Entrevista/ “O investimento na prevenção será sempre muito inferior ao custo da reconstrução”

Paulo Pimenta, Manager na Pretensa – Inovação em Engenharia
Foto: Paulo Pimenta, Manager na Pretensa - Inovação Em Engenharia, Lda

“As soluções técnicas existem, o conhecimento existe, os profissionais também. O que falta é vontade de transformar esse conhecimento em decisão. Preparar um país para um grande sismo exige visão de longo prazo e coragem para investir hoje naquilo que pode proteger vidas e a economia amanhã”, afirma Paulo Pimenta, Manager da Pretensa – Inovação em Engenharia.

A inovação, a sustentabilidade e a proteção sísmica são alguns dos pilares da Pretensa – Inovação em Engenharia, empresa portuguesa que tem participado em algumas das principais obras de engenharia do país e que viu o seu trabalho ser reconhecido, este ano, nos Prémios Tektónica Inovação 2026.

Em entrevista ao Link to Leaders, Paulo Pimenta, Manager da Pretensa, fala sobre o caminho que Portugal ainda tem de percorrer na prevenção do risco sísmico, a participação da empresa no isolamento de base do novo Hospital de Lisboa Oriental, a necessidade de garantir a continuidade operacional de infraestruturas após eventos extremos e o papel da sustentabilidade na transformação da construção.

E deixa uma mensagem aos jovens engenheiros portugueses: “Não se limitem mentalmente à dimensão geográfica do país e sejam curiosos. Vejam como se faz lá fora, aproveitem as excelentes escolas que temos cá e não tenham medo”.

A Pretensa venceu dois Prémios Tektónica Inovação 2026, com as soluções HATKO – Barreiras Acústicas e INSTAGRID. O que representa para a empresa este duplo reconhecimento num evento de referência para a construção em Portugal e na Península Ibérica?

Para a Pretensa, estes prémios representam uma aposta fundamental na sustentabilidade, na circularidade e na demonstração de que, apesar de sermos uma empresa pequena, somos uma empresa relevante ao trazermos tecnologias e sistemas construtivos que permitem que Portugal esteja na linha da frente do que de melhor se faz na Europa e no mundo em termos de construção e sustentabilidade.

“O sistema de barreiras acústicas Hatko responde, simultaneamente, a dois dos grandes desafios da sociedade atual: a valorização dos pneus em fim de vida e a mitigação do ruído ambiental”.

No caso da HATKO – Barreiras Acústicas, que problema concreto esta solução vem resolver?

O sistema de barreiras acústicas Hatko responde, simultaneamente, a dois dos grandes desafios da sociedade atual: a valorização dos pneus em fim de vida e a mitigação do ruído ambiental. Por um lado, transforma um resíduo de difícil gestão numa matéria-prima de elevado valor acrescentado, promovendo a economia circular e reduzindo significativamente a quantidade de resíduos encaminhados para aterro.

Por outro, oferece uma solução altamente eficaz para a redução do ruído, um fator que afeta milhões de pessoas e que está associado ao aumento do stress, à perda de produtividade e a diversos problemas de saúde. Além do desempenho acústico, destaca-se pela reduzida pegada de carbono, pela durabilidade e pela capacidade de integração paisagística. Ao adotarem esta solução, os nossos clientes não estão apenas a reduzir o impacto ambiental dos seus projetos, estão também a dar um passo concreto na descarbonização e na concretização dos objetivos de neutralidade carbónica, o chamado Net Zero.

Já a INSTAGRID foi distinguida na categoria de máquinas e equipamentos. Que necessidades do mercado levaram a Pretensa a apostar nesta solução?

A aposta da Pretensa na INSTAGRID responde a uma necessidade muito clara do mercado: tornar os estaleiros mais sustentáveis, mais silenciosos e mais eficientes, sem comprometer a produtividade. A eletrificação dos equipamentos permite reduzir emissões de gases e ruído em obra, melhorando as condições de trabalho e minimizando o impacto nas populações envolventes. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade tem de ser economicamente viável.

