Só 2% das famílias mais ricas estão preparadas para vender ou passar o negócio à geração seguinte
A falta de consenso entre os membros da família é apontada por 80% dos inquiridos como um dos principais obstáculos à preparação da venda de empresas familiares, superando as questões fiscais, referidas por 55,4%, revela um novo relatório.
Apenas 2,3% das famílias empresariais com património ultraelevado (UHNW) estão totalmente preparadas para vender ou transferir o seu negócio. A falta de alinhamento familiar surge como o principal obstáculo a este processo, à frente de fatores fiscais, jurídicos ou de governace, segundo o Julius Baer Family Barometer 2026, desenvolvido este ano, pela primeira vez, em colaboração com a EY.
As empresas familiares continuam a representar a principal fonte de riqueza das famílias com património ultraelevado (UHNW), com mais de quatro em cada cinco famílias empresárias a deterem uma participação maioritária de, pelo menos, 50% na empresa. No entanto, os dados mostram que a maioria não está preparada para uma eventual venda ou transmissão: 56,3% estão apenas parcialmente preparadas e 29,5% não estão preparadas para avançar com a transição.
O relatório revela que a preparação para a saída de um negócio vai muito além das questões financeiras e técnicas associadas à empresa. A falta de consenso familiar relativamente a uma eventual venda é o fator mais frequentemente apontado como obstáculo à preparação deste processo (80%), à frente de questões fiscais, de governance ou relacionadas com aspetos jurídicos (55,4%). A ligação emocional à empresa surge como a principal fonte de desacordo quando as famílias ponderam uma saída (60,6%), seguindo-se as divergências em relação ao futuro do negócio e as diferentes expectativas quanto à sua valorização.
O envolvimento da geração seguinte continua também a ser limitado. Embora 45,6% das famílias consultem a próxima geração sobre uma potencial venda, sem lhe atribuírem poder de decisão, apenas 18,5% a envolvem ativamente nas discussões em condições de igualdade na tomada de decisão.
Os dados revelam ainda que o desafio não se limita apenas à venda da empresa, estendendo-se à transição do negócio à geração seguinte. Quando essa opção é considerada, apenas 22,6% dos elementos da nova geração são vistos como preparados e plenamente capacitados para assumir a empresa. Em 65,9% dos casos, deverão reunir essas condições numa fase posterior, enquanto 11,6% não demonstram interesse em assumir o negócio familiar.
Sucessão geracional é um desafio para as empresas familiares portuguesas
Em Portugal, onde as empresas familiares têm um peso significativo na economia, o planeamento da sucessão ganha particular relevância, à medida que muitas empresas se aproximam de uma mudança de geração na liderança.
“As empresas familiares são a espinha dorsal da economia portuguesa: representam entre 70% e 80% do total das empresas, cerca de metade do emprego e aproximadamente 65% do PIB. Muitas das empresas criadas nas décadas de 1980 e 1990 estão agora a chegar ao momento que os seus fundadores adiaram durante décadas: decidir quem lhes irá suceder”, afirma Luís Barreto Xavier, Executive Director do Julius Baer.
Preservar o património é prioridade após a saída da empresa
A necessidade de preparação não termina com a conclusão da transação. Após a saída do negócio, preservar o património familiar conjunto é a principal prioridade para 79,4% dos inquiridos, seguida da clarificação dos papéis dos diferentes membros da família e da definição de um novo propósito comum.
O relatório revela ainda que as famílias precisam de se adaptar à passagem de um modelo de gestão centrado num único ativo empresarial para a gestão de um património líquido diversificado. Neste contexto, as estruturas de governação, os modelos de propriedade e as estratégias de investimento assumem uma importância renovada. Os veículos de investimento e os single-family offices encontram-se entre as estruturas mais frequentemente consideradas após uma venda, numa tentativa de conciliar a preservação do património no longo prazo com uma tomada de decisão familiar eficaz.







