqui a um ano?

O hub começou já com dez start-ups associadas, que faziam parte do nosso portefólio e viram nesta iniciativa uma oportunidade de integrar esta comunidade. Daqui a um ano, imagino uma comunidade que, no mínimo, terá duplicado de dimensão. Espero também ver projetos com uma forte componente de engenharia a ganhar destaque, sobretudo soluções de deeptech, ou seja, tecnologias que envolvem um trabalho significativo de investigação e desenvolvimento. Este tipo de projetos tende a ter um elevado potencial de crescimento e de impacto no mercado. Espero daqui a um ano estar a olhar para projetos que possam ser case studies de inovação.

“Desde 2022, Lisboa atraiu 17 unicórnios internacionais e mais de 70 hubs tecnológicos de empresas internacionais, que anunciaram a criação de mais de 17 mil postos de trabalho na cidade”.

A inovação é muitas vezes apontada como um motor de desenvolvimento económico e social. Na sua opinião, qual o impacto direto da Unicorn Factory Lisboa na criação de emprego, na atração de investimento e na promoção de start-ups de sucesso?

Atualmente, apoiamos mais de 300 start-ups por ano, quer através dos nossos programas, quer através dos hubs de inovação. Se olharmos para as rondas de investimento realizadas em Portugal, mais de 50% das chamadas rondas seed já envolvem start-ups apoiadas pela Unicorn Factory Lisboa. Isto mostra que estamos, de facto, a apoiar grande parte da nova geração de inovação em Portugal. No conjunto, já ajudámos estas empresas a captar mais de mil milhões de euros em investimento.

Ao mesmo tempo, o projeto tem funcionado como uma bandeira para a cidade de Lisboa na atração de iniciativas internacionais. Desde 2022, Lisboa atraiu 17 unicórnios internacionais, que abriram escritórios em Portugal, e mais de 70 hubs tecnológicos de empresas internacionais, que anunciaram a criação de mais de 17 mil postos de trabalho na cidade. Além disso, são empregos de elevado valor acrescentado, que contribuem para uma economia mais qualificada. Têm também um impacto importante na retenção de talento, numa altura em que se fala muito da saída de jovens qualificados para outros países.

Como é que a Unicorn Factory tem apoiado a internacionalização das start-ups portuguesas?

Esse trabalho começa com o programa Scaling Up, de apoio à internacionalização das empresas que integram o programa. Desde o seu lançamento, no final de 2022, já passaram por esta iniciativa mais de 70 empresas. Em paralelo, temos vindo a desenvolver parcerias com outros mercados para criar redes de apoio para as nossas start-ups noutros países. Um exemplo é a colaboração com a Start-up Valencia, em Espanha. Já organizámos iniciativas conjuntas. Recebemos também muitas delegações internacionais interessadas em conhecer o ecossistema português de inovação. Aproveitamos essas visitas para criar oportunidades de contacto.

Que participações internacionais estão já agendadas para este ano?

No final deste mês, estaremos no South Summit Brazil 2026, em Porto Alegre, numa iniciativa realizada em parceria com o Instituto Caldeira, uma organização brasileira com um papel semelhante ao da Unicorn Factory Lisboa. Depois participaremos também no Web Summit Rio, no Rio de Janeiro. Ao longo do ano marcaremos presença noutros grandes eventos internacionais de inovação. Entre eles estão a VivaTech 2026, em França, onde a Startup Portugal levará uma delegação, estaremos na London Tech Week, no Reino Unido, e, mais perto do final do ano, no Slush, na Finlândia, um evento particularmente relevante para start-ups que procuram investidores. Também estaremos presentes no GITEX, no Dubai, uma das maiores feiras de inovação do Médio Oriente. O objetivo é marcar presença nos principais mercados internacionais e criar oportunidades para que as start-ups portuguesas possam estabelecer contatos, desenvolver redes e, no futuro, expandirem-se para esses mercados.

“Lisboa tem vindo a afirmar-se como uma cidade com vários polos de inovação, o que reforça o seu posicionamento como centro internacional nesta área”.

Lisboa conta atualmente com três bairros dedicados à inovação. De que forma a Unicorn Factory se integra neste ecossistema urbano e que sinergias estão a surgir entre os diferentes hubs da cidade?