E é precisamente aí que esta solução se destaca: ao substituir geradores convencionais em muitas aplicações, permite reduzir custos de operação, simplificar a logística em obra e eliminar consumos de combustível. Além disso, o seu ecossistema é versátil para alimentar desde pequenas ferramentas elétricas até equipamentos industriais de maior potência, incluindo aplicações trifásicas a 400 volts, eliminando grande parte das barreiras técnicas à eletrificação dos estaleiros.

“O isolamento de base já está a ser aplicado no novo Hospital de Lisboa Oriental; sistemas de dissipação de energia foram utilizados em edifícios como o Hotel Lutécia (…)”.

A Pretensa tem vindo a afirmar-se em soluções antissísmicas, incluindo isolamento de base, juntas sísmicas e reforço estrutural. Cmo caracteriza hoje a realidade portuguesa nesta área?

Em Portugal, o estado da arte da engenharia sísmica evoluiu bastante. Hoje, já temos acesso a praticamente todas as soluções internacionais, desde isolamento de base e dissipação de energia até soluções de reforço estrutural para reabilitação. Na Pretensa temos estado envolvidos nessa evolução, trazendo soluções avançadas para projetos exigentes. O isolamento de base já está a ser aplicado no novo Hospital de Lisboa Oriental; sistemas de dissipação de energia foram utilizados em edifícios como o Hotel Lutécia; e, no património histórico, soluções de reforço de alvenarias têm permitido intervenções eficazes e discretas.

Do ponto de vista técnico, os projetistas estão cada vez mais familiarizados com estas soluções. O verdadeiro desafio hoje já não é técnico; é de decisão. É essencial que os donos de obra compreendam que o investimento em proteção sísmica é, na realidade, um investimento na continuidade operacional, na proteção das pessoas e na redução de custos futuros associados a reparações e paragens. Por isso, diria que o estado da arte vive uma transição. Atecnologia está disponível e validada, agora é preciso liderança para tomar decisões à altura desse avanço e esse é o papel do dono de obra.

A empresa está associada ao isolamento sísmico do novo Hospital de Lisboa. Que desafios técnicos coloca uma obra desta dimensão?

A principal dificuldade é que o hospital não foi inicialmente concebido com isolamento de base, ou seja, estamos a falar de uma adaptação posterior. Mas as vantagens são muito claras. Por um lado, contamos com parceiros internacionais de referência. Por outro lado, temos uma equipa de empreitada altamente motivada e uma equipa de projeto brilhante. Ou seja, não há nada que não possa ser ultrapassado. A prova está na experiência internacional. No Japão, por exemplo, um hospital em Kumamoto, que já tinha sofrido um sismo em 2016, voltou a enfrentar um sismo de magnitude 7,1 e manteve-se totalmente operacional, graças ao isolamento de base.

É precisamente isso que queremos garantir: que, quando for necessário, o hospital esteja imediatamente ao serviço da população, e não apenas dias ou semanas depois. Que, no momento em que for preciso, esteja de portas abertas e plenamente operacional. É também por isso que sentimos orgulho, não apenas enquanto profissionais, mas também enquanto cidadãos, por fazermos parte de um marco tão importante para a engenharia portuguesa.

“Felizmente, já existem soluções de reforço sísmico que podem ser implementadas sem interromper a atividade, reduzindo drasticamente os riscos”.

Quando falamos de um hospital, a resistência sísmica não é apenas uma questão de proteger o edifício, mas de garantir que ele continua operacional após um sismo. Esta dimensão ainda é suficientemente valorizada em Portugal?

Acredito que a mensagem sobre a importância da continuidade operacional dos hospitais já foi, em grande medida, assimilada pelos donos de obra. Nos novos hospitais, como o do Algarve e possivelmente em futuros projetos como o do Seixal, o isolamento de base tenderá a ser um dado adquirido. Mas esta visão não pode ficar limitada aos hospitais. É essencial garantir também a continuidade operacional de centros de comando, proteção civil, escolas e outras infraestruturas críticas. As escolas, por exemplo, além de protegerem crianças, estão disseminadas pelo território e podem ser pontos de apoio em emergências. Há ainda a questão do tecido empresarial. Tempestades recentes mostraram como muitas empresas demoram meses a recuperar.

