Numa destas semanas, ao assistir a uma conferência relacionada com os tópicos com os quais trabalho diariamente, dei por mim a perguntar-me o que estava ali a fazer. Um conjunto de supostos peritos na sua área apregoava, como se se tratasse de sacerdotes do ‘templo divino do conhecimento superior’, uma quantidade enorme de lugares comuns, chavões, exemplos fora de prazo e, na minha opinião, algumas barbaridades à mistura.  Saí na primeira oportunidade que tive, no primeiro intervalo.

Não resisti em partilhar os meus pensamentos num post no Facebook:

Depois de o ter publicado pensei para comigo “Lá estás tu com o teu mau feitio… ainda por cima, estás a ser tão arrogante como eles.”

Três comentários ao meu post, fizeram-me considerar que este problema poderia ser mais abrangente do que eu pensava e que, afinal, não era só um “problema” meu:

Enquanto saía do anfiteatro, analisei a audiência, maioritariamente putos novos de fato e gravata com ar de gestores profissionais. Uma nova pergunta assolou-me a alma: quantos “peritos” destes temos a contaminar os nossos jovens empreendedores e as suas start-ups, com lugares comuns, palavras ocas e frases feitas? Quantos peritos de Bullshit Bingo aconselham start-ups com verdadeiro potencial e os empurram na direção errada ou, por vezes, mesmo para o abismo?

Bullshit Bingo é jogo de ‘bingo empresarial’ que consiste em marcar 5 quadrados sequenciais na horizontal, vertical ou diagonal, mas onde os números são substituídos por palavras ou frases que consideramos bullshit. Exemplos destas palavras poderiam ser: segmentação, diferenciação, vantagem competitiva, janela de oportunidade, fatores críticos de sucesso, etc. Caso queiram praticar, encontram e podem imprimir os cartões aqui.

E vieram-me à ideia algumas perguntas:

“Serei eu um destes peritos no Bullshit Bingo, ou perito em desenvolvimento?”
“O que é preciso fazer, ter ou desenvolver, para alguém se tornar um verdadeiro perito?”

Revi mentalmente cada passo do meu percurso numa das áreas em que me tenho vindo a especializar nos últimos 10 anos, o Competitive Intelligence, em busca de pistas que me ajudassem a responder a estas questões. O que se segue é o meu diálogo interior que partilho, pois acredito que as conclusões a que cheguei são aplicáveis na generalidade dos casos.

“The Journey of a thousand miles start with one step”
― Lao Tzu

No final de 2007, fui contratado pelo Dr. Alberto da Ponte, CEO da Central de Cervejas, para implementar a função de Competitive Intelligence, reportando-lhe diretamente, e mais tarde como membro da Comissão Executiva. O CI é a disciplina que desenvolve insights acionáveis, com o objetivo de orientar as organizações no ambiente competitivo, informando a tomada de decisão e o desenvolvimento de estratégias de sucesso.

Nessa altura, os meus conhecimentos de CI eram básicos, na melhor das hipóteses, mas tinha 12 anos de experiência na Indústria Alimentar, um foco enorme nas Bebidas, em todas as funções comerciais, Vendas, Marketing e Trade Marketing, e ainda experiência de Consultoria em várias geografias. Temos de começar por algum lado e desejar aprender ao longo da jornada. Aliás, a maior recompensa é fazer o caminho, não ser considerado um expert. No mundo das start-ups, parece-me que se dá demasiada importância ao Exit e pouco ao caminho que aí levou.

“Se queres ir depressa vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado”
― Provérbio Africano

Em dois anos e meio, conseguimos levar a função de CI dentro da Central de Cervejas ao nível de World Class, avaliada com diferentes metodologias com vários fatores e com um universo alargado de empresas espalhadas pelo mundo.

Isto só foi possível porque toda a organização estava focada e alinhada em obter a liderança no mercado das cervejas. Sem o patrocínio da organização e a criação de uma cultura de Competitive Intelligence, teria sido impossível, muito menos em tão curto período de tempo.

Um perito nunca chega a essa condição sozinho.

Fundei a CPCI – Comunidade Portuguesa de CI e hoje sou Chair do Chapter da Strategic and Competitive Intelligence Professionals (SCIP) em Portugal.

Fazer parte de uma comunidade de prática permitiu-me conversar com profissionais com mais experiência nesta matéria e aprender imenso com eles, além de obter dicas de como evoluir mais rápido.

Neste momento, permite-me ter acesso a um conjunto de recursos de todos os tipos, desde conhecimento, a pessoas, a oportunidades de negócio, para além de me dar a oportunidade de devolver valor à comunidade, ajudando quem começa agora.

Networking está mais relacionado com o trabalho em equipa, do que com o que as pessoas realizam.