Hoje funcionamos, em grande medida, como uma rede que liga o ecossistema de inovação da cidade. Como referiu, existem três bairros de inovação – Beato, Alvalade e Saldanha – aos quais se junta também a zona da Baixa, onde temos um edifício dedicado a start-ups em fase inicial e o hub de Saúde. No total, contamos atualmente com oito espaços físicos na cidade. Trabalhamos igualmente em colaboração com outras organizações ligadas à inovação, como a Fintech House, a Casa do Impacto ou o Impact Hub. Lisboa tem vindo a afirmar-se como uma cidade com vários polos de inovação, o que reforça o seu posicionamento como centro internacional nesta área. Aliás, esta dinâmica levou a cidade a conquistar o prémio europeu de Capital da Inovação. Estas sinergias entre estes espaços são essenciais, porque permitem juntar comunidades, todas elas a trabalharem em soluções de inovação e a explorar cada vez mais oportunidades.

“Acreditamos que, para além do conhecimento técnico, que continua a ser importante, é essencial desenvolver a capacidade de inovar, identificar problemas e criar soluções”.

Que competências considera mais críticas para preparar a próxima geração de empreendedores? E como tem equilibrado a formação com o apoio a start-ups?

Num contexto em que a inteligência artificial está a transformar rapidamente o mercado de trabalho, existe alguma incerteza sobre quais serão as profissões mais relevantes nos próximos cinco ou dez anos. Por isso, acreditamos que, para além do conhecimento técnico, que continua a ser importante, é essencial desenvolver a capacidade de inovar, identificar problemas e criar soluções.

Outra competência fundamental é a capacidade de aprendizagem contínua. Ou seja, a possibilidade de cada pessoa continuar a desenvolver competências ao longo da vida e adaptar-se a novos contextos. É com esse objetivo que trabalhamos junto das gerações mais jovens. Desenvolvemos uma metodologia adaptada a diferentes idades. No ensino básico promovemos atividades como o treino da primeira start-up; no ensino secundário temos programas de verão; e no ensino superior desenvolvemos o Future Innovators Program.

Em todos estes programas seguimos uma lógica semelhante: partimos de desafios ou problemas concretos, ajudamos os participantes a identificar soluções, a estruturá-las e validá-las. Depois, trabalhamos a forma de apresentar essas ideias a parceiros, investidores ou potenciais clientes. Ao mesmo tempo, procuramos reforçar a ligação entre universidades e start-ups. Trabalhamos com clubes de estudantes para criar oportunidades de colaboração, estágios e projetos conjuntos.

“Somos um povo acolhedor, somos seguros, gostamos de receber, e isso confere-nos uma vantagem competitiva muito significativa. A isso acresce o talento que sai das nossas universidades”.

Na sua opinião, como é que a Unicorn Factory se diferencia de outros ecossistemas de inovação na Europa? O que prima a nosso favor?

Diria que há dois fatores determinantes. Como país, e num contexto internacional tão turbulento como o que vivemos, Portugal tem sido capaz de transmitir uma imagem de segurança e estabilidade. Somos um povo acolhedor, somos seguros, gostamos de receber, e isso confere-nos uma vantagem competitiva muito significativa. A isso acresce o talento que sai das nossas universidades. Na Unicorn Factory, conseguimos trabalhar em simultâneo com start-ups, empresas, universidades e outras organizações, desenvolvendo redes internacionais que nos permitem funcionar quase como um sistema operativo de inovação, indo muito além do que é um incubador ou acelerador de start-ups tradicional.

O que mais o preocupa, tendo em conta o atual contexto geopolítico e as suas repercussões para as start-ups que se querem internacionalizar?

A capacidade de adaptação faz parte do ADN de qualquer start-up, pelo que não me preocupa tanto a turbulência em si. O que me preocupa é a burocracia e a dificuldade na atração de capital, que Portugal, e também a Europa, ainda enfrentam. Durante muitos anos vivemos da inovação vinda dos Estados Unidos e da China, sem que houvesse uma visão estratégica de longo prazo para o setor. Creio que Portugal tem aqui uma oportunidade real de ganhar visibilidade e até de liderar parte deste movimento a nível europeu. Para isso, é preciso reduzir a burocracia, rever os mecanismos de apoio e eliminar as barreiras à atração de capital. Se conseguirmos resolver estes três problemas, Portugal tem todas as condições para ser um farol da inovação na Europa.

