Opinião

O Evaristo que há em nós

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School

Uma pessoa amiga chamou-me à atenção para uma notícia sobre o novo chatbot de IA, em língua portuguesa de nome Evaristo.ai e que coloca a pergunta ao utilizador “Ó Evaristo.ai, tens cá resposta para isto?” Uma lufada de humor popular português, numa novidade tecnológica que diz muito da qualidade da investigação séria que se faz em Portugal.

A inteligência artificial aparece hoje em dia em tema de tudo o que é conferência e programa universitário. É um must do qual não conseguimos fugir. Tenho para mim que é um instrumento (e não o instrumento) de trabalho de uma utilidade que ainda hoje não conseguimos bem medir o total do seu impacto. E como instrumento de trabalho deve ser usado para o bem de todos, ou seja, para melhorar a capacidade de resposta aos problemas grandes e pequenos do dia a dia de uma forma mais precisa (depois de corretamente validada) e mais rápida.

Não enveredo pelos velhos do Restelo que apregoam os perigos da IA ao nível do emprego em vários sectores económicos. Sempre perante a evolução e a novidade houve presságios de tal acontecer e nunca aconteceu. Nem na revolução industrial, nem nas várias revoluções tecnológicas que, entretanto, aconteceram. Provocaram obviamente conversões laborais muitas vezes duras para o caso concreto, mas importantes e transformadoras para a sociedade. No entanto, para nós, irá obviamente exigir uma preparação mais em sintonia com a nova realidade e obrigar a que todos nos adaptemos à mudança, o que, como sabemos somos muito bons a apregoar, mas muito resistentes a fazer.

Quando comecei a minha vida académica (não digo quando para não me chamarem jovem) apareceram programas vistos na altura como altamente revolucionários como o Word, o Excel e o PowerPoint entre outros. Decidiu a universidade que dada a implicação dos mesmos na vida das empresas era necessário ensinar e pôr os alunos (e professores) a trabalhar com eles. Criou-se uma cadeira para isso. Hoje são instrumentos banais que “toda” a gente utiliza. Acredito que daqui a poucos anos também ninguém falará da IA porque será um fenómeno de utilização generalizada nas universidades, nas empresas e na casa de cada um de nós.

Da mesma forma que os meus filhos (infelizmente) já não conhecem a história do Evaristo porque está desenquadrada do mundo deles também nós daqui a uns anos iremos esquecer o Evaristo que há em nós e já não perguntaremos a um qualquer chatbot que exista “Ó Evaristo.ai, tens cá resposta para isto?” porque estaremos provavelmente não a discutir a inteligência artificial, mas outro qualquer tipo de inteligência. Nessa altura escreverei um artigo sobre o tema.


Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case-studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.

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