“He who dares to teach must never cease to learn.”
― Richard Henry Dann

Em 2016, lecionei CI em sete unidades curriculares diferentes em Pós-Graduações, Mestrados, MBAs Executivos, seis deles em mestrados pós-experiência, ou seja, para alunos com vasta experiência profissional. Partilhei também os sucessos obtidos como Casos de Estudo em várias Conferências internacionalmente com os meus colegas profissionais de CI, e sempre dentro das organizações que ‘governam’ esta disciplina, como por exemplo a SCIP, o WCCI, GIA, o ICI, etc.

Ensinar é uma enorme responsabilidade.  Ao partilhar, somos obrigados a estruturar os nossos pensamentos e analisar o que correu bem e mal, permitindo-nos aprender com os sucessos, mas também, muito importante, onde falhámos e onde podemos melhorar.  Permite ainda obter a verificação necessária pelos pares e ser questionados sobre perspetivas que nunca teríamos considerado, olhando para os vários temas através de um novo prisma, o que nos leva a novas conclusões e conhecimento.

Ensinar e partilhar é uma forma de aprender, autoconhecimento e evolução.

“If you want to change the world, pick up your pen and write.”
― Martinho Lutero

Escrevi um capítulo do ‘Art of Intelligence’, um livro de exercícios para o ensino do CI e fui convidado para partilhar o Case de Estudo da Central de Cervejas no ‘Handbook of Market Intelligence’, além de inúmeros artigos para todo o tipo de publicações, em Portugal e internacionalmente.

Os maiores sucessos e falhanços não servem de nada, se não foram partilhados. O nosso impacto é proporcional ao número de pessoas a que conseguimos chegar. Temos de ser capazes de transmitir o nosso conhecimento e experiência. A escrita compromete-nos com os nossos pensamentos. E isso é muito poderoso, para nós e para os todos os outros que tentamos impactar.

Diz-me e eu esqueço, ensina-me e eu lembro-me, envolve-me e eu aprendo.”
― Benjamin Franklin

Fundei uma start-up, sem financiamento externo, para lançar o conceito de Social Market Intelligence (SMINT), que desenvolve insights acionáveis, em tempo real, para a tomada de decisão e/ou desenvolvimento de estratégia, a qualquer nível e para qualquer função numa organização. Implementei o serviço para clientes mundiais, monitorizando até cinco mercados e catorze concorrentes em tempo real, da China até aos Estados Unidos da América. No processo, a Carla Hendra, Chairman do Grupo OgilvyRED – consultora estratégica do Grupo Ogilvy – convidou-me para ser o seu Global CI Practice Lead.

Just do it. Alguém que não tenha estado no negócio, nunca o poderá compreender nem tirar daí os ensinamentos que levam ao conhecimento. Na minha opinião, ninguém pode ser perito em Marketing se nunca foi vendedor, nem um verdadeiro vendedor se nunca fez Marketing. Ninguém deveria ser mentor de uma start-up se nunca lançou um negócio, ou um produto, ou uma marca, do zero!

“Innovation distinguishes between a leader and a follower.”
― Steve Jobs

Desenvolvi a primeira e única plataforma que conheço a nível mundial, para correr War Games, simulações estratégicas com o objetivo de desenvolver ou blindar a estratégia de entrada num mercado, a estratégia de portefólio duma empresa, uma marca, ou mesmo de lançamento de um novo produto.

A partir de um determinado nível, a forma de evoluir numa determinada área só é possível através da inovação. Será aí que começamos a percorrer o nosso caminho e a trilhar novos caminhos, tornando a jornada verdadeiramente nossa, e apenas aí teremos algo para partilhar de verdadeiramente novo. Seremos assim capazes de liderar, como um propósito claro que move quem quer aprender o tema em que nos especializámos.

Quantos autoproclamados peritos se regem por estes pensamentos e menções acima?

Parece-me que nunca nos tornamos verdadeiros peritos, pois todos os dias há novas oportunidades de evoluir. É um constante processo de iteração, em que os peritos de hoje serão a base do conhecimento dos peritos de amanhã.

E já agora, da próxima vez que estiver a considerar assistir a uma conferência ou perante um deste peritos em palco, porque não jogar uma nova versão, o Expert Bingo? Desconfio que as conferências passarão a ter muito menos audiência e que o número dos chamados peritos vai baixar consideravelmente.

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Sobre o autor

Luís Madureira

Luis Madureira é fundador da ÜBERBRANDS, uma boutique de consultoria estratégica que ajuda organizações e os seus líderes a navegar o ambiente competitivo com sucesso. É chairman da SCIP Portugal e foi recentemente distinguido com o Fellowship e convidado a... Ler Mais