“Uma das prioridades é aprofundar a colaboração com o tecido empresarial, com o ecossistema de inovação e com outras cidades, de forma a superar aquela que é a nossa maior limitação: a dimensão do país”.

Quais são os próximos passos da Unicorn Factory em termos de expansão? Que outras iniciativas estão previstas e quais as áreas que considera prioritárias?

O nosso grande objetivo é perceber como podemos colaborar e apoiar o ecossistema na sua totalidade – empresas, outras organizações, incubadoras – e ajudar start-ups e scale-ups a tornarem-se empresas de dimensão internacional, com potencial para alcançar o estatuto de unicórnio. Para isso, uma das prioridades é aprofundar a colaboração com o tecido empresarial, com o ecossistema de inovação e com outras cidades, de forma a superar aquela que é a nossa maior limitação: a dimensão do país.

Por outro lado, é necessário desenvolver a nossa rede internacional de inovação, para apoiar as nossas start-ups na expansão para outros mercados com mais recursos e maior probabilidade de sucesso. A terceira prioridade, que é também um desejo pessoal, é conseguir passar a mensagem da importância da inovação para o futuro, ou seja, colaborar com universidades e com o governo, para superar os obstáculos que referi, e envolver os media e a sociedade civil como verdadeiros porta-vozes do que se faz de inovador em Portugal e do posicionamento que o país pode ter.

Há alguma empresa cujo percurso seja um exemplo para outras empresas ou para outros empreendedores. Há alguma que gostasse de destacar?

Há muitas, mas vou destacar duas. São dois casos muito diferentes, mas bastante interessantes e atuais. Uma é a Usawa Care, que venceu os Global eAwards 2025, promovidos pela NTT DATA Foundation, vencedora também do prémio municipal Lisboa Innovation for All, atribuído em junho deste ano, um prémio que fizemos em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa. E, muito recentemente, venceu a 10.ª edição do Cuatrecasas Acelera. Um ótimo sucesso e tudo num curto espaço de tempo e a fazer um crescimento internacional nos Estados Unidos, o maior mercado a nível de inovação.

O segundo exemplo demonstra a nossa capacidade de atração de bons projetos a crescer a partir de Portugal. Estou a falar da Bounce, uma start-up fundada por um americano em Silicon Valley e que escolheu Portugal e Lisboa como a base para a expansão europeia. É uma das nossas scale up com maior tração de crescimento e que tem um forte potencial de ser uma empresa muito relevante a nível internacional.

“Portugal tem de ser capaz de transformar as suas universidades em verdadeiros motores de inovação”.

Que tendências vê como mais transformadoras para a tecnologia e inovação em Portugal e de que forma é que a Unicorn Factory pode ajudar as nossas empresas a posicionarem-se nestas tendências?

A principal tendência é a inovação em si mesma. O Relatório Draghi apontou essa necessidade. A inovação tem de ocupar um papel mais central nas políticas de cada país, e nós temos precisamente esse papel, o de desenvolver e promover. Em áreas mais concretas, destacaria a da saúde, que está em profunda transformação e que nos levou a abrir um hub específico nesse domínio. O deeptech é outra aposta forte a nível europeu, e o nosso hub de engenharia está posicionado para dar resposta a esse desafio. A segurança e a defesa, dada a conjuntura internacional, têm ganho também um peso crescente. E, por fim, há o tema da educação e da ligação às universidades. Portugal tem de ser capaz de transformar as suas universidades em verdadeiros motores de inovação.

Que marcas gostaria de deixar? Como é que gostaria de ser lembrado quando falassem da Unicorn Factory?

Mais do que ser lembrado, o que genuinamente desejo é que o projeto em si tenha um impacto cada vez maior. E que, daqui a uns anos, olhando para trás, possamos ver uma organização que conseguiu ser, ela própria, internacional; que construiu pontes reais entre ecossistemas e que ajudou a posicionar Portugal e Lisboa como autênticos centros de inovação à escala global. A Europa vai fazer uma aposta forte na inovação nos próximos anos. Espero que a Unicorn Factory, Lisboa e o país consigam não só fazer parte desse movimento, mas liderá-lo.

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