Fundador da WIRED considera a tecnologia como aliada da experiência humana no turismo
No BOOST 2026, David Rowan, fundador da WIRED, defendeu que a tecnologia deve servir as pessoas, de forma a transformar o turismo em experiências mais humanas, relevantes e sustentáveis.
David Rowan subiu ao palco do BOOST 2026 para desafiar o setor do Turismo a mudar de foco: menos obsessão pela eficiência e mais atenção à experiência humana. Na sua palestra “O Turismo amanhã: Tecnologia, Tendências e Transformação“, o fundador da WIRED e autor de “Non-Bullshit Innovation” defendeu que a tecnologia, e, em particular, a inteligência artificial, só cumpre o seu papel quando é colocada ao serviço das pessoas, reduzindo fricções, promovendo reconhecimento e tornando a experiência de viajar mais simples e significativa.
A partir da sua experiência a levar empreendedores e investidores tecnológicos ao Douro, Rowan explicou que esse modelo não corresponde ao turismo tradicional. “Não se trata de consumir um destino e seguir viagem, mas de criar razões para regressar, investir, trabalhar e estabelecer ligações duradouras com o território. É essa continuidade que gera impacto económico e social real, em contraste com uma lógica extrativa que, segundo o orador, continua a dominar grande parte da narrativa sobre o setor”, defendeu.
Para Rowan, o turismo enfrenta hoje um problema de fundo: tornou-se sinónimo de stress, saturação e conflito, tanto para quem viaja como para quem recebe. A resposta, frisou, passa por “colocar o amor de volta no centro da experiência”. Nesse contexto, a tecnologia não é um elemento frio ou desumanizante, mas um facilitador. A inteligência artificial permite eliminar pontos de fricção, como filas, burocracia, incerteza, e, ao mesmo tempo, criar experiências personalizadas em escala, ajustadas às motivações e interesses de cada pessoa, acrescentou.
O especialista alertou, no entanto, para o risco de subestimar a velocidade da mudança tecnológica. Comparou a forma como hoje se olha para a IA à reação inicial à COVID-19, quando muitos acreditavam tratar-se de um fenómeno distante e irrelevante. As curvas exponenciais, sublinhou, não dão tempo para adaptações lentas. No turismo, isso traduz-se em expectativas cada vez mais elevadas de fluidez, reconhecimento e relevância, moldadas por experiências digitais noutras áreas da vida, revelou.
Nesse cenário, Portugal surge, na visão de Rowan, como um potencial laboratório de novos modelos de turismo. A tecnologia permite usar dados para distribuir fluxos, valorizar regiões menos exploradas e criar comunidades de interesse em torno de temas como empreendedorismo, sustentabilidade, cultura ou ciência. O desafio não é técnico, mas estratégico e cultural: decidir se o país quer limitar-se a gerir volumes ou usar o turismo como plataforma para atrair talento, investimento e conhecimento.
David Rowan enquadrou ainda esta transformação numa mudança mais ampla, em que comunidades de interesse ganham peso face às geografias tradicionais e em que as barreiras à inovação nunca foram tão baixas. Nesse contexto, insistiu que a maior ameaça não é a inteligência artificial em si, mas a incapacidade de a compreender e usar. “A IA não vai tirar o vosso emprego”, afirmou, referindo que “mas alguém que a saiba usar bem pode”.
A sua intervenção terminou com um apelo à abertura e à diversidade de pensamento. Para o orador, o futuro do turismo dependerá da capacidade de questionar modelos estabelecidos, aprender com outros setores e integrar perspetivas distintas. A tecnologia fornece as ferramentas; o fator decisivo será a forma como são usadas para criar experiências mais humanas, mais relevantes e mais sustentáveis, revelou.








