Durante esta última década o panorama internacional económico teve várias nuances que foram criando e reforçando dinâmicas no desenvolvimento geoestratégico e geopolítico dos principais blocos económicos mundiais, mitigando algumas debilidades, mas trazendo também novos fatores de instabilidade.

Chegados ao ano de 2021 e com um cenário impensável para qualquer especialista ou até oráculo, o que é que temos então?

As evidências que a análise da economia global revelam são de um arrefecimento do crescimento da economia chinesa; um declínio do crescimento dos países emergentes nos últimos cinco anos; a queda da generalidade das matérias-primas; os valores baixíssimos do preço do petróleo; as perdas na maioria das bolsas mundiais; uma União Europeia (UE) com um Brexit de consequências imprevisíveis; uma guerra comercial entre EUA e China; e uma pandemia com um alto nível de imprevisibilidade;

Embora um fenómeno idêntico às bolhas cíclicas do passado ainda não tenha rebentado da mesma forma, a verdade é que as dúvidas e o ceticismo em relação à economia aumentaram e a juntar à crise económica internacional temos agora outros fatores adicionais que nos foram trazidos pela pandemia.

Se nos concentrarmos só na Europa verificamos que os fatores adicionais que a Covid-19 trouxe revelam que o maior impacto na economia ocorreu durante o segundo trimestre de 2020, quando a maioria dos países europeus introduziu medidas de bloqueio de fevereiro até maio. Na UE, nesse período, o PIB diminuiu 11,7% e o emprego em 2,6% em comparação com o trimestre anterior.

Esta foi a queda mais acentuada pelo menos desde 1995, data em que o Eurostat deu início à publicação deste tipo de estimativas. Agregando os 3,6% de queda no primeiro trimestre, quando a pandemia começou, o PIB na UE diminuiu 15,3%, no primeiro semestre de 2020. Já os dados do segundo semestre não serão melhores e o cenário negativo adensa-se.

Neste cenário como podemos empreender em tempos difíceis?

Muitos artigos sobre empreendedorismo em tempos de crise insistem frequentemente na ideia de que, apesar dos desafios, as circunstâncias difíceis também criam oportunidades.

Embora este não seja um momento propício para fazer movimentos arriscados, porque nestes ciclos negativos os riscos aumentam e o rendimento tem tendência a diminuir, também é verdade que alguns ajustes na economia estão a criar oportunidades de negócios.

Como defende o professor da Harvard Bussines School e especialista em economia empresarial, Forest Reinhardt, “(…) os líderes empresariais devem estar sempre preparados para compreender o ambiente económico e político em que os negócios são conduzidos e percecionar as oportunidades e riscos gerados pelo mercado e pelos ciclos económicos.”

Portanto, neste ciclo é tempo de apresentar caminhos com foco no cenário macroeconómico atual, tendo em conta os constrangimentos que vive a economia global.

As economias dos diferentes países movem-se a velocidades também elas diferentes e embora as perspetivas sejam complexas para todos os países, alguns estão a crescer e outros não. Se um qualquer empreendimento pode estabelecer uma ponte com esses países que estão a crescer, devem então os empreendedores ter como prioridade esse objetivo.

Nesta fase deve correr-se o mínimo de riscos possíveis e deve ter-se em consideração que a organização institucional, jurídica e fiscal dos diferentes países também é desigual e com assimetrias profundas em alguns casos. Alguns países têm instituições mais fortes e estáveis, o que os torna mais seguros, jurídica e comercialmente, tornando-os mais previsíveis para quem pretende investir.

Outro fator a ter em consideração são as reformas que os países, onde potencialmente se vai investir, estão a desenvolver nomeadamente no que diz respeito à abertura a novas atividades ou ao reforço e inovação das já existentes. Para enfrentar os novos desafios muitos países apostam na diversificação das suas economias. É aí que devemos apostar procurando negócios que estejam ligados a esta abertura e à necessidade de diversificação que gera novas oportunidades.

Por fim, devemos considerar prioritários os países que estão a implementar medidas e reformas tributárias que favoreçam, no plano interno, políticas de aumento dos rendimentos per capita e, no plano externo, que promovam a atração de investimento estrangeiro oferecendo benefícios às empresas que se estabeleçam e ajudem a desenvolver a economia.

Esta é uma mensagem de otimismo para os empreendedores que dá, na perspetiva nacional, uma visão de estabilidade e crescimento sustentado em tempos como os que vivemos, mas também oferece uma visão mais ampla para empreender ao nível global privilegiando os países que, neste cenário de dificuldade, crescem ou garantem a estabilidade necessária para a aposta de empresas em novos mercados por forma a garantirem assim a sua sobrevivência, manutenção e sucesso.

Este é definitivamente o momento para valorizar a mensagem chave de que na adversidade há sempre uma janela de oportunidade. Tenhamos a sabedoria e o engenho para a encontrar.

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Sobre o autor

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Rodrigo Gonçalves nasceu em 1974, em Lisboa. Gestor de Negócios, empresário, consultor em liderança e gestão de equipas e um empreendedor apaixonado e resiliente. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Lusíada, Mestre em Ciência Política, Cidadania e Governação pela Universidade... Ler Mais