Entrevista/ “Uma empresa com boas práticas de gestão sustentável é mais atrativa para aceder a capital”

Sofia Santos, fundadora e CEO da Systemic

Ajudar as organizações a terem práticas de gestão mais sustentáveis, de forma a corresponderem às expetativas do mercado e às exigências regulamentares, é o core bussiness da Systemic. Sofia Santos, fundadora e CEO, explicou em entrevista ao Link To Leaders o que faz uma empresa especializada em gestão responsável.

Mais do que uma consultora, a Systemic assume-se como parceira dos clientes com quem trabalha, aos quais tenta mostrar de que forma as práticas de sustentabilidade podem impactar os seus negócios.
Gestão sustentável, financiamento sustentável, envolvimento de stakeholders, estratégias e planos de ação para a mitigação das alterações climáticas, são algumas das áreas de expertise da empresa fundada e liderada por . Sofia Santos.

O que faz uma empresa especialista em gestão responsável?
Ajudamos as organizações a terem práticas de gestão mais sustentáveis de forma a irem ao encontro das expetativas de mercado, das exigências regulamentares e da própria vontade da empresa em caminhar em prol da sustentabilidade. Definimos a Systemic como um parceiro das organizações com quem trabalhamos, e que as desafia a pensar como podem gerar um impacto mais positivo na sociedade.

Em termos práticos, de que forma é que a Systemic ajuda as organizações e as empresas a entenderam a forma como a sustentabilidade pode impactar os seus negócios?
Ajudamos as empresas e as suas equipas a compreenderem a importância da sustentabilidade e dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. A identificar os riscos e as oportunidades decorrentes de uma melhor gestão dos temas da sustentabilidade, de forma a poderem incorporar a sustentabilidade nos seus processos de inovação, design de produto, gestão de risco e ao longo da sua cadeia de valor.
Temos muita experiência na integração dos temas ESG nas empresas financeiras e não financeiras, no acompanhamento do desenvolvimento de obrigações verdes, sociais e de sustentabilidade, e na identificação de práticas que as empresas e/ou projetos devem ter de forma a estarem alinhadas com a Taxonomia da União Europeia e conseguirem assim um melhor acesso a financiamento privado e público.

“Ainda há um grande desconhecimento sobre a importância que a sustentabilidade vai ter no acesso ao financiamento e mesmo no acesso a potenciais clientes (…)”.

Em que setores de atividade se notam mais lacunas nestas matérias?
Ainda há um grande desconhecimento sobre a importância que a sustentabilidade vai ter no acesso ao financiamento e mesmo no acesso a potenciais clientes, principalmente por parte das PME e das microempresas em Portugal. Diria que são as que estão distantes destes temas, o que é preocupante pois o próximo quadro comunitário até 2030 vai ter de garantir que os financiamentos públicos não danificam significativamente o ambiente. O que implica que as empresas que recorrem a fundos como o COMPETE deverão conseguir desenvolver projetos que evidenciem que não danificam o ambiente e que estão alinhados com os objetivos ambientais da taxonomia que define os critérios de atividades ambientalmente sustentáveis.

Quais os pilares essenciais de uma boa gestão sustentável?
Existem uma série de pontos fundamentais, mas os três que destaco são a consciência por parte dos gestores de topo da organização; o conhecimento, dos gestores de topo e dos diretores, sobre o contexto internacional, europeu e nacional; e a vontade de fazer diferente

Recentemente um estudo da Deloitte reportava que os líderes empresariais apesar de se mostrarem preocupados com as questões da sustentabilidade, ainda não adotam as medidas necessárias para tal. O que é que ainda está a faltar nas empresas nacionais para mudar este estado de coisas?
Falta conhecimento sobre como a existência ou não de boas práticas de sustentabilidade irá impactar o acesso ao capital, o acesso a clientes e as preferências do consumidor. Quando as empresas tomarem consciência disto, imediatamente o tema da sustentabilidade passará a ser central na sua atividade.

“(…) o financiamento sustentável – público e privado – pode contribuir para que a empresa consiga implementar práticas de inovação e gestão sustentável (…)”.

O que é que o financiamento sustentável pode fazer pelo sucesso de uma empresa?
O financiamento sustentável consiste em financiar projetos que contribuem para baixar a pegada ambiental. Logo o financiamento sustentável – público e privado – pode contribuir para que a empresa consiga implementar práticas de inovação e gestão sustentável, contribuindo assim para a sua diferenciação e competitividade.

Na sua perspetiva, o tecido empresarial nacional e o ecossistema de start-ups está a acompanhar devidamente o processo de transformação digital?
O processo de transformação digital penso que sim, apesar de essa não ser a minha área de especialização.

A que ferramentas devem as empresas recorrer para se tornarem mais resilientes e seguirem o caminho da gestão responsável?
As empresas devem seguir as recomendações da TCFD, devem alinhar a estratégia com os objetivos para o desenvolvimento sustentável, devem ter uma estratégia para a neutralidade carbónica, pelo menos para 2050, e devem ser certificadas BCorp. É fundamental ainda terem um código de fornecedores que inclua os temas da sustentabilidade e dar muita formação às suas equipas sobre o tema.

“(…) uma empresa com boas práticas de gestão sustentável é mais atrativa para aceder a capital público e privado (…)”.

A diferenciação das empresas e a sua competitividade também se faz pelas práticas de gestão sustentável que adotam?
De uma forma pragmática, uma empresa com boas práticas de gestão sustentável é mais atrativa para aceder a capital público e privado, pois é uma organização com menores riscos; gere de melhor forma os riscos ESG, e por isso aumenta a sua resiliência e isso é atrativo para investidores; divulga informação sobre as suas práticas, dando assim aos clientes a confiança e a transparência de que a empresa está alinhada com as boas práticas de mercado e cumpre com vários regulamentos e/ou diretivas comunitárias na área da sustentabilidade e atrai mais clientes empresas e clientes individuais.

“Nos próximos cinco anos a evolução será ainda muito mais rápida e “de choque”.

Ao fim de mais de 20 anos de carreira como é que avalia a evolução da atitude das empresas face à sustentabilidade e o seu alinhamento com os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS)?
Tem sido um processo muito lento. Só acelerou nos últimos três anos devido à regulação europeia de sustentabilidade que se fez sentir a nível do setor financeiro e com impactos relevantes nas restantes empresas. Nos últimos três anos a evolução foi de facto marcante. Nos próximos cinco anos a evolução será ainda muito mais rápida e “de choque”.

Quais os planos da Systemic para este ano? Que desafios vos esperam?
Queremos expandir o âmbito de atuação para mais projetos internacionais; reforçar a atuação nacional em projetos inovadores; iniciar a nossa área de formação especializada; aumentar a equipa com jovens que queiram gerar um impacto positivo com a sua vida e que sejam tecnicamente os melhores no mercado; promover um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal da nossa equipa; promover a criação de uma escola “da criatividade e do futuro” para crianças e jovens na Guiné-Bissau, para que possamos dinamizar esta abordagem noutros países africanos.

Respostas rápidas:
O maior risco:
Não ter tempo para pensar e aprender.
O maior erro: Achar que se sabe tudo.
A maior lição: Tudo pode mudar e sempre.
A maior conquista: Não ter medo.

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