Um sismo teria consequências muito mais profundas. É fundamental pensar na proteção das pessoas, das máquinas, dos stocks e da capacidade de continuar a operar. Felizmente, já existem soluções de reforço sísmico que podem ser implementadas sem interromper a atividade, reduzindo drasticamente os riscos. No turismo, isso é ainda mais evidente: o setor pesa cerca de 20% do PIB e, em Lisboa, tem um peso ainda maior na economia e no emprego. Garantir que hotéis e infraestruturas turísticas resistem e recuperam rapidamente é proteger postos de trabalho, receitas e confiança internacional. No fundo, trata-se de dar o próximo passo e passar da proteção dos edifícios à garantia da continuidade operacional da sociedade e da economia, porque, no final, o investimento na prevenção será sempre muito inferior ao custo da reconstrução e da perda de oportunidades.

Portugal tem memória histórica de grandes sismos, mas muitas vezes o risco sísmico parece desaparecer da agenda pública. Falta consciência, regulação, investimento ou uma combinação de tudo isto?

Penso que é uma combinação de fatores. Falta consciência, falta investimento e falta evolução na regulamentação. Mas, acima de tudo, falta memória. Quando um país passa muitas décadas sem um grande sismo, é natural que a perceção do risco diminua e que outras prioridades tomem conta da agenda política. Mas há aqui um desafio de liderança. Preparar um país para um grande sismo exige decisões cujos benefícios podem não ser visíveis durante um mandato.

Exige visão de longo prazo e coragem para investir hoje em algo que protege vidas e economia amanhã. Os grandes líderes são os que pensam para lá do seu tempo, não apenas os que gerem a emergência quando ela acontece. As soluções técnicas existem, o conhecimento existe, os profissionais também. O que falta é vontade de transformar esse conhecimento em decisão. No fundo, trata-se de escolher que legado se quer deixar. Estar ao lado das pessoas depois da tragédia, ou garantir que a tragédia tenha o menor impacto possível. É essa escolha que define os líderes que ficam na história.

“No Hospital da Luz, por exemplo, o custo do isolamento de base representou cerca de 1,2% do custo da estrutura e perto de 0,8% do investimento total”.

O isolamento sísmico de base ainda é visto por alguns promotores como um custo adicional. Como se demonstra o seu valor quando se considera o ciclo de vida de um edifício e o custo de uma eventual interrupção operacional?

Quando falamos do custo do isolamento sísmico de base, a pergunta certa não é quanto custa implementar, mas sim quanto custa não implementar. No Hospital da Luz, por exemplo, o custo do isolamento de base representou cerca de 1,2% do custo da estrutura e perto de 0,8% do investimento total. É um valor pequeno face ao impacto de não poder operar.

Mas o isolamento de base não é a única opção. Há soluções de dissipação de energia que podem ser instaladas em edifícios em funcionamento. O isolamento de base pode ser aplicado numa estrutura existente, ou seja, não é só uma questão técnica, é uma decisão económica. Quanto custa parar uma semana, um mês? Quanto perdi em faturação? Quantos funcionários vão ter que perder o emprego? Quantos clientes não voltam? Em muitos casos, uma interrupção prolongada pode pôr em causa a própria sobrevivência da empresa. A proteção sísmica não é um luxo nem um custo extra. É uma decisão racional de gestão de risco e de proteção do negócio. É uma escolha racional. Proteger hoje para garantir que o negócio continua amanhã.

“Cada vez mais, projetos, empreiteiros e equipas de engenharia trabalham de forma integrada entre Portugal e Espanha, tornando o mercado cada vez mais único”.

A Pretensa assume a inovação como eixo central da sua atuação, tanto no mercado nacional como internacional. Que mercados externos considera hoje mais estratégicos para o crescimento da empresa?

Para a Pretensa, o mercado estratégico natural é a Península Ibérica, em particular Espanha. Cada vez mais, projetos, empreiteiros e equipas de engenharia trabalham de forma integrada entre Portugal e Espanha, tornando o mercado cada vez mais único. Apesar de ainda existirem entraves à entrada, vemos a Península como um todo, como a principal porta de crescimento internacional para a empresa.

Que papel pode a engenharia portuguesa desempenhar em projetos internacionais de elevada exigência?

Temos bons projetistas, temos capacidade técnica e temos bons operários. A única coisa que nos falta é conseguirmos trabalhar em conjunto. Mas acredito que projetos como a alta velocidade possam ajudar a criar este espírito.

Que competências considera hoje indispensáveis nos quadros de uma empresa de engenharia que quer competir a nível internacional?

Curiosidade e a capacidade de tomar decisões…e não pensar que é por estarmos num pequeno retângulo que não podemos mostrar aos outros como se faz bem.

“Precisamos de motivar mais pessoas a seguir engenharia e a trabalhar no setor da construção, porque estamos na linha da frente de muitas das grandes transformações (…)”.

A construção enfrenta simultaneamente desafios de produtividade, sustentabilidade, segurança, custos e escassez de mão de obra. Qual destes desafios considera mais urgente?

Acho que tudo isto representa, acima de tudo, desafios e oportunidades. Precisamos de motivar mais pessoas a seguir engenharia e a trabalhar no setor da construção, porque estamos na linha da frente de muitas das grandes transformações que estão a acontecer — seja na adaptação às alterações climáticas, no desenvolvimento de centros de dados ou em tantas outras áreas.

Se alguém quer realmente fazer a diferença, a construção é um setor onde pode fazê-lo. É uma das áreas mais interessantes e desafiantes em que se pode trabalhar. Eu próprio vou trabalhar todos os dias com esse propósito: contribuir para construir um mundo melhor.

Temos, por isso, um grande desafio pela frente: mostrar às pessoas quão interessante, exigente e até divertido pode ser trabalhar na construção. E esse é um trabalho que deve ser feito em conjunto, envolvendo universidades e escolas, mas também entidades ligadas à formação e ao setor, como o IEFP, a AICCOPN e a Ordem dos Engenheiros.

A digitalização, a industrialização e a engenharia de precisão estão a mudar o setor. Como imagina a construção nos próximos dez anos?

Acho que, apesar de haver cada vez mais tecnologia, a construção será sempre um setor muito humano. Há ainda muitas áreas em que temos dificuldade em integrar a robótica. Em alguns aspetos, a construção continuará a incorporar a digitalização — o BIM [Building Information Modeling] já é uma realidade — e outras tecnologias, mas as pessoas continuarão a ser essenciais. Não se constrói uma casa sem pessoas, e é precisamente isso que torna este setor tão interessante.

Embora estejamos na linha da frente em muitas áreas, continuaremos a ser um setor profundamente humano. E, quando digo humano, refiro-me à ideia de que construímos sempre em conjunto, lado a lado com os nossos colegas. Nos bons e nos maus momentos, dependemos uns dos outros, algo que, de certa forma, falta noutras indústrias: esta empatia humana que está na base da construção. Ninguém constrói uma casa sozinho.

Que áreas de inovação deverão ganhar mais peso na Pretensa nos próximos anos?

Nos próximos anos, a Pretensa deverá reforçar, sobretudo, a aposta na sustentabilidade, ajudando os seus parceiros a avançar no caminho para o Net Zero, e na gestão do risco, assumindo um papel cada vez mais próximo dos clientes na preparação para eventos extremos, como sismos, cheias ou riscos tecnológicos.

Há alguma obra ou projeto que considere particularmente marcante no percurso da Pretensa?

Penso que, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes foi o meu pai ter conseguido conquistar 25% do pré-esforço da Ponte Vasco da Gama, competindo com todos os nossos outros concorrentes, que se tinham unido em consórcio. Essa ousadia, essa “loucura”, e sobretudo a ideia de que, apesar de sermos poucos, não somos pequenos nem irrelevantes, foi algo que ele conseguiu deixar profundamente marcado em todos nós na empresa.

Que conselho daria a jovens engenheiros que querem trabalhar em áreas de elevada especialização, como proteção sísmica, pré-esforço ou soluções estruturais avançadas?

Não se limitem mentalmente à dimensão geográfica do país e sejam curiosos. Vejam como se faz lá fora, aproveitem as excelentes escolas que temos cá e não tenham medo.

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